TODA VERMELHA E DOURADA

 

 Aprendi da água, da terra e do ar, mas do fogo, deste eu ignorava quase tudo. Havia a lareira crepitando, a brasa do cigarro ardendo e a vela queimando, além do pequeno luzir da vareta de incenso. Mas conheço pouco do fogo. Sei que ele arde e queima, transformando a matéria em cinza, carvão e fumaça. Querer ser fogo eu quis, algumas vezes. O que pode ser mais atraente de que labaredas buliçosas, brincando em lareiras de pedra e a lenha estalando em lamentos e até diluindo-se em lágrimas.

Então, o estranho amigo jogava as castanhas na lareira e o fogo envolvia os prosaicos botões, tornando - os brilhantes como contas de um estranho colar insólito no qual ninguém se atrevia a tocar. E elas permaneciam lá, por muito tempo, até que tudo se acalmasse. Aí, as sementes enegrecidas eram abertas ainda quentes e seu conteúdo farinhento se juntava às porções de manteiga, porque era assim que nós as apreciávamos. Nesta hora, o fogo já era um movimento sossegado, que quase adormecia, despertando ora na ponta de um tronco, ora numa casca ressequida, até que desaparecia por completo, sempre muito tarde.

Acho que foram nesses rituais, iniciados no final das tardes de inverno e que se estendiam até a madrugada que comecei a ter com o fogo uma eloqüente e quase vital intimidade.

- Vocês se entendem. Ainda bem que são meus prisioneiros, porque não são confiáveis - o amigo brincou e fiquei irritada quando ouvi esta observação. Dizer que não éramos confiáveis me pareceu uma injustiça. Mas foi exatamente este julgamento que me transformou. Analisei mais detidamente o fogo, com muita simpatia, porque fui induzida a isto.

Um dia fiquei horas vendo um prédio arder. O amigo tentava me arrastar mas, fiquei até o final olhando. - Afinal, o que há? - ele indagou percebendo meus aprendizados de fuga. Nem respondi. Ele que cuidasse de mim como cuidava do fogo da lareira. Eu tinha objetivos novos e não era confiável. Às vezes, inocente como as chamas que ele controlava e que eram comportadíssimas, eu parecia útil e sossegada, assando castanhas, aquecendo ele, dourando a sala. Mas nada impedia o fogo de tentar alcançar cortinas, encontrar paredes ou escorregar pelo tapete. Cuidasse do fogo, ora. Cuidasse de mim.

Quando percebi o quanto me desagradava ser encarada como prisioneira que olhei o mundo lá fora e tudo me pareceu tão emocionante, que comecei a andar pelas ruas, despojada de compromissos e obrigações. Pela primeira vez me senti como o fogo que dominava o prédio, obrigando as pessoas a saltar no espaço, como estranhas e pesadas borboletas sem asas, sendo atraídas pela terra, sempre ali, esperando. Tão confiável a terra, não? A água, o ar também.

Conheci muitas pessoas novas em meus passeios. Pessoas que me levavam a lugares novos e falavam palavras novas. Sabe como é. Uma mulher livre é muito atraente. Vermelha e dourada, como o fogo, aprendi a queimar.

Creio que ele começou a me seguir pelas ruas porque desejava sofrer. Então aconteceu. Entre todas as pessoas novas encontrei alguém interessante. Alguém simples. Destes que dizem: - "Como você é bonita" ou "Eu te amo" , coisas assim.
Ficávamos sentados na pracinha durante horas. Tudo gelado em volta. Por entre as folhagens, outros olhos espiavam e sofriam Um incêndio de pura dor. Eu, o fogo.

De volta, aparentava não saber nada sobre os caminhos dele que chegava pouco depois de mim. Inteligente demais, complexo demais, complicado. Nunca saberia dizer : - Você é bonita.
Continuei naquele brinquedo até meados de julho. Então cansei. Decididamente, cansei. As pessoas simples são tão sem graça. - Voltei a ser prisioneira. Acho que aprecio isto. No início da tarde me acomodo junto da lareira. - Você é odiosa - ele declara sempre aponto para que ele apanhe uma castanha quente demais. - Você é uma criatura horrível. Chega a ser feia - ele insiste e continua: - Às vezes odeio você . - Ainda está ofendido, mas me encara com paixão, enquanto assopra os dedos queimados.

Como fogo procuro direções dentro do espaço que me conferem. Prisioneira. às vezes prisioneira.
As castanhas são brasas redondas e me detenho nelas, sentindo que é confortável esta prisão. Já me acostumei a ela. O espelho veneziano, os quadros, os objetos de arte e o estranho amigo, sofisticado e cheio de desconfianças.
Aos poucos me acomodo, sonolenta, cabeça nos joelhos dele e sou toda inocente. Um fogo pequenino. Mas, certeza de que seja assim para sempre não existe. Não sou nada confiável e sabemos disso. Toda vermelha e dourada preciso que cuidem de mim. Que me observem. Ele sabe e cuida. Nessas horas sou inofensiva como o incenso. Um pontinho luminoso.
E tudo é transferido para mais tarde. Um dia, eu sei, a gente se mata.

 

 

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