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Sábado, 16 de agosto Vejamos: dia 10, prometi nunca mais pôr um cigarro na
boca; dia 11, desligar para sempre a televisão; dia l2,
nunca mais procurar por ele que nunca me procura. Que eu não tenho nenhuma dignidade dá para perceber
de imediato. Basta que se olhe com atenção para
o meu rosto. Isto, porque dificilmente um rosto pode esconder
terrenos de areia movediça, planícies de terra
fértil desperdiçada, rios mal utilizados e todos
estes pântanos que sou eu. Basta que se olhe para o meu
rosto e perceberiam. O difícil é encontrar meu
rosto no meio dos cabelos todos, que deixam a descoberto apenas
um filete por onde escapam dois pedaços de olhos, um pouco
do nariz e o centro da boca. Nunca eu ousaria descobrir o meu
rosto inteiro para alguém. E ele fica mesmo assim, amoitado
entre cabelos indóceis e furiosos. Avisam que o jantar
está servido e vamos sem pressa porque aqui não
há pressa, nem urgência em nada. É que na
minha casa é assim, tudo meio atemporal. Também
as horas são marcadas mais pela TV de que pelo relógio:
Hora da Sessão da Tarde, hora do Jornal Nacional, hora
da novela. Agora é hora do filme e longe da TV, que continua ligada,
falamos de arte, de literatura e do último carro-bomba,
que explodiu por aí. Empurro na direção dele as ervilhas, o camarão
e o arroz. Ele brinca de arrumar as minúsculas bolinhas
verdes, compondo a letra S. Sei que esta é a inicial do
nome dela, mas finjo não perceber e os cabelos vêm
ainda mais para a frente do rosto a ponto de ficar a descoberto
um pedaço tão pequeno de mim , que seria mesmo
impossível que se percebesse por ali qualquer emoção.
Por trás, um rosto sem nenhuma dignidade oferece mais
vinho. Domingo, l7 de agosto Volto saciada e largo os pacotes que ficam dias e dias fechados
e esquecidos. Pelo menos uma vez por mês me prometo coisas:
Fazer assim ou fazer daquele jeito ou não fazer isto ou
aquilo. A lista aumenta cada vez mais, inteira inútil
e me compenso com pacotes e pacotes, porque na realidade não
tenho nada. Nem inimigos eu tenho. Outro dia, uma pessoa estava falando que tudo o quanto ela
é, deve aos inimigos. - Eles estimulam a gente - afirmava.
- Impulsionam - e explicava: - Os amigos estragam. Mimam demais,
bajulam. Os inimigos não. Eles são ótimos,
vivem procurando espaços desprotegidos ou frágeis
para ferir e exigem a perfeição. Eles são
instigantes. Não trocaria por nada os meus inimigos -
concluiu. Depois disso, me propus a fazer pelo menos um inimigo por
dia durante aquela semana. Não consegui. E tive ótimas
oportunidades. A empregada praticamente me exigiu a máquina
fotográfica, porque a irmã ia casar e ela queria
retratos de todo o mundo. Também veio pedir numa hora
em que eu estava acordando e nestas horas eu não consigo
nem falar, imagine se vou brigar com alguém. Depois a
vizinha. Ela pediu para usar o telefone porque o dela estava
com defeito e ficou semanas entrando e saindo de minha casa sem
o menor constrangimento. Só para me compensar comprei
um vestido lindo. É todo preto porque o preto fica muito
bem em mim. Tem uma jaqueta aveludada bordada com minúsculos
cristais negros. Uma loucura. Com ele fui ao teatro e lá
encontrei aquele alguém com a tal moça. A Solange.
Saí antes que me vissem só para não ter
de tomar atitudes definitivas. Pois é. Nem para arrumar
um ou dois inimigos eu sirvo. E fico aqui, nesta pasmaceira. Que fazer se meu jeito é assim? Quase trinta anos e
ainda toda indecisa. Sábado, 23 de agosto A empregada afinal devolveu a máquina toda quebrada.
Agora, insiste em que eu veja as fotos que ela bateu. Finjo que
presto atenção e até acho que presto, porque
dintingüi uma coisa esbranquiçada, com um ramo nas
mãos. A cara é de homem. Mas acho que é
mesmo a noiva. - Ela estava linda!- A empregada conta e eu fico
pensando que o que existe por aí de mulher com cara de
homem não é normal. Mesmo assim concordo com ela
e digo que a noiva estava linda. Domingo, 24 de agosto Sábado, 30 de agosto Basta um carro em velocidade. Ficar imóvel frente a
um carro em velocidade. Só isto. Apanho a garotinha toda nua que abandonaram em minha porta
e me abraço com ela que se aquieta com o meu calor. Lá
se foi o meu programa, pois não é que estou aqui,
pela primeira vez sonhando? E sonho com o futuro dela. Um sábado qualquer de outubro Será meu Deus, será que eu venci? Não cumpri pelo menos dois dos ítens de meu programa: O último e também aquele de não amar. Talvez que até mais alguns. Mas na maior parte eles se realizaram espontâneos. Prendo os cabelos para trás porque eles me atrapalham quando me debruço para cuidar dela. Afinal, é época de descobertas. Olho para meu rosto e gosto dele. Devagar, ela começa a descobrir a vida e porque é época de descobertas eu descubro afinal que sou feliz.
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