Chuva de Papel

(Quem Sou?)

  Sinais, símbolos , letras. Meu mundo é feito de letras que se transformam e formam situações e personagens. Nunca estou só. Sempre existe uma multidão que eu carrego pra lá e pra cá. Gosto muito de histórias e sempre estou com alguma coisa sendo imaginada dentro de mim.
Às vezes me perguntam: " E poesia? Você faz poesia?" respondo que não. O que faço são constatações. Constatações. Apenas.
Também é verdade que a carranca do barco em que eu navego tem um olho de luz e um olho cego. Por isto, se em certas horas a luz se despeja sobre todas as coisas, em outros momentos tudo é escuridão. O que escrevo na escuridão melhor não contar.
Não conheço o meio-termo. Não sei nada sobre limites e equilíbrio. Sempre navego pelos extremos de luz e de escuridão. E gosto de uma e gosto de outra. E fico aqui e ali. Às vezes é a luz que me envolve, às vezes é a escuridão. Das duas brotam as minhas histórias. E é gente que não acaba. Histórias.
Acho importante escrever. Publicar é outro departamento e não me preocupo com outros departamentos. Gosto mesmo é do núcleo: palavras formando imagens, agindo às vezes como tatuagens, às vezes como cicatrizes, mas marcando a pele.
De uma forma geral escrevo histórias que gostaria de ler e que não escreveram. Nunca pensei em ser escritora. Queria mesmo ser personagem. Algumas vezes consegui, mas ninguém me captou inteira. Então me faço personagem. Crio festas pra mim, invento trajes, me cerco de bronzes e cristais. Preparo mesas fartas , abuso das especiarias sofisticadas. Fico igual bruxa lidando com sementes e pozinhos , inventando coisas. Tanto o meu lado direito quanto o avesso é assim. Adoro estar na cozinha, criando. Em geral não sigo receitas, nem fórmulas. Tudo é meio no olho e na invenção. Muitas de minhas histórias nasceram quando estou com as mãos ocupadas. Afinal, a minha batalha verdadeira se passa entre o fogão e a geladeira.
Por outro lado eu entendo este meu barco como uma habitação. E a minha habitação pessoal é muito suntuosa. Quem me vê com jeans e camiseta nem imagina. Tudo que vi pelo mundo, de Curitiba a Paris e New York parece pequeno e despojado perto do castelo- barco que existe em mim e no qual navego. Por isto, por ser uma habitação, não posso permitir por aqui a entrada de qualquer um. Só as pessoas de quem eu gosto passeiam em meu íntimo. Detesto a mediocridade e a incompetência. Entro em surto. Mas, de um modo geral estou calma, sempre organizando histórias. Andando pela rua, descascando a fruta, arrumando a casa, em minha volta sempre existe uma multidão de personagens que me chamam e exigem minha atenção.
Política? Jamais. Tenho pra mim que "Os partidos partem a bandeira e eu gosto dela inteira". Além do mais, descobri que "do presidente ao boy, ninguém é herói", entretanto, cheia de contradições, até suponho que era tão alienada no meu dia a dia, que já estava engajada e nem sabia.
No mais, "Às vezes me adivinho inteira de aço/ e me festejo/ e vibro/ aí, me despedaço/ em pedaços de vidro.
Nos domingos meu barco encontra o porto . Eu quase enlouqueço. Não consigo entender os domingos. Para o tempo passar escrevo mais e mais constatações. Domingo/ é desses dias que dão medo.
Gosto mesmo é da noite. A noite é o meu país.
Claro, claro que não faço poesia. A poeta aqui de casa é minha filha. Eu fico completamente louca pelos versos dela. Ela diz as coisas de um jeito muito especial e diferente de tudo o quanto já li na vida. Coisas que fazem pensar.
E se um dia eu fiz alguma coisa que valesse a pena foi em parceria: a Greta. Acho ela o máximo. É a minha poesia. Vivendo com ela, sempre interessada em centenas de coisas e com o pai dela que oscila entre a crítica de artes plásticas, a ciência e a filosofia, os dois falando e pensando em várias línguas eu me sinto muito bem. Com meu pai e minha mãe também era uma vida fascinante. Sempre convivi com pessoas muito inteligentes e criativas. Tenho muita sorte.
