A DONA DO EQUÍVOCO

Regina Benitez

 Lá está ela, outra vez se aproximando de mim, toda feita de ódio. Se ao menos eu soubesse quem é, talvez ficasse tudo mais fácil. Quando eu olho para ela, assim de longe, sinto que poderíamos até mesmo ser amigas. Entendo que temos muito em comum. A mesma idade, quase a mesma altura e pelo jeito, um gosto semelhante pelas mesmas cores. E devemos ter muito mais em comum no que há de mais íntimo, incluindo pensamentos, objetivos, emoções.

Pois é. Assim de longe sinto que que até poderíamos ser amigas. Mas então nos aproximamos e os olhos dela faiscam e me oprimem. Ela me odeia. Calculo que será amável e educada para os outros, não para mim, e acredito mesmo que ela seria capaz de me matar.

Às vezes me envolvo numa ocupação qualquer e esqueço dela durante semanas, mas, de repente, sem nenhum aviso, ela volta e nos encontramos outra vez na mesma rua e eu experimento o seu olhar de desafio. Ela volta com o ódio ampliado, procurando falhas nos meus gestos e em minha maneira de ser.

Observo que ela se prepara cuidadosamente para estes encontros e todo o cuidado que dispensa ao seu traje, ao penteado e à escolha do perfume, tem um fim: Evidenciar a minha displicência. Agredir.

Lá vem ela e seu vestido de estampas. Constato o bom gosto. O fundo branco da roupa acolhe o desenho de pequenas sementes. Algumas explodindo em flores miúdas e delicadas, num cinza que chega ao preto. Deve ter perdido dias até encontrar aquela perfeição de tecido. Nota-se que tudo nela é escolhido com esmero. E eu me pergunto: - O que pode levar uma mulher sofisticada como esta a me odiar? - Nunca encontro uma resposta razoável. É claro que entre nós duas não pode existir nada que se aproxime do lógico ou do razoável, mesmo porque na paisagem da rua, quando nos defrontamos, sempre se impõe um clima de abismo, de morte. É como se a rua, a cidade, o mundo se recusassem a conter nós duas. Tudo isto e eu nem sei por quê. O certo é que ela consegue estragar meus dias e minhas noites. Pois não é que pelas noites penso nela e me esgoto em interrogações que não levam a nada? Sei é que aos poucos me ponho a odiá-la com a mesma intensidade com que ela me odeia. Sinto que também seria capaz de matá-la. Difícil em certos casos explicar as razões. - Ela me incomodava - eu ia me defender tentando justificar o meu crime. - Ela me incomodava. - Pois ela me incomoda. Tem um jeito que parece estar indagando: - Você aí, de novo no meu espaço, na minha hora? - O que mais me deprime é que fico toda atrapalhada, sem saber como me comportar, me intimido e isto é como se eu me desculpasse por estar ali, no seu espaço, na sua hora.

Mas este é também o meu espaço e esta é a minha hora.

Quero acreditar que um dia este tormento vai ter um fim e que possamos passar uma pela outra como as desconhecidas que somos e apenas isto. Afinal, pode ser também que eu esteja dando um valor exagerado a um fato sem a mínima significação.

Que importância pode ter uma mulher passando pela rua? Mas seus
olhos agudos me ferem e a importância se evidencia. Ela me incomoda.

Aí está uma decisão que me custa confessar. Alterei meus horários. Saio com meia hora de antecedência e evito o encontro. Eu preciso ter paz para trabalhar. Então uma pessoa não pode nem mesmo ter paz? Faço planos. Vou me dedicar mais ao serviço, me organizar, encontrar objetivos novos e distrações. Não posso ficar me preocupando com uma mulher confusa que sei lá por quê me odeia. Também não quero ficar odiando que isto nunca foi de meu feitio. Tanta gente que me prejudicou, magoou e eu nunca odiei. Por que tenho de começar agora e justo com uma desconhecida?

O problema eu sei qual é. Vivo muito só e por isto fico sensível a qualquer bobagem, com a imaginação solta, enlouquecida. Acho que é tudo criação de minha cabeça. Vai ver e a tal mulher nem existe. Tento me convencer disto, só que ela está ali, próxima, olhos agudos me ferindo. Ela me achou meia hora mais cedo e tudo continuou como antes. Minhas intenções de me dedicar mais ao serviço, de intensificar minha vida social, tudo desapareceu em muito pouco tempo. Também tenho de admitir, e isto é terrível, que a minha vida durante o período em que procurei evitá-la foi de uma incrível monotonia. Era como se faltasse algum pedaço essencial de mim. Algum estímulo vital. Detesto confessar mas eu sentia falta dela e de seu ódio.

Observo que ela se torna cada vez mais perfeita. Maquilagem corretíssima acentuando os olhos que me encontram cada vez em condições mais deploráveis. Um riso nítido brinca nos lábios dela, desenhados com perfeição. Que ela é o resumo de tudo o quanto eu pretendia ser já percebi. Um tipo que se impõe. Que se estima. Diferente de mim, o meu oposto mas ao mesmo tempo com incontáveis semelhanças. Eu poderia ter sido assim. Claro que poderia. Imagino que ela deve ter amigos, família, amor. É que só o amor faz as pessoas bonitas do jeito que ela é. Ah, como ela me deprime. Lembra ambientes bem cuidados, luxuosos. Como pode uma pessoa assim me odiar? Porque de certa forma o ódio dela me destaca e me faz superior a ela.

E por que este ódio? O certo é que preciso me libertar com urgência. Quando pensei em matá-la, alisei esta idéia durante semanas. Claro que era um absurdo. Matar como? Eu sei lá matar? Mas ela sabe matar. Tenho certeza que sabe e até imagino que teria estilo. Usaria uma echarpe de seda pura, seda japonesa finíssima e apertaria o pescoço da vítima bem devagar. Não consigo pensar nela agindo às pressas.

O que vi ontem me assustou. Tenho até medo de registrar. Mas é preciso. Como sempre, ela me olhou daquela forma feroz e pela primeira vez pareceu se propor a falar. Que palavras teria reservado para mim no imenso de seu ódio? Fugi.

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Hoje, ela se aproxima de novo e sei que não há como escapar. Não posso ficar me esquivando pela vida inteira. Posso? Por isto ela veio e falou. Nos olhos o mesmo faiscar e as palavras...Meu Deus! As palavras. As terríveis palavras dela. As inacreditáveis palavras dela: - Eu te amo!

 

 

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