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CAPÍTULO III
Iniciando pelo tabuleiro o velho começou a explicar:
“O tabuleiro, meu filho, representa a terra, a nossa caminhada nesse mundo. As
suas casas, em número de oito vezes oito, representam ciclos na nossa vida e
obstáculos que teremos que vencer ou contornar. Temos que procurar manter o domínio,
não só quantitativo, mas principalmente qualitativo das nossas emoções e
desejos de poder e posses materiais, pois no decorrer do jogo vemos claramente
que muito mais vale ter a posse de peças de maior poder de decisão que um número
maior de peças menores. As sessenta e quatro casas são divididas igualmente em
pretas e brancas e isto representa o eterno dualismo de todo o nosso universo. O
preto e o branco, como por extensão o mal e o bem, convivem lado a lado e nos
acompanham desde o início até o fim de nossas vidas. Da mesma forma que em
nossa vida, nada é inteiramente mau ou inteiramente bom, os dois valores são
interdependentes e inseparáveis. O nosso modo de ver, ou o nosso ponto de vista
é que nos dá a ilusão de uma maior ou menor força de quaisquer dos dois
lados. Veja só, pergunte a um pessimista qual a cor do tabuleiro e certamente
ele te responderá que é preto com casas brancas; pergunte agora a um otimista
e ele te responderá que o tabuleiro é branco com casas pintadas de preto. Cada
um vê e encara a vida do seu modo pessoal, independente da realidade una que é
o tabuleiro.
O jogo deve
ser encarado como se o tabuleiro fosse um campo de batalha que estivesse sendo
ocupado por duas forças inimigas que contam com o mesmo número de combatentes
ocupando posições relativas perfeitamente equivalentes no começo do jogo. Ao
iniciar-se o embate os dois opositores são perfeitamente iguais e somente no
decorrer da peleja é que um conseguirá sobrepujar o outro. Para conseguir a
vitória cada um dos adversários tem que se valer de seus próprios recursos,
de sua capacidade de prever o próximo passo do oponente, além de criar ações
e movimentos direcionados a neutralizar as forças contrárias ao seu próprio
interesse e, ainda, estar sempre atento ao desenrolar da partida para aproveitar
as oportunidades de erros e fraquezas do seu antagonista. Outra tática que você
sempre deverá procurar é fazer valer o seu próprio ataque como uma forma de
garantir a sua própria defesa, por não dar ao inimigo a possibilidade nem a
oportunidade de reagir estando sob perigo de morte imediata.
Vamos agora
estudar juntos o movimento individual de cada uma das peças que compõem o
jogo:
Começaremos
pelos PEÕES:
Em número de
oito, os peões representam o povo, a primeira unidade básica da sociedade, o
indivíduo, que intrinsecamente é fraco, não tem capacidade singular de se
defender e sempre é conduzido pelos mais poderosos, sendo geralmente usado e
sacrificado em benefício de uns poucos. Os peões caminham em um só sentido,
sempre para frente, sem nunca retornar sobre os seus próprios passos. Eles são
a linha de frente da batalha, os primeiros a enfrentarem o fogo inimigo,
caminhando em linha reta e decidida para o seu próprio holocausto em prol de
uma vitória de sua equipe. Como o povo, são freqüentemente atacados pelas
costas, caso em que não podem se defender sozinhos, como também enfrentam, com
louca coragem ou obstinada resignação, de peito aberto e sem defesa aos
ataques frontais, pois o seu poder de ataque é de curto alcance e somente atuam
sobre as duas casas laterais à sua frente. Mas enganam-se aqueles que pensam
que os peões são fracos. Quando unidos eles formam uma força sempre muito
maior que a simples soma das suas individualidades e mesmo um só peão, desde
que protegido, pode dar o golpe final no rei adversário. Os peões guardam
dentro de si a potencialidade de se tornarem tão poderosos quanto os maiores,
pois quando conseguem alcançar a oitava casa inimiga podem se transformar em
qualquer peça do tabuleiro, realizando assim a transfiguração que também é
inerente a todo ser humano, que também guarda dentro de si, em um recôndito
escondido que pode ser a qualquer momento alcançado, a grandeza de um deus.
Veja pois o que o simples e mero peão, ou por semelhança o simples e mero povo
pode realizar. Quando solitários e individualistas são frágeis e fácil de
serem combatidos, mas quando se reúnem tornam-se uma força tão grande que
poucos tem o poder de derrotar. Não se esqueças nunca meu filho de dar o real
valor e conhecer a verdadeira força que emana do povo.
