MULHER COM AVESTRUZ
Regina Benitez
Sou o herói das atividades corriqueiras, das realizações
monótonas. Por isto até me constrange contar daquela
quase noite de sexta-feira, quando tudo começou. De início,
a mesmice. Após o trabalho, entrei no supermercado e comprei
daquelas coisas que as pessoas simples costumam roer diante da
televisão acompanhando algumas latas de cerveja. Faço
de tudo para esquecer da insônia, do calor, do desconforto.
Tenho amigos que bebem uísque, comem torradas com caviar,
pasta de salmão com cerejas. Amigos complicados. Também
tenho amigos que imagino simples, como Ismênia, que mora
no apartamento do lado e que às vezes expõe idéias
semelhantes às minhas, apesar de possuir uma carga poética
incontrolável, o que nos torna muito diferentes.
Porque comigo tudo é prosaico: cerveja e batatas fritas.
No mais um filme de cowboy. Fico feliz quando no troca-troca
de canal, encontro algum. Porque é deste jeito que sei
ficar feliz, lidando com o corriqueiro, me encaixando na rotina.
Converso com Ismênia. Ela gosta de ficar se analisando
e principalmente, se culpando. Se eu fosse desse ou daquele jeito.
Se eu me chamasse Theodora... Ismênia gosta de pensar que
se tivesse outro nome teria outra vida. Também gosto de
pensar coisas assim. Tudo muito simples. Pura rotina.
Mas, daquela vez seria diferente. Eu, ali, sozinho, assistindo
o filme, quando no meio do maior duelo, do mais barulhento bang-bang,
surgiram encarapitados no telhado do Saloon, aquela mulher com
o avestruz. Percebi que eles conversavam e o mais inquietante:
que falavam de mim. Pode?
Ela com corpete, retendo seios fartos, saias amplas e um toucado
de rendas, brincava com a corrente dourada que se prendia no
pescoço do avestruz. Tentei decifrar o que falavam. Não
consegui. Terminado o filme ainda permaneceram na tela, por vastos
segundos. Pensei que seriam tatuagens, quase eternos, mas, muito
repentinamente sumiram.
A partir daquele dia, nunca mais conheci instantes de tranqüilidade.
Fosse onde fosse, encontrava os dois. Às vezes na prateleira
do supermercado, às vezes entre as estantes das livrarias
até que invadiram a minha casa. Estavam na cama, na mesa,
sempre espionando cada um de meus gestos e cada uma de minhas
direções. Cochichavam e riam. Debochavam de mim.
Incomodavam. Porque sou dessas pessoas que se analisam, torna-se
mais sólido o meu problema. De que lugar, de que beco,
de que esquisitas profundezas fui buscar estes dois? Sabe-se
lá. Sabe-se lá de que labirinto os recolhi. Vá
alguém entender as confusões de meu lado avesso.
Tão envergonhado, nem para a vizinha conto dessas barbaridades
que minha cabeça conseguiu criar. Por muito menos sei
que ela ia perguntar:- Isso daí depois de quantas cervejas?-
É que para gente simples como somos, as soluções
têm de ser simples.
Da janela do vigésimo andar, vejo a mulher e o avestruz
calmamente atravessando a rua.- Comemoro. Enfim, enfim se foram!
Mas, quando penso que estou livre, descubro também que
estou vazio. No meu quarto penso em mulheres e em avestruzes.
Não posso permitir que eles ganhem ruas e direções
sem retorno. Recordo que sempre entendi as mulheres como criaturas
encantadas e os avestruzes como seres mágicos e magníficos.
Penso que extraí de mim a beleza, a opulência, tudo
de bom que existia , pois a verdade é que distante deles
me sinto seco, feio. Olho no espelho e vejo um indivíduo
sem luz, sem vida.
Quase em desespero aguardo que eles voltem. Prometo festas, champanhe,
doces. Enfim, eles retornam e retomam seus olhares cúmplices.
Respiro sossegado. Enfim, eles estão aqui. A mulher, sentada
num cantinho, revira entre os dedos um colar de pedras vermelhas
que latejam faíscas. Já o avestruz esconde a cabeça
entre as almofadas do sofá. Isto se estou perto. Quando
me afasto escuto risos abafados e ruídos estranhos.
Do lado de fora, eles, que agora entendo como o que de melhor
eu possuía, quase libertos de mim. A nos ligar, um fio
tão tênue e frágil que a corrente dourada
que impõe direções ao avestruz parece forte
e poderosa. Faço o que posso para conquistá-los
e esta é uma tarefa capaz de me levar a procedimentos
inexplicáveis. Tudo porque eu pressentia que os dois,
diferentes de mim, se completavam e se bastavam. Eram astutos
e criativos. Quem imaginasse a vida dos dois como monótona,
entraria no mais absoluto equívoco. Eles se divertem,
trocam coisas, se misturam. Às vezes o avestruz veste-se
lá de sua maneira com as estranhas roupas da mulher enquanto
ela se enfeita com as penas do avestruz. Ou então, a mulher
aparece com o cordão de ouro do avestruz, enquanto ele
ostenta o colar de contas vermelhas da mulher. Outras vezes,
exóticos e incompreensíveis trocam palavras que
não entendo
Muitas vezes entro em pânico. Tudo porque sinto os olhares
deles escorregando pela janela. Observo que desejam maiores espaços.