Adoro estar em casa. Não troco minha casa, a paisagem que vejo pela janela, por lugar nenhum do mundo. É que meu mundo é aqui, com as pessoas que gosto, com meus gatos, com meus livros. Sou bastante animista e todas as coisas que estão próximas de mim eu trato como se tivessem vida e o melhor é que descobri que elas têm vida. Um exemplo: a minha enceradeira elétrica. Ela me conta histórias. Quando escuto o barulhinho dela as histórias surgem. Um dia, ela fez um barulho estranhíssimo, como se gritasse o meu nome e parou. Não sosseguei enquanto não vi que ela estava totalmente curada. E este é só um exemplo. Eu sou assim com tudo e também supersticiosa e fetichista guardo o papel da bala que me deram, o copo, a panela. Também compreendo quando algum objeto morre de verdade. Eu sinto quando eles se vão. Então fico muito triste e nestas horas chego a chorar. Sou frágil. Mas , meu Deus! Como interpreto bem e como sou valente quando na minha frente não tem gente. E não organizem minha desordem, por favor. Ela é feita de amor.
Coisa que me põe doente é saber de qualquer maldade feita contra animais. Isto eu não agüento mesmo. Fico em tal desespero que abro em mim feridas enormes. Não entendo que os seres humanos usem animais como se fossem empregados. Os que convivem comigo são absolutamente selvagens. No momento tenho quatro gatos. Nada de bichos amestrados, imitando gente, usando lacinhos e coisinhas. Um dia a veterinária deu umas florezinhas para fazer uma maria- chiquinha na minha gata e eu fiquei indignada. Quase enfio as florezinhas nos cabelos da veterinária. Eles todos por aqui são absolutamente livres. Fico penalizada de mantê-los em apartamento mas quando quis levá-los para brincar em local aberto constatei que preferem o habitat deles, o lugar onde nasceram, o apartamento. E descobri que morando no ap do centro da cidade, meus gatos são o exemplo da maior liberdade. Gosto dos animais macios , sedosos e vivos. Tenho o maior respeito por todos eles, do menorzinho ao maior e mesmo que não sejam tão macios , nem tão sedosos. Todos eles são meus amigos. Nunca ousei comer carne.
E sofro com eles. Um dia escrevi a Ode Animal: Diante dele,/o animal atropelado,/todas as minhas feridas/da mais nova às mais antigas/resolveram se mostrar,/exibir-se /igual centelhas./E canalhas,/se incendeiam como palhas/à menor das labaredas./Feitas de luz/ e de dor,/ emblemáticas cintilam./E eu,/um esquisito out-door de cicatrizes,/canto cantos infelizes/ diante de minhas medalhas/ que sufocam./São mortalhas./E me compreendo inibida/diante de toda ferida/de quem feriu sem querer/distraído/olhando a vida.
Parece uma contradição eu ficar torcendo pela vida. Porque para ser absolutamente sincera não gosto muito de viver e às vezes, penso na morte, a minha, com muita ternura e algumas expectativas. Uma coisa assim como uma viagem maravilhosa, uma magnífica aventura. Acho o Dia dos Mortos uma data muito especial. Gosto deste dia tanto quanto do Natal e do Reveillon. My God , My Dog, My. Sou movida a moviola, inteira ficção, ficcional e esta doença pega...
Algumas constatações não ouso contar porque como afirmei no início, a carranca do barco em que navego tem aquele olho de luz e aquele outro cego. E sei que quando o olho que é cego remexe na lama com delícia e demora o olho que é de luz desesperado chora. E nessas horas eu fico perguntando onde Deus se escondeu . Será atrás da roseira que exibe rosas pretas? Melhor calar o lado obsceno de minha poesia. Mesmo assim tenho a opinião de que o escritor não deve ter medo ou vergonha de usar qualquer palavra, seja ela qual for. Quem escreve não pode, não deve ter preconceitos.
Afinal, eu aqui. Personagem. Como num sonho. Como sempre quis. E acho que no último ato eu até me mato. Ser estrela é o fim.
No mais, as letras, os sinais, os signos. Porque afinal, na ilha de edição que é meu coração, luminoso e antisséptico, guardo um enorme amor por todos os aidéticos e algumas flores, parecidas com as rosas de Morandi, bizarras, grandes e informais para toda prostituta e todos marginais.
Pois é. Sou assim. Inteira feita de letras, signos, sinais. Tudo no papel. Chuva, chuva, chuva de papel.

