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1
Naquele dia, todos estavam felizes preparando a festa de casamento
da moça, que era dona da fábrica dos melhores doces
do lugar, e do rapaz que entendia de remédios e sabia
curar pessoas, o médico. Por isso, ninguém notou
a presença do homem tão triste que chegava, com
um jeito esquisito de andar, como que acompanhando o ir e vir
das ondas. Um marinheiro.
O marinheiro estava velho e, porque estava velho, havia sido
desligado do seu trabalho. E porque estava desligado de seu trabalho,
sentia-se triste e abandonado. A solidão o envolvia e
nada parecia mais doloroso de que estar afastado das tarefas
que sabia fazer. Tarefas que realizava junto daquele mar que
embalava, falando na língua que os marinheiros entendem,
toda feita de vento e água. Um idioma que, os homens do
mar desconfiavam, a natureza havia aprendido com Deus.
E meio capengando e meio se equilibrando ele chegou na cidade,
na rua, na casa.
Era a sexta casa. Eu estava na porta aproveitando o sol do início
da tarde e apreciando a agitação daquele dia de
festa.
-Oi, amigo - ele falou e me tornei seu amigo. Bastaram alguns
segundos para que eu descobrisse que o homem que chegava, o marinheiro,
precisava ouvir histórias.
E porque ele estava só e porque havia naufragado naquela
amargura e porque era meu amigo, tentei consolar, fazendo com
que lembrasse que acontecimentos mudam e pessoas e coisas se
transformam. Daí, contei da mulher que antes dele, há
muito tempo, havia morado ali, na sexta casa.
Às vezes eu acreditava que ele me entendia. Outra vezes
eu tinha quase certeza de que não compreendia nada. Mesmo
assim eu contei. Expliquei como era antes por aqui. E falei a
verdade. Mexeriquei. -Era uma rua feia e sem saída - eu
disse.
E contei das crianças que eram briguentas.
Eu morava na casa de Ana e era muito desagradável. Uma
menina encrenqueira. Pior que ela só mesmo o Tico. Um
menino perverso. Uma gente danada, que de tão ruim ficava
feia. - Ninguém se gostava por aqui - falei baixinho.
E se as pessoas eram horríveis e se a rua era medonha,
a vida também era muito ruim. Eu sabia de tudo lembrei
de como todos viviam naquelas casas de pintura arrepiada e cercas
quebradas, cujas ripas, por qualquer motivo, eram arrancadas
se transformando em armas que feriam.
Nada lembrando música ou cheiro bom de comida escapava
pelas janelas. O que mais se ouvia eram gritos e maldições.
A rua terminava numa corcova cheia de mato e lixo. Tudo muito
úmido e sujo. Tudo muito triste.
As crianças, emburradas, iam e vinham sem nada que tornasse
o coração mais quente ou fizesse os olhos brilhantes
de alegria.
Pois foi na rua feia e ruim que a mulher chegou numa noite escura,
inteira de preto, como chegam as bruxas.
- É uma bruxa! - Afirmaram as mulheres espiando pelas
frestas da janela e todos tremeram.
Ana tremeu.
Tico tremeu.
2
O marinheiro me olhava com aqueles olhos acostumados a sondar
distâncias. Outra vez pensei que habituado a ouvir as vozes
do vento e da água talvez não me entendesse. Mesmo
assim continuei:
- A menina mais braba, mais desaforada e mais atrevida de toda
rua, ninguém duvidava de que era ela: Ana. Gostava de
contrariar todo mundo, de arreliar com outras crianças
e até gente grande ela enfrentava e até o Tico
provocava.
Foi Ana que, num dia de muito sol e muito sem o que fazer, inventou
de ir a casa da recém-chegada, da bruxa. - Quero ver as
coisas por lá - falou. - Também tenho de perguntar
se ela é mesmo uma bruxa porque já cansei de ficar
com medo. Não gosto de sentir medo, droga!
As outras meninas se entreolharam. - Mas ela vai arranhar você
- disse Maricota, a menorzinha, com os dedos gorduchos imitando
garras. Ela vai morder e vai até moer você e comer
- insistiu.
Mas Ana não quis nem ouvir e lá se foi, arrastando
as chinelas, plec, plec, até a porta de casa.
