UM DIA, LÁ LONGE

Regina Benitez

Com gestos que procuro tornar graciosos me acomodo na mesinha. Sempre imaginei que seria assim: numa confeitaria central e decente, dessas que servem tortas com nata, coalhadas e cremes multicoloridos em mesas com toalhas em xadrez vermelho e branco. Um dia muito especial e é hoje.

Grande Deus! É hoje! Imaginei tudo isto de mil formas, de inúmeras maneiras. Deveria ser perfeito. A perfeição como eu entendo. Por isto decidi que pela manhã e pela tarde haveria muito sol. A noite morna, com vento, estrelas e luar, além é evidente, daquela luminosidade vaga, diluída, que se encontra nos sonhos. Também decidi, que o tal instante nunca deveria chegar. Por isto me habituei a empurrá-lo e empurrá-lo. Um dia, lá longe...

Sou uma romântica incurável. Passe o tempo que passar, somem-se os anos, avolumem-se as decepções que nada vai alterar esta minha maneira de ser: uma romântica.
Daquela vez, há mais de um ano, quando o telefone tocou, ao ouvir a voz dele, feita de metal e veludo, eu imediatamente senti que estava começando a grande aventura de minha vida. A ligação era um engano. Ele procurava por um tal de André. Um engano. Engano?

Na verdade eu sabia que não era um engano, porque era assim que devia ser. Por isto estiquei a conversa e ele gostou de falar comigo. Descobrimos afinidades. As mesmas leituras, os mesmos filmes, as mesmas músicas. Passava da meia-noite e ainda estávamos envolvidos naquela maravilhosa descoberta. - É difícil uma mulher que entenda de tantas coisas - disse e eu fiquei contente que ele pensasse assim.

No dia seguinte voltou a ligar.- Pensei em você o dia inteiro - confessou e outra vez iniciamos uma conversa enorme. Prometemos nos encontrar outro dia.

Normalmente sou tímida .Desde o acidente, há muitos anos sou, tímida. Um corte feio, enorme, descendo da boca ao queixo. Depois de corrigido, uma cicatriz Tênue, quase imperceptível. Mas a lembrança da rasgadura, do susto, do sangue, traçou alguma coisa terrível lá por dentro e diante das pessoas, fiquei tímida. Tenho idéia de mim como de um excelente licor servido numa xícara. Uma xícara na qual existem lascas. Uma pequena xícara de porcelana rosada e lascada. Mas o licor está lá. Para quem se atrever, ele está lá. Para quem ousar. Mas apesar do licor, normalmente me comporto de forma tímida se olham para mim. Pelo telefone, entretanto, não existem cicatrizes. Sei que então sou extremamente fascinante. Uma pessoa culta. Li os clássicos e os modernos e me interesso por tudo. Consigo dar às conversas mais banais, direções inquietantes e tenho uma voz suave ao mesmo tempo que bem modulada. Esqueço as cicatrizes e ele, seduzido pela minha voz, pelo que digo, insiste naquele encontro, que até de comum acordo adiamos e adiamos, empurrando o dia para bem longe. Mas, de súbito, o encontro pareceu intransferível. De lado a lado não havia mais desculpas e estou aqui. Pois é, às vezes nos impacientávamos e prometíamos que logo...Era o nosso jeito de preservar o sonho. Mas o dia é hoje.

No telefone sempre fui original e brilhante. Por isto ele voltava a ligar cada vez mais cedo. Pois é. Pelo telefone usei figuras e imagens exóticas. Ah, era muito bom! Eu alegrava cada instante dele que ria e ria, quando eu compunha comentários ácidos sobre a Política e sobre os políticos.- Você tem um espírito agudo - ele elogiava. Assim incentivada eu me tornava ainda mais desenvolta, mais terrível. E falávamos de vida, de poemas e de canções, além de tocarmos em assuntos extremamente práticos como a forma de consertar um ferro elétrico, como fazer um café forte e gostoso, ou um jantar rápido. Falamos de tudo. Comentamos o noticiário da TV e as manchetes dos jornais. Pelo telefone nosso cotidiano foi ricamente passado a limpo. Decisões importantes foram tomadas e idéias novas se originaram nesses momentos .Falamos de tudo. Apenas um ponto não foi mencionado: o nosso exterior. Tudo porque temos a convicção de que uma ligação tão forte independe do físico. Também não temos nenhuma dúvida de que nos reconheceríamos de imediato quando o tal dia chegasse.
E o dia é hoje .Hoje! A manhã começou com chuva. Não era o dia que imaginei. À tarde o tempo se manteve ainda mais fechado e pelo início da noite a chuva ainda continuava. Mas prometemos que seria hoje e tem de ser. Sei que não estou na minha melhor forma. Não vá tudo terminar porque choveu e meus cabelos não estão corretos como deveriam e porque tenho respingos de chuva no vestido. Do jeito como sou crítica é claro que ele me imagina uma criatura perfeita. E vai encontrar uma xícara lascada e rosada. Uma boa xícara de porcelana rosada(com lasquinhas). Nunca posso estar como gostaria. Sempre existe o respingo. A gota.

