Capítulo II

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CAPÍTULO II

            Atendendo ao Rei o jovem começou a contar a sua história:

            Eu viajara durante vários dias e noites seguidas, já estava ficando sem comida e água, pois aquela região era seca e deserta e não conseguia encontrar nem um pequeno oásis, nem outro viajante que me cedesse um pouco da sua comida e bebida. Aquele havia sido um dia muito quente e só me restava um pequeno pedaço de pão preto e um pouco mais que um gole de água quando, pouco antes do anoitecer, sobreveio uma tempestade de areia.
            Eu ali, no meio do nada, sem nenhum abrigo nem recurso, fui pego de surpresa pela violência do vento e da areia que chicoteava sobre o meu corpo. Não conseguia enxergar nada e tive que praticamente cobrir meus olhos.
            Não havendo local onde me abrigar, andei sem rumo caindo e levantando por diversas vezes. Quase cheguei a ponto de desistir da luta pela minha vida e sabia que bastava não me levantar e deixar que a areia me cobrisse para nunca mais acordar.
            Não sei de onde busquei a força que me fez continuar andando tropegamente, absolutamente cego em busca de um abrigo. Sentia-me absolutamente perdido e sem rumo no meio daquela região inóspita.
            Não sei por quanto tempo caminhei nem a distância que percorri até que me choquei de encontro a uma rocha, na qual descobri uma pequena reentrância, tatendo-a com as minhas mãos já feridas de tantos tombos e choque com pequenas pedras.
            Naquela hora eu nada via e cobrindo-me com o meu já velho e roto manto rezei para que aquela tempestade acabasse e eu conseguisse me por a salvo fora do deserto.
            Foi aí então que, no auge do meu temor e perigo, ouvi um ruído perto da rocha que me servia de abrigo parecendo-me ser um gemido de alguém em agonia.
            Aquele ruído assustou me e eu escondi me mais em meu canto, esperando que o barulho nada significasse, mas o gemido se repetiu e acabei desprezando toda cautela e prudência lançando-me em socorro daquela pessoa desconhecida. Com muita luta e sofrimento, com os olhos ainda cheios da areia carregada pelo vento, tateando no escuro guiado pelo som de seu gemido, consegui encontrar e ajudar aquele ser em desespero, ajudando-o a se erguer e caminhar amparado em mim até o meu pequeno, mas seguro refúgio naquela hora de aflição.
            Enrolamo-nos juntos no meu manto e cansados pelo tremendo esforço da fuga da tempestade, adormecemos sob o embalo do uivo dos ventos e da poeira que chicoteava ao nosso redor.
            Assim passamos juntos aquela tão terrível e longa noite.
            Ao amanhecer do dia seguinte vi que ainda não estávamos livres de todo o perigo.
            O dia amanheceu lindo, com o sol brilhante se refletindo sobre as dunas de areia remexidas pela tempestade noturna. Tanta beleza me extasiou e por um momento esqueci-me de todas as agruras pelas quais havia passado nos últimos dias e horas.
            Porém por detrás daquela beleza me veio a angústia de absolutamente não ter a mínima idéia de onde estava e qual a direção tomar para conseguir sair daquela desolação, pois a areia havia ocultado todas as trilhas e modificado toda a paisagem pela qual eu me guiava no dia anterior.
            Foi com esta triste constatação que me lembrei do meu companheiro, que neste exato momento começava a acordar.
            Encarei-o pela primeira vez e pude notar que se tratava de um velho com aparência doente, já marcado pelas rugas de uma vida que devia ter sido bastante dura.
            Mas como a sua voz era doce!
            Suas primeiras palavras foram: “Obrigado, meu filho. Obrigado por salvar a vida de um velho que se dirigia ao seu último local de repouso”.
            Ele explicou-me então que, ao ter uma visão de sua morte próxima, retornava ao seu local de nascimento, pois o seu maior desejo era ser enterrado em sua aldeia natal. Contou-me que já caminhava há muitos dias, vindo de muito longe e que durante a tempestade perdera suas provisões e toda a sua água, só lhe restando uma mochila que carregava às costas, contendo um estranho jogo ao qual dedicara toda sua vida a estudar.
            Sentira-se perdido e impossibilitado de realizar seu último desejo e já tinha entregado sua alma a Deus quando imaginou estar sendo levantado nos braços de um anjo enviado pelo Senhor que o conduziria na sua derradeira jornada. Falou-me ainda do seu espanto ao reconhecer mãos humanas que o ajudavam a recolher-se a um abrigo, mas exausto nada conseguiu dizer e prontamente adormeceu.
            Neste momento, não sei porque, senti-me responsável por ele estar vivo e fiz o firme propósito de ajudá-lo a realizar a sua última caminhada.
            E assim, eu que me via perdido no deserto, sem noção de para onde me dirigir, adquiri uma nova missão e também esperança, pois o velho sabia perfeitamente onde estávamos e conhecia o caminho certo e seguro a seguir.
            Fraternalmente dividimos a pequena porção de água que me restava e do minguado pedaço de pão que me sobrara fizemos dois punhados que comemos com vagar e prazer.
            Pusemo-nos então a caminho, com dificuldade, pois eu tinha que servir de muleta para o pobre e doente velho. Mas para quem conhece todos os caminhos fica fácil encontrar locais de repouso e alimentação e logo pudemos descansar à sombra de um rico oásis que abundantemente matou nossa fome e sede.
            Recuperamos nossas energias com um dia inteiro de não fazer nada. Munidos de provisões de frutas e bastante água retomamos a nossa caminhada no dia seguinte. Estávamos revigorados e mais tranqüilos pelo bom restabelecimento do meu companheiro de viagem.
            Caminhamos mais alguns dias até chegar a um pequeno vale verdejante na orla do deserto onde o velho sabia se localizar uma aldeia com a sua gente há muito tempo deixada.
            Outra surpresa desagradável esperava o já agora meu amigo! Não havia mais aldeia, mas somente ruínas já gastas e corroídas pelo tempo!
            A decepção e tristeza espalharam-se imediatamente nos olhos da boa criatura ao meu lado e o seu olhar transpassou o meu coração, partindo-o em mil pedaços de compaixão.
            Mas para minha surpresa tal sofrimento durou somente um breve, mas profundo, momento. O velho tomou uma inspiração bem lá no fundo e enxugando uma lágrima rebelde virou-se para o meu lado e reconfortou-me.
            O que fazer quando não há remédio? Não é possível modificar o que está feito!
            E naquele lugar ermo, abandonado e solitário o velho começou a construir um pequeno abrigo aproveitando as ruínas deixadas para trás, onde pretendia passar o resto dos seus dias, com resignação e ternura no coração.
            Eu sentia-me constrangido em deixá-lo só, pois em uma de nossas interessantes conversas ele havia me confidenciado o seu medo de não ser cremado e nem ter um sepultamento digno.
            Muito timidamente ele pediu-me que permanecesse ali até o momento da sua morte, o que segundo ele próprio sentia, não iria demorar.
            A contragosto no princípio com sua tenaz insistência, eu concordei egoisticamente esperando que realmente sua vida restante fosse bastante curta e eu ficasse logo livre daquilo que naquela hora me parecia um fardo.
            Na ânsia de me convencer a ficar, disse não ter dinheiro ou posses para me pagar por este serviço, mas que durante o resto do seu tempo de vida ensinar-me-ia o jogo do qual nunca se separara.
            Resolvi aceitar este oferecimento e a partir daí todos os dias sentávamos e ele me ensinava o jogo que, segundo ele, representava de maneira simbólica e sintética a nossa vida neste planeta.

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