Aí, sentiu medo e pensou em voltar, mas olhou para trás
e viu todas as crianças espiando. - Céus até
o Tico - conferiu e isto foi o bastante para que a coragem voltasse.
Então bateu, toc, toc, toc, e a porta se abriu e engoliu
a menina.
O tempo foi passando. - Bem feito - falou a menorzinha. - A bruxa
comeu a bobona.
3
Aqui, deixando a modéstia para trás, eu tenho que
dizer: - Quando Ana chegou, eu estava lá. Fui o primeiro
a visitar a nova vizinha. Por isto sei de tudo quanto aconteceu,
direitinho, sem um farelinho a mais, sem um farelinho a menos.
Pois a menina entrou e levou um susto porque tudo o quanto viu
era exatamente o oposto do que esperava. A casa era limpa e bem
arrumada. No chão lustroso, estavam tapetes de lã
tecidos a mão, dando ao aposento conforto e calor. Também
havia o que não se via alegrando a casa. Delicadezas.
Uma delas era a música que tocava baixinho e outra era
o perfume que o açúcar dá quando derrete.
Mas, o que realmente causou a maior surpresa, foi o olhar a bruxa.
Ela era dona dos maiores e mais brilhantes olhos azuis e de um
sorriso cheio de ternura.
- Você é uma bruxa? - Indagou a menina.
- Só um pouquinho - respondeu a mulher que, com um ar
de grande
interesse, perguntou: - Isso importa?
Ana disse "não" com a cabeça. Sentia-se
tão tolinha quanto Maricota que era quase um nenê.
- Ah! Mas venha cá - a dona dos olhos azuis falou, desfazendo
o constrangimento da pequena visitante. - Estou fazendo balas
e o açúcar não pode passar do ponto. - E
lá se foram, aos fundos da casa, onde no fogão
a panela fumegava perfume. - Nada como uma boa cozinha - disse
a mulher. - Aqui as maravilhas acontecem. Veja o açúcar.
Já está no ponto. Agora, espalho a calda no mármore
da pia e vou colocando o recheio e enrolando as balas uma a uma.
Modelando. Hoje estou fazendo balas de coco e de queijo - explicou.
- Experimente ofereceu e apontou: a redondinha é de coco
e a quadradinha é de queijo.
- Coisa mais gostosa do mundo - a garota afirmou, sentindo, com
razão, que a vida podia ser boa como a bala que amolecia
na boca.
Enquanto embrulhava os caramelos num papel colorido e muito brilhante,
a mulher olhou para a menina e falou:- Meu nome é Maria.
E o seu? - Ana- a menina contou.
-Céus, o nome de minha mãe. Acho lindo o seu nome,
Ana.
O tempo passou ligeiro e quando Ana disse que ia embora, Maria
encheu uma cestinha com balas para que ela levasse e convidou:-
Lembre de voltar.
4
A menina que saiu da casa não parecia a mesma que havia
entrado. Ela sabia sorrir e dividir. Todos provaram as balas
maravilhosas e ficaram melhores. Uma coisa muito nova e boa brotou
em cada um deles e eles começaram a entender a alegria.
Nos dias que se seguiram as pessoas grandes mudaram de opinião
sobre a mulher, a tal Maria.
- Deve ser louca- diziam olhando enquanto de macacão e
com um pano amarrado na cabeça, ela pintava a casa e arrancava
a cerca- Não precisamos de cercas por aqui- teria dito,
segundo alguns.
- A senhora é louca, Dona?- Perguntou o Tico para a mulher
que sobre o telhado dava um jeito na chaminé.- Só
um pouquinho - ela respondeu.- Isto não importa, não
é?
Tico fez não com a cabeça. Pensou, pensou e no
dia seguinte foi ajudar aquela Maria que trabalhava tanto.
Eu até fico meio sem jeito de dizer, parece que estou
contando vantagem, mas quando o Tico chegou eu já estava
lá, ajuda que ajuda, da maneira que sei. Correndo aqui,
correndo ali, ajudando, ora. E posso contar porque eu estava
lá e juro que vou contar sem tirar, nem acrescentar:-
O Tico ajudou a mulher que agora plantava e plantava.
