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Com gestos que procuro tornar graciosos me acomodo na mesinha.
Sempre imaginei que seria assim: numa confeitaria central e decente,
dessas que servem tortas com nata, coalhadas e cremes multicoloridos
em mesas com toalhas em xadrez vermelho e branco. Um dia muito
especial e é hoje. Grande Deus! É hoje! Imaginei tudo isto de mil formas,
de inúmeras maneiras. Deveria ser perfeito. A perfeição
como eu entendo. Por isto decidi que pela manhã e pela
tarde haveria muito sol. A noite morna, com vento, estrelas e
luar, além é evidente, daquela luminosidade vaga,
diluída, que se encontra nos sonhos. Também decidi,
que o tal instante nunca deveria chegar. Por isto me habituei
a empurrá-lo e empurrá-lo. Um dia, lá longe... Sou uma romântica incurável. Passe o tempo que
passar, somem-se os anos, avolumem-se as decepções
que nada vai alterar esta minha maneira de ser: uma romântica. Na verdade eu sabia que não era um engano, porque era
assim que devia ser. Por isto estiquei a conversa e ele gostou
de falar comigo. Descobrimos afinidades. As mesmas leituras,
os mesmos filmes, as mesmas músicas. Passava da meia-noite
e ainda estávamos envolvidos naquela maravilhosa descoberta.
- É difícil uma mulher que entenda de tantas coisas
- disse e eu fiquei contente que ele pensasse assim. No dia seguinte voltou a ligar.- Pensei em você o dia
inteiro - confessou e outra vez iniciamos uma conversa enorme.
Prometemos nos encontrar outro dia. Normalmente sou tímida .Desde o acidente, há
muitos anos sou, tímida. Um corte feio, enorme, descendo
da boca ao queixo. Depois de corrigido, uma cicatriz Tênue,
quase imperceptível. Mas a lembrança da rasgadura,
do susto, do sangue, traçou alguma coisa terrível
lá por dentro e diante das pessoas, fiquei tímida.
Tenho idéia de mim como de um excelente licor servido
numa xícara. Uma xícara na qual existem lascas.
Uma pequena xícara de porcelana rosada e lascada. Mas
o licor está lá. Para quem se atrever, ele está
lá. Para quem ousar. Mas apesar do licor, normalmente
me comporto de forma tímida se olham para mim. Pelo telefone,
entretanto, não existem cicatrizes. Sei que então
sou extremamente fascinante. Uma pessoa culta. Li os clássicos
e os modernos e me interesso por tudo. Consigo dar às
conversas mais banais, direções inquietantes e
tenho uma voz suave ao mesmo tempo que bem modulada. Esqueço
as cicatrizes e ele, seduzido pela minha voz, pelo que digo,
insiste naquele encontro, que até de comum acordo adiamos
e adiamos, empurrando o dia para bem longe. Mas, de súbito,
o encontro pareceu intransferível. De lado a lado não
havia mais desculpas e estou aqui. Pois é, às vezes
nos impacientávamos e prometíamos que logo...Era
o nosso jeito de preservar o sonho. Mas o dia é hoje. No telefone sempre fui original e brilhante. Por isto ele
voltava a ligar cada vez mais cedo. Pois é. Pelo telefone
usei figuras e imagens exóticas. Ah, era muito bom! Eu
alegrava cada instante dele que ria e ria, quando eu compunha
comentários ácidos sobre a Política e sobre
os políticos.- Você tem um espírito agudo
- ele elogiava. Assim incentivada eu me tornava ainda mais desenvolta,
mais terrível. E falávamos de vida, de poemas e
de canções, além de tocarmos em assuntos
extremamente práticos como a forma de consertar um ferro
elétrico, como fazer um café forte e gostoso, ou
um jantar rápido. Falamos de tudo. Comentamos o noticiário
da TV e as manchetes dos jornais. Pelo telefone nosso cotidiano
foi ricamente passado a limpo. Decisões importantes foram
tomadas e idéias novas se originaram nesses momentos .Falamos
de tudo. Apenas um ponto não foi mencionado: o nosso exterior.
Tudo porque temos a convicção de que uma ligação
tão forte independe do físico. Também não
temos nenhuma dúvida de que nos reconheceríamos
de imediato quando o tal dia chegasse. Sei que viciado no licor ele não se importará
em que é servido. Apreciará a xícara. Apreciará?
Não se deterá em pequenos detalhes. Não?
Quero me convencer que o exterior é apenas um pequeno
detalhe. E não é? A verdade é que nunca mencionamos o nosso exterior.
Mesmo a paisagem que nos cerca, nosso mundo, é um assunto
meio vago e foi composto de forma lenta. Ele sabe, por exemplo,
que tenho um gato chamado Turíbio e um tapete persa. A
informação nasceu de uma conversa em que eu lamentava
que se houvesse mudado o nome da Pérsia. - Mania de ficarem
mudando o nome de tudo -lamentei. - Por que mudaram o nome da
Pérsia? Eu adoro meu gato e meu tapete. Ambos são
persas - enfatizei. insistindo em que não deviam mudar
o nome de países, de pessoas, de moedas. Em outra vez falei de minhas folhagens e dos potes exóticos
em que as cultivo. Também ele, em suas longas conversas,
conta de seu mundo situado num décimo - quinto andar.
Sei que aprecia quadros e que coleciona marinhas de conotação
moderna. Também sei das cortinas com flores graúdas.
- Nunca vi flores tão grandes - ele contou. - São
enormes. Já estavam aqui quando cheguei e acabei me afeiçoando.
Flores do tamanho de repolhos. Pense nos maiores repolhos azuis
do mundo. Pois as flores da cortina são assim.- E empurrávamos
o dia do encontro para longe. Um dia lá longe...- Ai,
ai, ai...Quanto nervosismo. Agora vou roer as unhas? Por que
fui marcar aqui, logo aqui, uma confeitaria tão central,
um lugar tão exposto? Devo estar pior de que nunca. Pensei
numa noite morna porque ela atrai famílias. Vêm
casais, crianças. Pelo menos antes era assim. Mas com
esta chuva, estou aqui, exposta e quase sozinha. Na mesa ,lá
atrás, um casalzinho muito jovem. Os dois conversam muito
próximos um do outro. Meu Deus! É ele entrando .Sei que é. Um velho
senhor, calvo, de óculos, completamente encharcado. Sei
que é ele. Por sua vez ele me vê e eu me vejo com
os olhos dele: uma senhora gorducha e rosada. A velha cicatriz
se perde entre as rugas. Uma xícara rosada, com lasquinhas.
Uma romântica. Disfarçamos mas sabemos. Impossível não
saber. Ele, em sua mesa toma cerveja. Eu, na minha, tomo um suco.
Sei que a nossa certeza é igual: estamos atrasados pelo
menos uns vinte anos. Quando a chuva diminui volto para casa e escondida em meu
mundo tépido e agradável me ponho à vontade
num "peignoir" com plumas nas mangas e no decote, igual
ao das artistas da década de vinte. O gato se aconchega
macio e morno como tudo o quanto me cerca. As lágrimas
também são mornas. Então, agudamente, o telefone toca. Eu também não fui - explico, tentando salvar
o sonho dele, da mesma forma como ele salvou o meu. - Um encontro
tão especial e eu aqui, detida por visitas de tanta cerimônia.
Nunca recebo pessoas e hoje justamente hoje... Não há de faltar oportunidade - ele mente e
eu concordo. Depois, continuamos naquela conversa enorme à
qual estamos habituados. Um diálogo que não tem
fim.
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