Eu ali na praia. Areia macia e mormaço, num desses
dias em que não se precisa mais nada. Longe, uma canoa
que às vezes desaparece. - Agora afundou, eu penso sem
muita convicção e sem nenhum interesse. Isto porque
num dia de mormaço, para mim, nada parece ser muito importante.
Quando estou prestes a concluir que a canoa afundou mesmo, torno
a vê-la. Agora, está mais próxima.
Fecho os olhos e de repente, a sombra. Quem estará
me roubando o sol? Abro os olhos bem devagarinho e vejo a menina.
Tranças grossas enroladas no alto da cabeça, roupa
de banho floreadinha. Uma menina comum, não fossem os
olhos indagadores e aquele fato de que ela está me subtraindo
o sol.
A menina não pára de me olhar e eu pergunto: -
O que foi? - Não recebo resposta. Apenas seus olhos continuam
grudados em mim. Existem interrogações entre nós
duas. Reparo na fivelinha que ela traz sustentando as tranças.
e lembro que eu tinha uma bem parecida, talvez idêntica.
- Parece que todas as meninas sempre encontram objetos semelhantes
para se enfeitar - concluo, com muita preguiça para analisar
o pensamento e verificar o que ele contém de verdade.
Tento me ajeitar de maneira que o sol volte a me encontrar mas,
a menina muda de posição e fico, outra vez, na
sombra dela, pensando que, definitivamente, ela me aborrece.
Onde está sua mãe? - Indago e recebo como resposta
um gesto amplo que pode significar em todos os lugares como em
lugar nenhum.
Ela continua me olhando, com um interesse tão intenso
que chega a me constranger.
A menina e eu, na praia enorme, agora nos encaramos. Toda inquieta
me pergunto por que ela insiste em me analisar. Por que o olhar
dela fica esmiuçando detalhes. Por que ela fica entre
o sol e eu, numa provocação. Realmente, não
encontro respostas. Então ela fala. Pela primeira vez,
ela fala: - Onde estão suas tranças? - Indaga apontando
para os meus cabelos curtos.- Eu não sei - digo num único
fôlego. - Por aí, perdidas. - Que pena! - Lamenta
a menina. - É - eu concordo, desejando que ela vá
embora de uma vez. Não gosto que fiquem me questionando
e ela praticamente me acusou de não ter mais tranças.
O que compreendo é que ela me censurou porque não
sou mais criança. - E eu tenho culpa? - Eu não
tenho culpa - falei e me odiei. Por que tenho de ficar me explicando?
- Detesto isto! E por que tenho de dar satisfação
para uma menininha? Um dia ela vai saber o que acontece com as
tranças, com a infância da gente. Com a inocência,
com os sonhos... Também o que sucede é que de súbito
esta garotinha fez com que eu me sentisse muito mal. Chegou e
estragou meu dia de mormaço. Lembrei de tudo o quanto
eu pretendia ser e fazer. De tudo o que não fui e não
fiz. Ela continua na minha frente, esperando. O que afinal ela
está esperando? Agora, inclina a cabeça pára
o lado e torna a indagar: - Onde estão as suas crianças?
- Decididamente, ela quer me aborrecer. Digo que estão
por aí, com o pai. - Quem pode exatamente saber onde estão
as crianças? - Sua mãe sabe que você está
aqui? - Ela acena com um gesto de mãos que não
responde a nada e eu continuo: - Pois é isto daí,
garota. Acredito que ela não sabe. No íntimo eu
sinto que a menina me acusa. E são acusações
graves. A primeira que eu percebi é a de que não
fui fiel aos meus sonhos, que deixei de ser criança. Pois
até não cortei as minhas tranças? A outra
é de que não sou muito grande coisa como mãe.
Como gente.
Dou às costas à menina mas, com três passos
rápidos, outra vez ela está em posição
de me encarar. - Que é que você faz? - Ela pergunta
e eu me vejo na obrigação de dizer que não
faço nada. - Sou uma inútil - confesso.
Será que apanhei muito sol na cabeça? Será
que estou muito só nesta praia? Será que estou
imaginando ou esta roupinha de banho é a mesma que eu
usava há anos atrás ? Começo a acreditar
que esta garota sou eu mesma, voltando de longe, de um tempo
em que eu me prometia coisas. - Diga de uma vez oque você
quer - digo impaciente, sem desviar os olhos das pequenas flores
azuis espalhadas na roupinha dela. - Lembro que minha mãe
sabia cuidar de mim...
Desculpe se ela estava incomodando - escuto a mulher que chega.
Deve ser a mãe da menina. Lá se vão as duas.
Também a canoa já deve estar guardada e o sol desaparece.
Estou com dor de cabeça e decido que tenho de voltar.
Apanho o óleo de bronzear, a toalha, as sandálias,
enquanto penso no que podem fazer o sol e a solidão. Estava
até com medo da menina e ela só queria passar o
tempo. Brincar. Ela só queria brincar.
Entro em casa. Acendo as luzes e vejo que tudo continua. Entre
a luz e meu desespero, a menina, ainda mais parecida comigo e
com olhos mais cruéis.- Por que você me eliminou?
- Ela pergunta.
O interrogatório prossegue e eu descubro que ele não
tem fim. Que não pode mesmo ter fim.