- Isto, até deve ser proibido- falaram alguns, vendo que
Maria não se limitava em alvoroçar e afofar o terreno
da casa. Também a rua e a corcova de mato e lixo, tudo
foi remexido.
- Será que pode? - Indagavam- se homens e mulheres. Afinal,
todos acharam que podia. Impossível contrariar alguém
tão determinada, tão louca...
5
Foi devagar, bem devagar, do jeito que Deus sabe fazer as
coisas perfeitas, que cada um pintou a própria casa, arrancou
as cercas desdentadas e começou a plantar.
E plantaram ervas e flores e verduras e capim cheiroso.
As mulheres, aos poucos lembraram que era bom sorrir e cada uma
descobriu que possuía, do lado de dentro, uma habilidade
especial, um Dom. E elas costuravam e bordavam e teciam e faziam
rendas e faziam fios . Maria, a louca, quase não falava,
mas sorria tanto e tão lindo que, afinal, todos descobriram
o quanto gostavam dela. E todos, todos, todos, até os
homens, naquelas idas e vindas de plantar e arrumar, às
vezes precisavam de coisas e o ato de dar e receber se tornou
comum, selando amizades. Também aprenderam a sorrir e
a dizer: Obrigado, irmão.
Ana voltava sempre à casa de Maria e começou a
fazer os mais deliciosos doces. Maria não só ensinava
as receitas, como incentivava a menina a criar cremes e caldas
diferentes.
Já o Tico, percebeu que Maria arrancava das plantas, remédios
que curavam e conhecendo o segredo das ervas e das flores, descobriu
a alegria de trazer a saúde para os doentes.
Naquela primavera, as pessoas viram a rua inteira florescer.
Já não existia mato, nem lixo, nem a corcova existia.
A rua era um caminho sem fim. Maria a louca, sorria e foi então
que afinal descobriram:- Céus! Ela é a Virgem,
só podia ser.
Ainda na primavera, certa noite, bem noite, meus ouvidos treinados
perceberam o rumor. Fui até a rua e, Maria, agora a Virgem,
me olhou e disse:- É isto aí, amigo. Outras ruas
estão à minha espera.
Eu queria contar o quanto gostava dela e a tristeza que sentia
em saber que ia embora.- Au, au...- choraminguei, escondendo
o focinho entre as patas. Aí, ela me tocou e eu senti
no gesto de carinho que tudo estava certo. Sentei no degrau da
porta e assisti ao milagre: Vi aquela beleza toda que morava
nela se integrando em cada flor. E os olhos azuis se misturando
ao céu da manhã que começava, enquanto o
sorriso ficou brincando dentro dos primeiros raios de sol que
enfeitavam o chão.
Ela, a Virgem, a Rainha das Ruas, continuava inteira entre nós.
6
Enquanto eu contava para o marinheiro aquela história,
sempre havia a dúvida:- Ele me entendia? Não me
entendia?
Foi quando Ana e Tico voltavam da Igreja, ela branca e doce,
parecendo açúcar e ele forte e bom como raízes
capazes de curar, que tive a certeza:- O marinheiro havia compreendido
tudo. Isto, porque apontando a calçada dourada de sol
ele falou:- Veja, amigo, a Rainha das Ruas está sorrindo.
Ficamos olhando o brilho daquele raio de sol derramado ali, que
veio lento, até nos atingir e ele sorriu, porque naquela
hora foi tocado pela graça da Virgem e descobriu que para
um marinheiro as casas podem ser como os navios e as ruas como
os mares.. Isto, porque os navios e os mares entram nos olhos
dos marinheiros e ficam dentro deles para sempre.
Neste momento, todos notaram o novo vizinho, tingido de sol e
acenaram numa saudação de boas- vindas. Ele também
acenou e mesmo depois que o sol se apagou continuava feliz. Tantos
amigos por fazer... Tantas coisas para viver... Tudo naquela
rua...Naquele mar...
Quando Ana e Tico foram até a sexta casa convidar o marinheiro
para a festa, vocês sabem, eu já estava lá,
correndo aqui, correndo ali, ajudando. Então Ana me segurou
no colo (eu sou o cãozinho dela) e fomos os quatro para
a casa iluminada, onde era tudo uma alegria só
FIM
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