 

Currículo

 REGINA BENITEZ-Jornalista, desenvolve seus trabalhos como chefe da Assessoria de Editoração da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.
Desde muito jovem colabora nos principais jornais da cidade, tais como O DIA, DIÁRIO DA TARDE, DIÁRIO DO PARANÁ e ESTADO DO PARANÁ . Mais tarde publicou contos no Suplemento CULTURA, do ESTADO DE SÃO PAULO.
Em l962 diplomou - se em Jornalismo. Em l965, publicou um livro de contos: A MOÇA DO CORPO INDIFERENTE.
Em l973 foi apontada como a melhor participação paranaense , no Concurso Nacional de Contos promovido pelo Governo do Estado, através da FUNDEPAR, com os trabalhos A COLEÇÃO, MÚLTIPLA e EXATO COMO UM DEUS.
Em l986 recebeu a primeira colocação na vigésima - primeira FEMUP, com o conto APENAS UM PRESENTE PARA O AP 301, em Paranavaí. No I Concurso Nacional de Contos de Maringá, em l987 encontrou o primeiro lugar com a obra ÉPOCA DE DESCOBERTAS. Em l988, recebeu o prêmio Josué Guimarães e o troféu Vasco Prado, primeira colocação no Concurso do Instituto Estadual do Livro de Porto Alegre e Universidade de Passo Fundo, com os trabalhos que compunham a TRILOGIA DA PERPLEXIDADE: PEQUENA E FRÁGIL, IGUAL ÀS ESTRANHAS MULHERES DAS TELAS DE MARC CHAGALL e ESPELHO. No II Concurso Nacional de Contos de Maringá (Cirema do Carmo Corrêa- Madre Mônica), recebeu novamente a primeira colocação com o trabalho FLEXÍVEL COMO UM ARCO. Em 1990 recebeu novamente a primeira colocação em Paranavaí com o conto MENINA SOLIDÃO e o primeiro lugar na ASALEP, da Assembléia Legislativa com o trabalho ESPECIALISTA EM ORQUÍDEAS . Em l995 recebeu o troféu Macunaíma, em Imperatriz no Maranhão, com o conto UM DIA, LÁ LONGE. Em Santos(SP), no ano de 1995, recebeu a primeira colocação com o conto PARA VOCÊS, COM AMOR. Em 1998, recebeu a primeira colocação em Niterói (RJ), através da Associação Niteroiense de Escritores com o conto INFELIZES PARA SEMPRE, o primeiro lugar em Três Corações(MG), com MUDANÇA e mais um troféu barriguda, em Paranavaí(PR), com FESTA DE MARIPOSAS.
Também recebeu destaque por trabalhos apresentados em Franca, Campinas(UNICAMP), Guarulhos e São José dos Campos ( SP), Brasília (DF), Santa Maria, Roque Gonzales e Pelotas(RS) Rio de Janeiro (RJ) e , além de Curitiba, nos municípios paranaenses de Jacarezinho , Campo Mourão e Foz do Iguaçu.
Faz parte das antologias ERKUNDUNGEN, editada na Alemanha Oriental, com o conto O MÁGICO; ASSIM ESCREVEM OS PARANAENSES, da Alfa Omega e CONFABULÁRIO, edição da Imprensa Oficial do Estado.
Reconhece, contudo, que sua melhor obra foi realizada em parceria. Trata - se de GRETA, a filha.

 

 

 

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