O INÍCIO DO JOGO

Regina Benitez

 Como toda mulher, Marcília era esperta. Sabia que todo o marido que engana, mais pela ausência, pela aparência, pela displicência ou pela impaciência, se revela e denuncia pelo cheiro.

Olfato apuradíssimo, sondando, procurando traições, ela nunca havia percebido o menor detalhe de que houvesse outra mulher na vida dele. Nem o mais vago ou disfarçado odor de pele estranha ou perfume. Sempre a mesma lavanda, sem o menor vislumbre de qualquer deslize. O cheiro dele era íntegro e absolutamente ligado ao vidrinho que guardava no pequeno armário da pia do banheiro, junto ao creme de barba. Um cheiro honesto.

"Todo o homem trai" - afirmavam as amigas. "The men lie law - Todo homem mente" - confirmavam as leis da heurística. Mas ele não.
Aos poucos este fato começou a desenvolver nela um sentimento novo, semelhante ao tédio e até à frustração, conduzindo - a para um total desinteresse. - Vida monótona! - Exclamava, desabafando para as amigas: - Nada que me estimule a viver, a competir.

As outras olhavam assustadas. Não podiam entender Marcília e suas estranhas carências. Também comentavam quanto ao fato de, mansamente, ela abandonar jóias e roupas finas, entregando - se a um desleixo organizado, sistemático e até certo ponto agressivo.

Mesmo chinelos e avental, que ela sempre confessava odiar, se integravam agora ao seu cotidiano.
- Você é ainda muito nova para se entregar a este desânimo - censuravam todas. - É bom se cuidar melhor. Olhe suas mãos. Suas unhas estão um lixo. - Ela ouvia e até agradecia. Estava claro que elas pretendiam salvá - la daquele túnel escuro e sem fim, dentro do qual se julgava arremessada e abandonada.

- Competir com quem? - Indagava e enterrava os pés nos chinelos, ainda mais fundo. Como todas as mulheres, ela havia se preparado para lutar todos os dias para conservar o marido, defendendo - o das outras mulheres. Mas nada disto era preciso e por isto nascia a confusão e ela mergulhava naquele marasmo, naquela ausência de objetivos. Onde estariam as jovens viúvas, as desquitadas, as mal- amadas? Por onde andariam as solteironas? Onde estavam todas? Seria seu marido tão desprezível? - Claro que não! Pois o tempo de namoro não havia sido um tormento? E no tempo de noivado então? Por que tudo havia mudado de forma tão radical?

_ A senhora é assim porque tem tudo - acusava a empregada.- Tivesse de trabalhar para comer e ia ser diferente - sentenciava. - Marcília chegou até a rir. - Ah, esta filosofia simples e espontânea. A coitada da Rosa nem sabia que a vida é boa mesmo para quem não tem nada. Ficava difícil mesmo era para quem tinha tudo. Estes tinham fomes medonhas, específicas e urgentes, que nunca cessavam. Fomes abstratas, estranhas. E sede. Sede de aventuras, de agitação, de emoções. - Eu devia ser uma campeã - lamentava. - Todo ser humano é carente - ela desejou explicar , mas desistiu.

- Será que ninguém vê que estou morrendo? - Defendia - se. - Que fosse ao médico - insistiam as amigas. - Que médico? Médico sabe curar a infelicidade? a frustração? Que médico?- Faça análise - insistiam as amigas.- Não dá mais - ela explicava. - Estou morrendo.

Passou a olhar o marido com ódio. Afinal ele era o culpado. Não sabia criar emoções, clima...
- Eu só queria ter paz e sossego - ele explicava sempre que ela insistia para que ele saísse um pouco, arejasse. Dava para entender? Dava?

Estava toda largada na sala, em frente à televisão desligada. Roupão, chinelos e o seu tédio. O marido voltava do serviço e mais uma longa noite se iniciava. Mas, de repente, assim que ele entrou, seu olfato apurado pressentiu a diferença o que fez seus olhos brilharem verdes e entusiasmados. Distinguia no ar um novo cheiro. Um perfume suave, misto de maçãs e violetas . Ela se ergueu da poltrona. Uma guerrilheira renascia nela. A vida passava a ter sentido. Afinal, o jogo, naquele imenso tabuleiro de xadrez, onde ela, a rainha, podia mover - se em todas as direções. Sentiu-se curada e feliz.
Estava linda em sua fúria e andava leve e com desenvoltura de especialista, caminhando em campo minado. Agora estava em seu território e lutaria as lutas para as quais havia se preparado . Já se adivinhava uma vitoriosa, tinha a fibra dos campeões.

Em algum ponto da cidade, uma desastrada mulher nem pressentia o inacreditável jogo que se iniciava naquele instante. E Marcília, inteira feliz, premeditava os lances.

Ela não jogava para perder.

 

 

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