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As begônias não gostam de mim e meu marido
se parece com as begônias. Minha casa tem um avarandado amplo que pede vasos enormes.
Pesados. Vieram os vasos e vieram as plantas. Folhas largas de
um verde quase negro raiadas por veias de um vermelho bem vivo.
Caules gordos, estufados de líquidos e pequenos botões
com o colorido ainda mantido em segredo. Exuberantes e belas
preencheram os espaços. A vizinhança assistindo tudo. Curiosas as vizinhas.
Curiosas e elegantemente hostis. Quando bem jovem, imaginava o dia em que o avarandado se enfeitasse
com begônias e que junto com o marido eu visse que elas
se abriam em flores ao mesmo tempo em que se abria aquela garrafa
de vinho finíssimo, veludo líquido. No jantar, pratos trabalhosos. Carnes envoltas em massas delicadas,
saladas temperadas por perfumes exóticos e arroz com nozes
e algas. O marido seria calmo e de um romantismo cheio de delicadezas. Olho as begônias. Gordas e sumarentas. As malditas tem
uma sede incomum. Mesmo regadas continuamente elas se dobram
e desmaiam. Os botões continuam fechados. Avarentos. Apodrecem.
Água demais? De menos? Afinal, qual o limite da sede que
devem sentir? Elas me odeiam porque desconheço o limite. No avarandado sinto o cheiro forte de begônias apodrecidas
enquanto o marido me diz que os lençóis negros
trazem para ele pesadelos horríveis. Decidiu mudar de
quarto. Bem longe do meu, porque o cheiro de sândalo causa-lhe
alergia. Aquela coceira medonha. - Veja que horror - diz quase
aos gritos, mostrando o braço em feridas. Triste o marido,
seguindo pelo corredor imenso, carregando lençóis
alvíssimos. Casa grande tem dessas vantagens. Cada um
escolhe o quarto que quer, a cor que prefere, o perfume que lhe
agrada. Uma vizinha veio me contar como devo agir com as begônias.
- Tristeza ver folhas tão nobres assim mal-cuidadas, acusa.
Aí, explica que as begônias são como os maridos.
Devem ser tratadas com cuidado e parcimônia. Nem indiferença,
nem entusiasmo exagerado. Ela se foi e eu continuo sem saber
o limite. Teimosa, procuro o equilíbrio . Menos água,
menos carinho. Nada adianta. Vai se tornando tudo seco por aqui.
As folhas lambem o chão e os botões caem mortos.
Desesperada vou ao exagero. Rego as plantas com leite, com licores,
com aquele vinho que parece veludo líquido. Moscas e mosquitos
se grudam nos caules, chupando a planta. Levo o marido ao médico, às lojas. Ele fica
ainda mais triste. Mas, sei de mulheres que conseguem dar-lhe
alegria. - Nem parecia ele - conta a vizinha e conclui: - Estava
tão feliz. Agora, as avencas, suntuosas e corretas se derramam em flores
pelo avarandado e porque existem risos e flores as vizinhas espiam,
por detrás das vidraças, cheias de inveja.
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