MÁGICAS

Regina Benitez

 Conheci o mágico num dia de tempestade. Alto e muito magro, carregava um guarda-chuvas, o que fazia com que parecesse uma enorme flor preta.

Foi com um movimento ágil que fechou o guarda-chuvas e se colocou ao meu lado, debaixo da marquise . - Você deve ser um mágico - falei e ele me olhou com olhos de mágico.
A partir daí, começou uma paixão muito esquisita, principalmente porque formávamos um par bastante peculiar: eu baixinha, gorda e triste, ele alto, magro e feio. Inseparáveis.

Que ele não fazia mágicas eu descobri bem depressa. Mas era tão esforçado, se empenhava tanto, que pelo menos duas conseguiu fazer: A primeira aconteceu lentamente. Dia após dia ele repetia o quanto eu era linda e eu me tornava linda. Passava horas intermináveis diante de espelhos e a tal ponto me tornei linda, que ele, alto, magro e feio, não servia mais para mim. Ele não servia.

Encontrei homens jovens e belos que me amaram. Para o mágico, sobravam restos de noite, pedaços pequenos de tarde, horas de tédio. Os jovens belos me absorviam e eu olhava para o mágico até com preguiça, quando ele tentava tirar flores do bolso do paletó.
Então ele fez a segunda, última e terrível mágica: desapareceu.

Eu, tão linda, adivinhei que ele fazia uma falta enorme. Sem ele, os jovens não tinham nenhum sentido.

Fiquei só, num vazio revestido de espelhos, onde ele nunca mais vai entrar.
Eu, linda, triste e tão só, olho os espelhos e sinto falta dele, que fazia mágicas.

 

 

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