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Que havia barulho, havia. Por isto o muro alto, o mais
alto que dava e o preço tão baixo. Uma casa daquelas
por aquele preço. Mas, ele, o proprietário, era
um cara honesto e não queria esconder nada. Por isto contava
do barulho. - E dava para esconder? O barulho estava lá
e ficava lá o dia inteiro. As crianças... Elas
gritavam, batiam latas, simulavam tiroteios. ''Cow-boys'' autênticos.
Apaches sanguinários. As crianças. Pois aquelas
crianças conseguiram. Ele ia abandonar a casa que havia
construído com tanto capricho. - Você viu a lareira?
Os banheiros? - Mas o barulho... começava às seis
da manhã e seguia pelo dia inteiro e parte da noite. Desigual.
Torturante. Os gritos. Não tolerava os gritos. Quando
menos se esperava , aquela coisa aguda, rasgando o dia. Algumas
vezes era a própria mãe, exigindo que as crianças
se aquietassem, que por favor parassem com a bagunça.
- Era apenas mais uma voz que se somava às outras, porque
ninguém obedecia. Afinal, os nervos não agüentaram
mais. Eles eram muitos. Dez? Doze meninos? Quantos meninos estavam
ali? Não dava para saber. Quando o muro era mais baixo,
há alguns anos, contara cinco cabeças castanhas,
dez olhos marotos. Agora, não sabia mais. A mãe
sempre estava grávida e eles nasciam, nasciam. Todos os
anos eles nasciam. Afinal, ia embora. Não queria mais
ficar ali. Não agüentava mais. Desejava que o comprador
tivesse sorte e fosse feliz, pois as crianças crescem
e o desespero não dura para sempre. Ele até pensou
em suportar mais um pouco, mas viu a mãe das crianças,
grávida outra vez. Por isto resolveu. Não era eterno,
nem jovem o suficiente para se dar ao luxo de esperar mais tempo.
Queria sossego. Merecia. Sentia em deixar casa tão boa,
feita com carinho, mas fazer o quê? - Olhou as paredes. Uni, duni, tê ... - berrou o garoto começando
nova brincadeira. - Ele, o comprador, segurou as chaves que o
outro estendia. - Eu gosto de crianças - falou , quase
se desculpando, enquanto o homem seguia às pressas, como
quem fugia. Às vezes, ele deixava presentes sobre o muro: Oito
maçãs. Oito caramelos. Também recebia presentes:
Dois botões enormes, um pedaço de elástico,
uma peça de quebra - cabeças, uma lasca de vidro
vermelho, que desprendia lampejos quase mágicos. Mas,
o máximo foi quando encontro cinco figurinhas dos reis
do futebol. E, porque já havia presenciado uma briga feia
pela posse daquelas figurinhas é que descobriu o quanto
era estimado. Os tesouros, transferidos de cada bolsinho para
cima do muro, confirmavam isto. Era incômodo o silêncio. Ele ficava horas olhando
o muro, lembrando os garotos. Po onde andariam? Brincavam de
quê? A´, chegaram os novos inquilinos. Um casal tranqüilo.
Ela cuidava do jardim, plantava roseiras. O marido devia gostar
de música, pois algumas vezes a voz da Elis, discretamente,
muito discretamente, povoava o entardecer. Tudo tão triste...
Então ele notou. A vizinha, a vizinha estava grávida.
Mais alguns anos e tudo seria como antes. Mais alguns anos. Agora, explicava ao comprador: - Uma casa tão boa...
- Viu a lareira? Os banheiros? Tudo conservado com capricho.
Mas era um cara honesto e não podia esconder: - Rua triste,
silenciosa demais. Por ali, até o canto da Elis era sufocado.
Difícil, difícil suportar aquele silêncio. Uni, duni, tê... - ele lembrava.
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