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No segundo mês de casada, ela mudou o penteado, cabelos
no alto, bem puxados, aumentou a profundidade dos olhos com sombras
escuras, deu um toque anguloso ao rosto e recusou-se a continuar
dormindo com o marido. Alegou que ele tinha um cheiro ácido
que a desagradava profundamente. Ele comprou loções, perfumes, sabonetes bem
suaves, quase femininos, mas nada disso conseguiu demove-la de
sua decisão de afastar-se. Bem, não é o cheiro - ela confessou afinal.
É que não consigo dormir perto de você. Não
há condições e eu nem sei por quê.
Entenda. - Não, não. Não queria o desquite
,nem anulações.- Não vamos mais falar sobre
isto. Certo? Três meses depois ela começou a usar os cabelos
soltos e o rosto ganhou uma expressão felina. Revelou-se
apaixonadíssima. Voltou para a cama, suave e mansamente
e o assediava com carinhos e afagos. Ele concluiu que não
entendia a mulher. Decididamente, não entendia. Tentou inutilmente mil formas de aproximação
e tudo foi inútil. - Essa mulher é louca - concluiu
cheio de horror, chupando o sangue do dedo cortado na gilete,
habilmente preparada para isto, num ladinho do armário.
Por cinco meses precisou agir cautelosamente, tentando evitar
as armadilhas que ela construía em todos os cantos da
casa. Estava coberto de cortes, arranhões e esfoladuras. Quando pensou não suportar mais , a encontrou um dia,
de cara limpa, cabelos sem pentear, andando silenciosamente e
ocultando-se pelos cantos. Percebeu que o corpo miúdo
estremecia de terror sempre que ele indagava coisas, mesmo as
mais corriqueiras. No jantar, gulosa que era, comia pouco e medrosamente,
escondendo no bolsinho da saia pedaços de pão que
depois ia roer no quarto, cheia de medo, enquanto com o televisor
ligado bem baixinho, assistia a novela das oito. Foi então que descobriu. Havia nela o reflexo de todas
as heroínas que, mês após mês, desfilavam-lhe
diante dos olhos. E eu sofrendo aqui, feito um cachorro - pensou, sentindo a
raiva aumentar. - Não quero mais televisão ligada
nesta casa - gritou. |
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