Amplidões. Começam a exibir um comportamento de
fugitivos. Haverá o dia em que não poderei mantê-los
próximos de mim. Faço de tudo para que gostem de
ficar por aqui. Compro geléias, bolachas amanteigadas,
pãezinhos crocantes. Até Ismênia, quando
aparece estranha:- Está se tratando, hein?
Estou, é? Pois eu é que sei. Apesar de todos os
esforços os dois se entreolham e me encaram com desprezo.
Desesperado tento entrar no jogo deles e ofereço ao avestruz
o meu paletó, propondo trocas que ele, enfim aceita.
Aos poucos o jogo se torna mais interessante. Descubro que podemos
barganhar além de objetos. Pois então? Não
passou pela sala o avestruz, com os fartos seios da mulher enquanto
ela ostentava as asas dele? Importante contar, que nessas trocas,
tudo era devolvido em algumas horas e de forma perfeita. E trocamos
pernas, corpos, cabeças. Olho meus pés de avestruz
e meu rosto de mulher. A campainha toca e eu penso que Ismênia
vai levar um bruto susto. Imagino pequenas e inofensivas vinganças:
- Afinal, quantas cervejas você tomou?- vou devolver do
mesmo jeito displicente que ela usa.- Só que a vizinha
nem observa as mudanças. Senta toma café e come
uma fatia de pão.
Olho meus pés de avestruz e na vidraça flagro meu
rosto de mulher. Pergunto se ela não vê em mim nenhuma
diferença. Diz que não. -Insisto e ela se afasta
resmungando:- Você tem cada uma. Se eu me chamasse Theodora
essas coisas não iam acontecer comigo. Também,
se eu me chamasse Theodora ia ser outra pessoa. Talvez morasse
em outro país. Sabe-se lá.
Ismênia sai batendo a porta e volto a jogar. Recebo de
volta a minha cabeça. Os cabelos escovados com esmero
mostram o quanto eles são perfeccionistas. Meu paletó,
objeto da primeira troca, voltou como novo. São caprichosos
e isto me obriga a ser também cuidadoso com os pertences
que me são emprestados.
Faz tempo que perdi a noção das horas, dos dias.
Sempre acordo em pânico, procurando pelos dois. Todo acordar
é uma aventura.
Hoje, desperto com ruídos na cozinha. Cabeça de
avestruz e pés de mulher, com saltos muito altos, procurando
o equilíbrio, chego até Ismênia, que entrou
pela porta que esqueci de fechar -Achei que você merecia
e vim fazer o seu café- informa. Olho a mesa que ela preparou
com cuidado e observo a camiseta, enfeitada com penas de avestruz,
no pescoço, o colar de contas vermelhas. Imediatamente,
percebo que ela entrou no jogo. - Não quero nada de você-
explico- Mania de ficar fuçando minhas coisas, se intrometendo.
Que droga! -Ela , resmunga, sem nenhuma emoção:
- Sabe por quê? Pois é porque você se chama
André. Tivesse outro nome e ia querer- e prossegue no
desabafo:- Até me ofende. Desaforo! Fiz um café
tão bom. Coloquei flores na mesa. Tivesse outro nome...
Fosse um Abelardo e ia gostar.
Encaro Ismênia com certo rancor -Fico pensando em Abelardos
e decido:-Eu devia me chamar Bertoldo. Com este nome jamais que
me submetia a certas invasões, a certas inconveniências.
-Reclamo:- O cara não pode esquecer de passar a chave
e pronto. Entram e se instalam- Ismênia , quando quer,
é especialista na arte de fingir que não entendeu
nada e fica por ali, mexendo na geladeira, colocando o leite
para esquentar. Mais alguns minutos e aparece com o toucado de
rendas da mulher e a corrente de ouro do avestruz. Mãos
na cintura, olha bem dentro de meus olhos e afirma: A culpa é
minha!
Com Ismênia entre nós, o jogo se torna mais pesado.
Ela tem ímpetos poéticos e quer trocar de nome,
de significados, de vida. E o que é pior, tiraniza, impõe
normas difíceis de entender, regras impossíveis
de seguir. Parte para o abstrato. Quer trocar paixões,
emoções. A mulher e o avestruz se submetem a ela,
que se revela incansável e decidida, apesar de culpar-se
depois.
Tenho saudade do tempo em que ficávamos roendo batatas
fritas e tomando cerveja. Tudo se complicou muito por aqui. É
que ao lidar com abstrações ficamos completamente
confusos. Não sabemos ainda como devolver o invisível
. Mesmo porque o invisível adere, gruda e escorrega. Meu
pavor é que a mulher e o avestruz desgostosos pensem em
fugir, antes que eu aprenda a forma de reabsorvê-los. Por
enquanto sinto que se divertem, mas, até quando?
Ismênia parece uma louca e pressionados por ela, trocamos
de personalidade. Decisão letal. A mulher fica absolutamente
confusa e dominadora, mas, tal Ismênia, depois repete que
a culpa é sua. O avestruz ri que ri, tal era a mulher.
Ismênia sonha com um filme de cowboy e deseja realidades
simples. Uma verdadeira heroína de atividades corriqueiras
e realizações monótonas e eu, dono de um
medo milenar e incontrolável escondo a cabeça entre
as almofadas do sofá. |