FLORES E HOMENS

Regina Benitez

 As begônias não gostam de mim e meu marido se parece com as begônias.

Minha casa tem um avarandado amplo que pede vasos enormes. Pesados. Vieram os vasos e vieram as plantas. Folhas largas de um verde quase negro raiadas por veias de um vermelho bem vivo. Caules gordos, estufados de líquidos e pequenos botões com o colorido ainda mantido em segredo. Exuberantes e belas preencheram os espaços.
Minha cama enorme é revestida de lençóis em cetim negro que cheiram a sândalo. Tão espaçosa exigia um homem e veio o marido. Cabelos lisos, olhos de mormaço, pálido. Belo.

A vizinhança assistindo tudo. Curiosas as vizinhas. Curiosas e elegantemente hostis.
Que passo os dias regando as plantas e adivinhando os desejos mínimos do marido todas devem saber pelo muito que observam. Olhos sedentos, pedindo novidades. A mesma sede que imagino, devem sentir as plantas.

Quando bem jovem, imaginava o dia em que o avarandado se enfeitasse com begônias e que junto com o marido eu visse que elas se abriam em flores ao mesmo tempo em que se abria aquela garrafa de vinho finíssimo, veludo líquido.

No jantar, pratos trabalhosos. Carnes envoltas em massas delicadas, saladas temperadas por perfumes exóticos e arroz com nozes e algas. O marido seria calmo e de um romantismo cheio de delicadezas.

Olho as begônias. Gordas e sumarentas. As malditas tem uma sede incomum. Mesmo regadas continuamente elas se dobram e desmaiam. Os botões continuam fechados. Avarentos. Apodrecem. Água demais? De menos? Afinal, qual o limite da sede que devem sentir? Elas me odeiam porque desconheço o limite.

No avarandado sinto o cheiro forte de begônias apodrecidas enquanto o marido me diz que os lençóis negros trazem para ele pesadelos horríveis. Decidiu mudar de quarto. Bem longe do meu, porque o cheiro de sândalo causa-lhe alergia. Aquela coceira medonha. - Veja que horror - diz quase aos gritos, mostrando o braço em feridas. Triste o marido, seguindo pelo corredor imenso, carregando lençóis alvíssimos. Casa grande tem dessas vantagens. Cada um escolhe o quarto que quer, a cor que prefere, o perfume que lhe agrada.

Uma vizinha veio me contar como devo agir com as begônias. - Tristeza ver folhas tão nobres assim mal-cuidadas, acusa. Aí, explica que as begônias são como os maridos. Devem ser tratadas com cuidado e parcimônia. Nem indiferença, nem entusiasmo exagerado. Ela se foi e eu continuo sem saber o limite. Teimosa, procuro o equilíbrio . Menos água, menos carinho. Nada adianta. Vai se tornando tudo seco por aqui. As folhas lambem o chão e os botões caem mortos. Desesperada vou ao exagero. Rego as plantas com leite, com licores, com aquele vinho que parece veludo líquido. Moscas e mosquitos se grudam nos caules, chupando a planta.

Levo o marido ao médico, às lojas. Ele fica ainda mais triste. Mas, sei de mulheres que conseguem dar-lhe alegria. - Nem parecia ele - conta a vizinha e conclui: - Estava tão feliz.
Desisto. Coloco plantas e marido para lá do portão. Aquele sonho de begônias e marido era bobagem.

Agora, as avencas, suntuosas e corretas se derramam em flores pelo avarandado e porque existem risos e flores as vizinhas espiam, por detrás das vidraças, cheias de inveja.
Afinal, as avencas gostam de mim e meu amante se parece com as avencas.

 

 

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