Analisaremos
agora os BISPOS :
Os bispos são
duas peças que caminham sempre nas diagonais do tabuleiro e embora companheiros
nunca podem estar juntos. Um percorre o caminho das casas brancas e o outro anda
somente nas casas pretas. Representam mais uma vez o eterno dualismo do bem e do
mal, do puro e do pecado, do yin e do yang. São como as religiões que, todas
elas, somente nos apresentam dois caminhos: o caminho dos seus fiéis
considerados os justos e o outro caminho, dos outros que não professando a sua
fé estariam em pecado. Por isso eu te digo, filho: não te apegueis a nenhuma
religião em particular, nunca sejais presa de nenhum credo restrito, mas buscai
sempre o seu próprio caminho através dos ensinamentos de todas elas, que na
realidade detêm no fundo somente fragmentos da grande verdade que é una. Não
sejais como os bispos que não caminham em frente e têm que atingir seus
objetivos andando de lado e gastando muito mais energia para a realização de
suas tarefas do que alguém que segue um caminho reto, sem incertezas. Procure
sempre ouvir de dentro de si mesmo a voz da sua própria consciência. Ela é, e
sempre será, a sua melhor conselheira. Em todos os instantes da sua vida ela
pode não lhe revelar ou mostrar toda a verdade, mas estará sempre lhe dizendo
o que você efetivamente precisa saber naquele momento. O seu maior mestre, o
seu procurado guru, estará sempre ao seu lado, bem junto de você, oculto
dentro do seu próprio coração. Não é preciso de frases e paramentos ritualísticos
como os bispos, meu filho, para conversar com o CRIADOR de todas as coisas,
Aquele que tem respostas para todas as perguntas. Ele estará sempre onde sempre
esteve: bem dentro de você, que é parte integrante dele próprio. Por isso não
procure fora de você um caminho para o qual o atalho é você mesmo. Ouça o
seu coração e confie em suas respostas para lhe conduzir no caminho do bem e
do amor.
Agora
estudaremos os CAVALOS :
Os cavalos são
peças especiais neste jogo e têm um movimento bastante curioso em relação às
outras. À primeira vista parece difícil de ser compreendido, mas basta prestar
um pouco de atenção. Veja bem: o seu movimento é composto de dois passos
diferentes formando um “L”: no primeiro passo ele se desloca uma ou três
casas no sentido do seu objetivo e no segundo há um desvio para o lado, de três
ou uma casa, como se ele se tivesse perdido no caminho, ou tivesse esquecido
para onde ia. É importante e esclarecedor compararmos este movimento com o
caminhar de um homem que não tem o seu objetivo de vida definido e sem uma direção
certa tropeça ao léu, levado pelas circunstâncias impostas pela vida. De uma
casa preta ele só ataca uma casa branca e vice-versa, sem nunca poder lutar
pela cor da camisa que veste. Os cavalos saltam por sobre as outras peças do
tabuleiro e podem atingir objetivos ocultos e bem protegidos, desde que sejam
bem conduzidos. São duas peças poderosas quando existe um real cavaleiro a
comandá-las, porque, como serpentes podem dar um bote e atingir o adversário
à distância, mesmo quando detrás de uma barreira de defensores. Preste bem
atenção, filho: nunca deixe que o cavalo, que representa os seus próprios
impulsos ocultos, tome as rédeas das suas emoções e instintos e saia num
galope desenfreado sem obedecer à sua razão e ao controle da sua consciência.
Mantenha-se sempre no controle das suas ações, agindo com a razão que a sua
própria mente reconhece e com o aconselhamento oriundo do seu coração. Se você
conseguir aliar os seus impulsos racionais, seu raciocínio objetivo, com a
intuição que lhe advém do coração, você estará sempre percorrendo o
caminho mais curto para atingir seu objetivo. E mantenha sempre como sua
principal meta o crescimento interior e a busca do conhecimento e vivência das
coisas do espírito.
A seguir
veremos as TORRES :
As torres
representam aquelas pessoas que têm um relativo poder nas mãos e caminham
embrutecidas e egoisticamente pela vida sem perceber nada que está ocorrendo ao
seu lado. São peças poderosas e de muito valor no final do jogo, sendo que
muitas das vezes ficam quietas em seus cantos até que o combate se aproxime do
seu desfecho, para somente então passarem à condição de combatentes. No início
e meio do jogo ficam em uma posição de reserva e defesa, o que não significa
omissão mas uma espera e preparação de forças para o momento exato. Como
quatro sentinelas ou como quatro faróis, comandam solidamente os cantos do
tabuleiro. Se por um lado não devemos ser iguais aos bispos que não caminham
para frente, não devemos também ser torres que deixam de observar o universo
ao seu redor. Procure alcançar sempre o seu ideal, atente para o movimento
combinado dos bispos e das torres. Usando estas duas forças conjuntas
conseguimos um domínio quase que total de todas as casas do tabuleiro, atacando
e defendendo em todas as direções e em todos os sentidos. Sejamos também
assim, caminhemos sempre para frente com um sentido firme e decidido, observando
e aprendendo com tudo e todos os que nos rodeiam. As torres representam, ainda e
talvez principalmente, a parte material da nossa vida. São duas forças sólidas,
firmes que aparentemente nos dão segurança como as posses e propriedades
materiais que vamos acumulando ou lutando para acumular durante o curto período
das nossas vidas. Mas tudo isto é pura ilusão. Não são as posses materiais
que têm o poder de nos trazer a segurança e a felicidade, mas sim esta segurança
necessariamente tem que nascer e vir de dentro de cada um, o que acontece
somente quando se encontra a paz interior e o desprendimento das coisas
materiais. Fique sempre alerta filho, para não se apegar demasiadamente à matéria
e ao poder, esquecendo a sua espiritualidade e imensa riqueza interior.
