MÚLTIPLA

Regina Benitez

No segundo mês de casada, ela mudou o penteado, cabelos no alto, bem puxados, aumentou a profundidade dos olhos com sombras escuras, deu um toque anguloso ao rosto e recusou-se a continuar dormindo com o marido. Alegou que ele tinha um cheiro ácido que a desagradava profundamente.

Ele comprou loções, perfumes, sabonetes bem suaves, quase femininos, mas nada disso conseguiu demove-la de sua decisão de afastar-se.

Bem, não é o cheiro - ela confessou afinal. É que não consigo dormir perto de você. Não há condições e eu nem sei por quê. Entenda. - Não, não. Não queria o desquite ,nem anulações.- Não vamos mais falar sobre isto. Certo?

Três meses depois ela começou a usar os cabelos soltos e o rosto ganhou uma expressão felina. Revelou-se apaixonadíssima. Voltou para a cama, suave e mansamente e o assediava com carinhos e afagos. Ele concluiu que não entendia a mulher. Decididamente, não entendia.
Passada a fase do amor desesperado, iniciou-se em crise de ódio mortal. Era um ódio estranhíssimo. Puro e silencioso. Nem desprezo, nem acusações. Apenas o ódio avultando dia a dia, vazio de palavras. A peruca loura e os cílios postiços a transformavam totalmente. Não era mais a sua mulher. Os olhos maus o feriam através de pestanas espessas, cogitando maldades.

Tentou inutilmente mil formas de aproximação e tudo foi inútil. - Essa mulher é louca - concluiu cheio de horror, chupando o sangue do dedo cortado na gilete, habilmente preparada para isto, num ladinho do armário. Por cinco meses precisou agir cautelosamente, tentando evitar as armadilhas que ela construía em todos os cantos da casa. Estava coberto de cortes, arranhões e esfoladuras.

Quando pensou não suportar mais , a encontrou um dia, de cara limpa, cabelos sem pentear, andando silenciosamente e ocultando-se pelos cantos. Percebeu que o corpo miúdo estremecia de terror sempre que ele indagava coisas, mesmo as mais corriqueiras. No jantar, gulosa que era, comia pouco e medrosamente, escondendo no bolsinho da saia pedaços de pão que depois ia roer no quarto, cheia de medo, enquanto com o televisor ligado bem baixinho, assistia a novela das oito.

Foi então que descobriu. Havia nela o reflexo de todas as heroínas que, mês após mês, desfilavam-lhe diante dos olhos.

E eu sofrendo aqui, feito um cachorro - pensou, sentindo a raiva aumentar. - Não quero mais televisão ligada nesta casa - gritou.
Silenciosamente e cheia de temores a mulher dirigiu-se até o aparelho e desligou -.
Foi aí, que diante do marido perplexo ela foi se diluindo pouco a pouco até desaparecer. Não sobrou nada que a recordasse. Nem uma sombra, nem um traço. Nada. Ou melhor, quase nada, já que sobre o televisor desligado, numa devolução acintosa, ficaram os brincos de pérola que ele lhe dera no dia do noivado.

 

 

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