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Tímido, se enrolava todo. Complicava. Por que ser
simples se era mais simples ser complicado? Sem contar que com
a enrolação ganhava tempo. Pois então não
era? Enquanto punha e dispunha, a situação que
exigia por ele passava. Ainda lembrava o pai, lá da distância,
sentenciando: - Este menino é um quadrúpede! -
E depois da sentença a ironia: - É ágil
como uma vaca... Agora, um tímido. E era sempre daquele jeito. Bastava pressentir que tentavam destacá - lo e complicava tanto, tanto, que todos desistiam. Foi assim no colégio, na Universidade, na vida. Também foi assim, quando decidiu brincar no Carnaval, sem que ninguém adivinhasse. Ao invés de optar por máscara ou por um bem comportado dominó, se iniciou na construção daquela fantasia difícil. No íntimo acreditava que jamais haveria de concluí - la. E sorria feliz. Era esta a intenção. Uma forma de preencher as suas horas de folga. Algo em que pensar e ocupar - se. Projeto difícil. Toda uma estrutura a ser criada. Testou materiais. Usou sarrafos e pregos, mas a coisa ficou quadrada, pesada e impossível. Recomeçou. Decidiu - se pelo bambu, que era leve e que vergava e abaulava tanto quanto pretendia. Demorou mais de ano na elaboração do arcabouço, com o bambu, arames e cordéis. Algo delicado e resistente. Depois partiu à procura de panos que se prestassem ao que pretendia. Três carnavais se passaram até encontrar o último dos enfeites. Finalmente, aprontou a fantasia. É. Estava completa. Nada que não correspondesse ao menor detalhe do que se propusera Uma fantasia que o escondia inteiramente. E era entre deslumbrado e assustado que ele olhava para a vaca que construíra. Porque era uma vaca. Tão perfeita o quanto pode ser uma vaca de bambu e pano. Branca aveludada. O dorso com manchas negras e os olhos com pedras escuras. Pedras que brilhavam. Debaixo dela havia calor e desconforto mas, era leve e possuía uma pequena fresta por onde podia espiar sem ser visto. Tímido, tímido demais, não podia permitir que alguém o identificasse. Seria terrível. Ainda mais que era conhecido como uma criatura séria, fechada. Ah, mas havia nele o desejo de estar junto das pessoas, de ser admirado, aceito, amado. Mais forte de que tudo, entretanto, era o medo, a vergonha, aquela sensação de pânico se alguém o encarava de maneira um pouco mais demorada. Lembrava o pai, autoritário, exigente. Lembrava... Queria esquecer, mas, diante de qualquer olhar tornava a lembrar os olhos do pai. Olhos críticos, mordazes. Então as faces ardiam e ele se transformava numa criança assustada, trêmula, aflita. As mãos se tornavam geladas e os lábios secos se colavam às gengivas secas, impedindo a voz. Nestas ocasiões, com olhos muito abertos , se evadia. Bem do jeito que fazia quando era criança. Mas sabia, até certo ponto, precisava de gente. E, dentro daquela incrível vaca, haveria de sentir - se protegido, seguro, em condições de ousar aproximações. E chegou o Carnaval. No sábado, não saiu. Nem no domingo ou na segunda - feira. Confusões, problemas, montes de problemas que ele mesmo procurava, inventava. Sempre alguém olhando, alguém passando. Na terça - feira complicou o quanto pôde, mas finalmente, saiu. Inúmeros ardis para que ninguém, ninguém percebesse. Mas saiu. Era ele, meu Deus! Era ele, ali. Misturado aos outros. O calor era enorme exigindo simples bermudas. Mais nada. E mesmo assim, o suor cobria - lhe o rosto, as espáduas. Mas estava feliz. Não é que estava mesmo feliz? Viu pessoas e aproximou - se delas. Com emoção ele aproximou - se delas. E aquela estranha vaca, de olhos brilhantes chamou a atenção do povo, que se juntava para ver. E vinham os homens, as mulheres e vinham as crianças. Curiosos, todos queriam ver a vaca, pegar na vaca. E vinha o bloco e todos, todos, todos queriam ver. No empurra - empurra da multidão que se formou, de repente, o desespero. Muitos se enervavam tolhidos em seus passos e gestos. Angustiados, tentavam sair daquele emaranhado de hálitos e corpos. Mas era mesmo impossível porque mais pessoas chegavam, curiosas em descobrir a causa do alvoroço. Então o susto. O que todos viram foi aquela vaca esquisita como que flutuando. A frágil armação se desvencilhara do homem e seguia sobre as cabeças. Num acordo comum, inúmeras mãos a conduziam, numa brincadeira nova, inventada ali, naquela hora e daquele jeito. Aos poucos a confusão diminuiu e todos puderam se libertar daquela situação aflitiva que os reunira numa proximidade além do possível. E seguiram a vaca. É certo. A vaca, aquela vaca flutuando acima das cabeças provocava risadas. Um espetáculo singular. E a vaca ia, ia embora, como se tivesse vida própria e caminhasse tranqüila naquela pradaria insólita, toda feita de gente. Na calçada, ele, ainda na posição curvada exigida pelo disfarce, sendo olhado pela odalisca. - Precisa de ajuda? - Ela indagou. E, pela primeira vez ele não viu no rosto de alguém os olhos do pai, criticando. - Claro - respondeu, olhando a moça tão linda, que sorria. - Preciso mesmo é de companhia - arriscou, voltando à posição normal. Viu, ao longe, a vaca, que parecia caminhar em campinas de sonho. Não sabia explicar se era mágica, exorcismo, sabe - se lá o quê Mas não sentia medo, nem pânico, nem vergonha. Adivinhou que por dentro de sua fantasia, colada a ela, ficara a sua timidez. Estava livre. Livre. Olhava a rua, o povo, as luzes e ria, ria tanto. Estava feliz. Enlaçou a cintura da odalisca, com naturalidade e seguiram, os dois, abraçados, no ritmo alegre do bloco que se recompunha. E cantavam e pulavam e brincavam tanto... Com gosto de violeta , nasceu espontâneo um beijo. O primeiro. Um desses milagres de Carnaval. |
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