ÉPOCA DE DESCOBERTAS

Regina Benitez

 Sábado, 16 de agosto

Vejamos: dia 10, prometi nunca mais pôr um cigarro na boca; dia 11, desligar para sempre a televisão; dia l2, nunca mais procurar por ele que nunca me procura.
Dia 13, cigarro na mão, televisão ligada e ele do meu lado, descansando no tapete branco, entre almofadas de cetim azul-marinho. Nada de sério ou definitivo. Apenas liguei: - Preciso de você - e ele veio.

Que eu não tenho nenhuma dignidade dá para perceber de imediato. Basta que se olhe com atenção para o meu rosto. Isto, porque dificilmente um rosto pode esconder terrenos de areia movediça, planícies de terra fértil desperdiçada, rios mal utilizados e todos estes pântanos que sou eu. Basta que se olhe para o meu rosto e perceberiam. O difícil é encontrar meu rosto no meio dos cabelos todos, que deixam a descoberto apenas um filete por onde escapam dois pedaços de olhos, um pouco do nariz e o centro da boca. Nunca eu ousaria descobrir o meu rosto inteiro para alguém. E ele fica mesmo assim, amoitado entre cabelos indóceis e furiosos. Avisam que o jantar está servido e vamos sem pressa porque aqui não há pressa, nem urgência em nada. É que na minha casa é assim, tudo meio atemporal. Também as horas são marcadas mais pela TV de que pelo relógio: Hora da Sessão da Tarde, hora do Jornal Nacional, hora da novela.

Agora é hora do filme e longe da TV, que continua ligada, falamos de arte, de literatura e do último carro-bomba, que explodiu por aí.

Empurro na direção dele as ervilhas, o camarão e o arroz. Ele brinca de arrumar as minúsculas bolinhas verdes, compondo a letra S. Sei que esta é a inicial do nome dela, mas finjo não perceber e os cabelos vêm ainda mais para a frente do rosto a ponto de ficar a descoberto um pedaço tão pequeno de mim , que seria mesmo impossível que se percebesse por ali qualquer emoção. Por trás, um rosto sem nenhuma dignidade oferece mais vinho.

Domingo, l7 de agosto
Muitas vezes já pensei em mudar meu cotidiano. Mas me faltam objetivos, direções, metas, dignidade. Aí, em busca de distrações me ponho a percorrer ruas e ruas e a comprar coisas que me compensem. E compro jóias, tecidos e às vezes um objeto de arte para colocar sobre a mesinha da sala ou sobre móveis e estantes. De uma forma geral, cristal e bronze são os meus preferidos.

Volto saciada e largo os pacotes que ficam dias e dias fechados e esquecidos. Pelo menos uma vez por mês me prometo coisas: Fazer assim ou fazer daquele jeito ou não fazer isto ou aquilo. A lista aumenta cada vez mais, inteira inútil e me compenso com pacotes e pacotes, porque na realidade não tenho nada. Nem inimigos eu tenho.

Outro dia, uma pessoa estava falando que tudo o quanto ela é, deve aos inimigos. - Eles estimulam a gente - afirmava. - Impulsionam - e explicava: - Os amigos estragam. Mimam demais, bajulam. Os inimigos não. Eles são ótimos, vivem procurando espaços desprotegidos ou frágeis para ferir e exigem a perfeição. Eles são instigantes. Não trocaria por nada os meus inimigos - concluiu.

Depois disso, me propus a fazer pelo menos um inimigo por dia durante aquela semana. Não consegui. E tive ótimas oportunidades. A empregada praticamente me exigiu a máquina fotográfica, porque a irmã ia casar e ela queria retratos de todo o mundo. Também veio pedir numa hora em que eu estava acordando e nestas horas eu não consigo nem falar, imagine se vou brigar com alguém. Depois a vizinha. Ela pediu para usar o telefone porque o dela estava com defeito e ficou semanas entrando e saindo de minha casa sem o menor constrangimento. Só para me compensar comprei um vestido lindo. É todo preto porque o preto fica muito bem em mim. Tem uma jaqueta aveludada bordada com minúsculos cristais negros. Uma loucura. Com ele fui ao teatro e lá encontrei aquele alguém com a tal moça. A Solange. Saí antes que me vissem só para não ter de tomar atitudes definitivas. Pois é. Nem para arrumar um ou dois inimigos eu sirvo. E fico aqui, nesta pasmaceira.