Sei que viciado no licor ele não se importará em que é servido. Apreciará a xícara. Apreciará? Não se deterá em pequenos detalhes. Não? Quero me convencer que o exterior é apenas um pequeno detalhe. E não é?

A verdade é que nunca mencionamos o nosso exterior. Mesmo a paisagem que nos cerca, nosso mundo, é um assunto meio vago e foi composto de forma lenta. Ele sabe, por exemplo, que tenho um gato chamado Turíbio e um tapete persa. A informação nasceu de uma conversa em que eu lamentava que se houvesse mudado o nome da Pérsia. - Mania de ficarem mudando o nome de tudo -lamentei. - Por que mudaram o nome da Pérsia? Eu adoro meu gato e meu tapete. Ambos são persas - enfatizei. insistindo em que não deviam mudar o nome de países, de pessoas, de moedas.

Em outra vez falei de minhas folhagens e dos potes exóticos em que as cultivo. Também ele, em suas longas conversas, conta de seu mundo situado num décimo - quinto andar. Sei que aprecia quadros e que coleciona marinhas de conotação moderna. Também sei das cortinas com flores graúdas. - Nunca vi flores tão grandes - ele contou. - São enormes. Já estavam aqui quando cheguei e acabei me afeiçoando. Flores do tamanho de repolhos. Pense nos maiores repolhos azuis do mundo. Pois as flores da cortina são assim.- E empurrávamos o dia do encontro para longe. Um dia lá longe...- Ai, ai, ai...Quanto nervosismo. Agora vou roer as unhas? Por que fui marcar aqui, logo aqui, uma confeitaria tão central, um lugar tão exposto? Devo estar pior de que nunca. Pensei numa noite morna porque ela atrai famílias. Vêm casais, crianças. Pelo menos antes era assim. Mas com esta chuva, estou aqui, exposta e quase sozinha. Na mesa ,lá atrás, um casalzinho muito jovem. Os dois conversam muito próximos um do outro.

Meu Deus! É ele entrando .Sei que é. Um velho senhor, calvo, de óculos, completamente encharcado. Sei que é ele. Por sua vez ele me vê e eu me vejo com os olhos dele: uma senhora gorducha e rosada. A velha cicatriz se perde entre as rugas. Uma xícara rosada, com lasquinhas. Uma romântica.

Disfarçamos mas sabemos. Impossível não saber. Ele, em sua mesa toma cerveja. Eu, na minha, tomo um suco. Sei que a nossa certeza é igual: estamos atrasados pelo menos uns vinte anos.

Quando a chuva diminui volto para casa e escondida em meu mundo tépido e agradável me ponho à vontade num "peignoir" com plumas nas mangas e no decote, igual ao das artistas da década de vinte. O gato se aconchega macio e morno como tudo o quanto me cerca. As lágrimas também são mornas.

Então, agudamente, o telefone toca.
Quero que você me perdôe - ele diz, explicando o imprevisto que o impediu de comparecer ao nosso encontro.- Tão afoito, tão apressado...Bati o carro na primeira esquina. Tentei avisar mas foi impossível.

Eu também não fui - explico, tentando salvar o sonho dele, da mesma forma como ele salvou o meu. - Um encontro tão especial e eu aqui, detida por visitas de tanta cerimônia. Nunca recebo pessoas e hoje justamente hoje...
O muito que nos conhecemos não nos impede de mentir e fingir que acreditamos. Tudo porque sabemos que nossa relação tão mágica tem de continuar pelo tempo. Está decidido que tem que ser assim.

Não há de faltar oportunidade - ele mente e eu concordo. Depois, continuamos naquela conversa enorme à qual estamos habituados. Um diálogo que não tem fim.
Pela primeira vez descrevemos o nosso exterior. O de vinte anos atrás, é evidente. E sentimos que não existe mentira no que dizemos. Foi verdade. Num dia lá longe, foi. Um novo encontro está marcado para qualquer dia. Um dia lá longe e cada vez mais longe. Cada vez mais.

 

 

 

 Página Inicial

 

home-garoa-tempestade-sol e chuva-chuva de pedras-relâmpagos-currículo-créditos
Hosted by www.Geocities.ws

1