|
Como toda mulher, Marcília era esperta. Sabia
que todo o marido que engana, mais pela ausência, pela
aparência, pela displicência ou pela impaciência,
se revela e denuncia pelo cheiro. Olfato apuradíssimo, sondando, procurando traições,
ela nunca havia percebido o menor detalhe de que houvesse outra
mulher na vida dele. Nem o mais vago ou disfarçado odor
de pele estranha ou perfume. Sempre a mesma lavanda, sem o menor
vislumbre de qualquer deslize. O cheiro dele era íntegro
e absolutamente ligado ao vidrinho que guardava no pequeno armário
da pia do banheiro, junto ao creme de barba. Um cheiro honesto. "Todo o homem trai" - afirmavam as amigas. "The
men lie law - Todo homem mente" - confirmavam as leis
da heurística. Mas ele não. As outras olhavam assustadas. Não podiam entender Marcília
e suas estranhas carências. Também comentavam quanto
ao fato de, mansamente, ela abandonar jóias e roupas finas,
entregando - se a um desleixo organizado, sistemático
e até certo ponto agressivo. Mesmo chinelos e avental, que ela sempre confessava odiar,
se integravam agora ao seu cotidiano. - Competir com quem? - Indagava e enterrava os pés
nos chinelos, ainda mais fundo. Como todas as mulheres, ela havia
se preparado para lutar todos os dias para conservar o marido,
defendendo - o das outras mulheres. Mas nada disto era preciso
e por isto nascia a confusão e ela mergulhava naquele
marasmo, naquela ausência de objetivos. Onde estariam as
jovens viúvas, as desquitadas, as mal- amadas? Por onde
andariam as solteironas? Onde estavam todas? Seria seu marido
tão desprezível? - Claro que não! Pois o
tempo de namoro não havia sido um tormento? E no tempo
de noivado então? Por que tudo havia mudado de forma tão
radical? _ A senhora é assim porque tem tudo - acusava a empregada.-
Tivesse de trabalhar para comer e ia ser diferente - sentenciava.
- Marcília chegou até a rir. - Ah, esta filosofia
simples e espontânea. A coitada da Rosa nem sabia que a
vida é boa mesmo para quem não tem nada. Ficava
difícil mesmo era para quem tinha tudo. Estes tinham fomes
medonhas, específicas e urgentes, que nunca cessavam.
Fomes abstratas, estranhas. E sede. Sede de aventuras, de agitação,
de emoções. - Eu devia ser uma campeã -
lamentava. - Todo ser humano é carente - ela desejou explicar
, mas desistiu. - Será que ninguém vê que estou morrendo?
- Defendia - se. - Que fosse ao médico - insistiam as
amigas. - Que médico? Médico sabe curar a infelicidade?
a frustração? Que médico?- Faça análise
- insistiam as amigas.- Não dá mais - ela explicava.
- Estou morrendo. Passou a olhar o marido com ódio. Afinal ele era o
culpado. Não sabia criar emoções, clima... Estava toda largada na sala, em frente à televisão
desligada. Roupão, chinelos e o seu tédio. O marido
voltava do serviço e mais uma longa noite se iniciava.
Mas, de repente, assim que ele entrou, seu olfato apurado pressentiu
a diferença o que fez seus olhos brilharem verdes e entusiasmados.
Distinguia no ar um novo cheiro. Um perfume suave, misto de maçãs
e violetas . Ela se ergueu da poltrona. Uma guerrilheira renascia
nela. A vida passava a ter sentido. Afinal, o jogo, naquele imenso
tabuleiro de xadrez, onde ela, a rainha, podia mover - se em
todas as direções. Sentiu-se curada e feliz. Em algum ponto da cidade, uma desastrada mulher nem pressentia
o inacreditável jogo que se iniciava naquele instante.
E Marcília, inteira feliz, premeditava os lances. Ela não jogava para perder. |
|
|
|