Que fazer se meu jeito é assim? Quase trinta anos e ainda toda indecisa.

Sábado, 23 de agosto
Já pensei em começar um curso de esgrima, de línguas orientais ou pelo menos entrar num desses grupos que defendem a ecologia, a anti-taxidermia ou daqueles que se dizem darks e ficam como morcegos esvoaçando pela noite. Afinal, adoro o preto e a prata. Mas resolvo deixar tudo para outra ocasião porque deprimida como estou não ia me ajustar a coisa nenhuma. Ah, tédio.

A empregada afinal devolveu a máquina toda quebrada. Agora, insiste em que eu veja as fotos que ela bateu. Finjo que presto atenção e até acho que presto, porque dintingüi uma coisa esbranquiçada, com um ramo nas mãos. A cara é de homem. Mas acho que é mesmo a noiva. - Ela estava linda!- A empregada conta e eu fico pensando que o que existe por aí de mulher com cara de homem não é normal. Mesmo assim concordo com ela e digo que a noiva estava linda.

Domingo, 24 de agosto
Hoje é dia de aumentar a lista de programações: Não beber, não fumar, não amar. O amor destrói a gente. Os amigos anulam. Por isto fico sozinha e me programo para vencer. Sei que é inútil. Basta olhar para meu rosto e qualquer um vê: uma perdedora.
Na televisão o velhinho rico explicava por que deserdou as filhas. A explicação era longa. Abandono, distância, ausência e no fim aquele desabafo: -Elas me roubaram o Natal. Sabe o que é ter uma família enorme e passar o Natal sozinho? Elas me roubaram o Natal...
As palavras do velhinho me fizeram lembrar do Natal e aumentei a minha lista: - Resgatar o Natal. Um tempo era ótimo. Agora ele me aborrece. Ruas vazias e aquela solidão. Preciso resgatar o Natal. Mas de que jeito? Conheço pessoas que vão por asilos e orfanatos e voltam felizes. Se fosse eu, voltava ainda mais triste.

Sábado, 30 de agosto
Não vejo nada que valha a pena ser feito. Acrescento à minha programação um novo i tem: - Morrer. E me arrumo toda para o encontro marcado com a morte. Três, quatro anéis em cada dedo. Pulseiras, colares. Mais de trezentos diamantes. O vestido é aquele preto com decote redondo. O casaco é branco e longo, luxuoso.

Basta um carro em velocidade. Ficar imóvel frente a um carro em velocidade. Só isto.
Abro a porta e vejo a caixa. Na minha porta uma caixa e um choro de criança. Encontro a menina. Deve ter três meses e chora.

Apanho a garotinha toda nua que abandonaram em minha porta e me abraço com ela que se aquieta com o meu calor. Lá se foi o meu programa, pois não é que estou aqui, pela primeira vez sonhando? E sonho com o futuro dela.

Um sábado qualquer de outubro
De repente surgiram metas, direções, objetivos. Corro de um lado para outro. Esqueço o cigarro, a televisão e esqueço dele que às vezes telefona, sempre em horas que não posso atender. É que as horas mudaram e há muito para ser feito: Hora da mamadeira, hora de trocar, hora do banho.

Será meu Deus, será que eu venci? Não cumpri pelo menos dois dos ítens de meu programa: O último e também aquele de não amar. Talvez que até mais alguns. Mas na maior parte eles se realizaram espontâneos. Prendo os cabelos para trás porque eles me atrapalham quando me debruço para cuidar dela. Afinal, é época de descobertas. Olho para meu rosto e gosto dele. Devagar, ela começa a descobrir a vida e porque é época de descobertas eu descubro afinal que sou feliz.

 

 

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