Chegamos
agora à RAINHA :
A rainha, ou
dama, como também é chamada, é a peça de maior poder do jogo. Ela reúne os
movimentos combinados das outras peças, exceto o cavalo, tendo assim um enorme
poder de ataque e defesa. A sua importância é tão grande que deve ser
ardorosamente defendida durante todo o decorrer do combate, pois a sua perda
certamente acarretaria uma derrota. Ela representa o poder com letras maiúsculas.
O poder que dirige, o poder que está no comando absoluto. O poder que toma em
suas mãos o destino de milhares de outros menos favorecidos, sempre
subordinados. Ela representa também a mãe de todos nós, a mãe que deu a
vida, mas também aquela que pode nos tomar esta vida que nos foi dada, a seu próprio
prazer e discernimento. É a peça de maior potencial de força do nosso jogo e
sobre a qual nos devemos reter em analisá-la com maior profundidade, pois tendo
todo esse poder, ela, quando bem comandada, pode ser a nossa maior arma e, ao
contrário, se mal conduzida, pode nos levar à nossa própria ruína. É como
na vida, meu filho, em que todos nós temos a maior dificuldade de conviver
corretamente com o poder. O poder corrompe, inebria e pode transtornar
completamente a vida de um homem não preparado para tal. Mesmo um homem sério
e digno é facilmente seduzido pela atração fatal que o poder exerce,
modificando e alterando em pouco tempo todos os seus próprios princípios,
pelos quais ele pode muito ter lutado. O poder implica em uma recíproca de
responsabilidade e vigilância sobre os seus atos. O homem que tem poder sem ter
humildade, bem depressa torna se um tirano irresponsável que usa a tudo e a
todos como simples marionetes no teatro da vida, unicamente em seu próprio
benefício. Nunca olvides que tais ações geram um pesado fardo futuro que o
usurpador será forçado a resgatar.
Finalmente
alcançamos o REI:
Completando o
nosso estudo sobre as peças do tabuleiro terminamos com o estudo do rei, que é
o baluarte simbólico da nossa derrota ou vitória perante a vida. A peça tem a
sua movimentação possível em todos os sentidos e direções, porém caminha a
passos curtos, uma casa por vez. O rei não pode ser tomado pelo adversário e o
jogo termina quando ele não tem possibilidade de defender-se, nem pode fugir
para alguma outra casa, tombando sobre o tabuleiro num símbolo da sua morte e
derrota final. Na sua queda ele simboliza a nossa própria morte, a nossa
passagem deste nível de existência para outros planos de consciência,
demonstrando, pela possibilidade de iniciar-se outra partida, a eterna
transformação de tudo que nasce, cresce e no fim é destruído para poder
renascer de outra forma e em outra situação. Cada partida é única e as
possibilidades são tantas que nunca se repetirão igualmente em todos os seus
lances. Tal como as nossas próprias vidas que são parecidas sem nunca no
entanto serem idênticas. Atente bem, o jogo acaba mas a vida sempre continua.
Na vitória o rei simboliza a transposição de uma etapa de nossa própria
vida, o crescimento interior por intermédio do resgate de uma falta passada e
ainda a nossa capacidade de enfrentar e conseguir sobrepujar todos os obstáculos
que atravessam o nosso caminho, buscando e encontrando dentro de nós mesmos a
inesgotável reserva de força que, sem nenhuma sombra de dúvida, existe no
nosso interior. Meu filho, aprenda daí duas lições: nas suas vitórias não
deixe que os louros sobre sua fronte lhe ofusquem as visões que a vida e a luta
continuam e que após esta batalha, muitas outras virão no eterno ciclo de
transformação do universo; nas suas derrotas não se deixe levar pelo desânimo
e tristeza de ter perdido, mas antes disso faça delas uma lição proveitosa
para o futuro, analisando seus erros e se esforçando para não mais cometê-los.
Lembre-se que só perde quem joga e no inexorável jogo da vida somos todos
jogadores e aquele que fica à sua margem deixa de viver, sendo apenas um
assistente e espectador de um drama do qual devemos ser sempre o ator
principal.”
E ele encerrou as explicações sobre o jogo de xadrez dizendo:
“Meu filho,
na sua derrota final perante a morte, encare-a com o menosprezo que ela merece
de não ser um fim, mas única e tão somente um recomeço, uma transformação
e oportunidade para um novo renascimento.”
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