UNI, DUNI, TÊ!

Regina Benitez

 Que havia barulho, havia. Por isto o muro alto, o mais alto que dava e o preço tão baixo. Uma casa daquelas por aquele preço. Mas, ele, o proprietário, era um cara honesto e não queria esconder nada. Por isto contava do barulho. - E dava para esconder? O barulho estava lá e ficava lá o dia inteiro. As crianças... Elas gritavam, batiam latas, simulavam tiroteios. ''Cow-boys'' autênticos. Apaches sanguinários. As crianças. Pois aquelas crianças conseguiram. Ele ia abandonar a casa que havia construído com tanto capricho. - Você viu a lareira? Os banheiros? - Mas o barulho... começava às seis da manhã e seguia pelo dia inteiro e parte da noite. Desigual. Torturante. Os gritos. Não tolerava os gritos. Quando menos se esperava , aquela coisa aguda, rasgando o dia. Algumas vezes era a própria mãe, exigindo que as crianças se aquietassem, que por favor parassem com a bagunça. - Era apenas mais uma voz que se somava às outras, porque ninguém obedecia. Afinal, os nervos não agüentaram mais. Eles eram muitos. Dez? Doze meninos? Quantos meninos estavam ali? Não dava para saber. Quando o muro era mais baixo, há alguns anos, contara cinco cabeças castanhas, dez olhos marotos. Agora, não sabia mais. A mãe sempre estava grávida e eles nasciam, nasciam. Todos os anos eles nasciam. Afinal, ia embora. Não queria mais ficar ali. Não agüentava mais. Desejava que o comprador tivesse sorte e fosse feliz, pois as crianças crescem e o desespero não dura para sempre. Ele até pensou em suportar mais um pouco, mas viu a mãe das crianças, grávida outra vez. Por isto resolveu. Não era eterno, nem jovem o suficiente para se dar ao luxo de esperar mais tempo. Queria sossego. Merecia. Sentia em deixar casa tão boa, feita com carinho, mas fazer o quê? - Olhou as paredes.

Uni, duni, tê ... - berrou o garoto começando nova brincadeira. - Ele, o comprador, segurou as chaves que o outro estendia. - Eu gosto de crianças - falou , quase se desculpando, enquanto o homem seguia às pressas, como quem fugia.
Eu gosto de crianças - ele repetiu.
E gostava. Mandou baixar o muro. Agora, além dos ruídos que ouvia ele via os garotos. Eles espiavam , curiosos, para o rosto do novo vizinho, que sorria. E porque às vezes cabe tanta ternura num sorriso, os garotos sorriam também.
Uni, duni, tê...- captava cada gesto. Cada grito. Muitas vezes os oito meninos subiam no muro e olhavam para ele, que também olhava para os meninos. Sabe- se lá o que pensavam as oito cabeças, que se inclinavam e enviesavam, sondando . Então, um deles, qualquer um, começava a rir e o riso contagiava a todos. Ele, o vizinho novo também ria e isto, de certa forma, fez com que se integrasse ao grupo. Fosse aceito. E começou uma estima forte. Sem palavras, mas forte. Eles se entendiam.

Às vezes, ele deixava presentes sobre o muro: Oito maçãs. Oito caramelos. Também recebia presentes: Dois botões enormes, um pedaço de elástico, uma peça de quebra - cabeças, uma lasca de vidro vermelho, que desprendia lampejos quase mágicos. Mas, o máximo foi quando encontro cinco figurinhas dos reis do futebol. E, porque já havia presenciado uma briga feia pela posse daquelas figurinhas é que descobriu o quanto era estimado. Os tesouros, transferidos de cada bolsinho para cima do muro, confirmavam isto.
Os anos passavam. Barulho? É existia barulho. Um barulho bom que contava de alegria.
Mas, porque tudo tem fim, aconteceu o dia em que eles se foram. O caminhão levou a mobília, a mulher, as crianças e até o pai das crianças, que pouco se via. Mudavam de casa, de cidade. Depois da agitação, da gritaria, dos acenos de adeus, o silêncio.

Era incômodo o silêncio. Ele ficava horas olhando o muro, lembrando os garotos. Po onde andariam? Brincavam de quê?

A´, chegaram os novos inquilinos. Um casal tranqüilo. Ela cuidava do jardim, plantava roseiras. O marido devia gostar de música, pois algumas vezes a voz da Elis, discretamente, muito discretamente, povoava o entardecer. Tudo tão triste... Então ele notou. A vizinha, a vizinha estava grávida. Mais alguns anos e tudo seria como antes. Mais alguns anos.
Num dia de chuva decidiu. Não era eterno, nem tão jovem que pudesse esperar tanto tempo.

Agora, explicava ao comprador: - Uma casa tão boa... - Viu a lareira? Os banheiros? Tudo conservado com capricho. Mas era um cara honesto e não podia esconder: - Rua triste, silenciosa demais. Por ali, até o canto da Elis era sufocado. Difícil, difícil suportar aquele silêncio.

Uni, duni, tê... - ele lembrava.
Entregou as chaves e afastou - se, bem depressa, como quem fugia.

 

 

 

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