INTERROGATÓRIO

Regina Benitez

 Eu ali na praia. Areia macia e mormaço, num desses dias em que não se precisa mais nada. Longe, uma canoa que às vezes desaparece. - Agora afundou, eu penso sem muita convicção e sem nenhum interesse. Isto porque num dia de mormaço, para mim, nada parece ser muito importante. Quando estou prestes a concluir que a canoa afundou mesmo, torno a vê-la. Agora, está mais próxima.

Fecho os olhos e de repente, a sombra. Quem estará me roubando o sol? Abro os olhos bem devagarinho e vejo a menina. Tranças grossas enroladas no alto da cabeça, roupa de banho floreadinha. Uma menina comum, não fossem os olhos indagadores e aquele fato de que ela está me subtraindo o sol.
A menina não pára de me olhar e eu pergunto: - O que foi? - Não recebo resposta. Apenas seus olhos continuam grudados em mim. Existem interrogações entre nós duas. Reparo na fivelinha que ela traz sustentando as tranças. e lembro que eu tinha uma bem parecida, talvez idêntica. - Parece que todas as meninas sempre encontram objetos semelhantes para se enfeitar - concluo, com muita preguiça para analisar o pensamento e verificar o que ele contém de verdade. Tento me ajeitar de maneira que o sol volte a me encontrar mas, a menina muda de posição e fico, outra vez, na sombra dela, pensando que, definitivamente, ela me aborrece.

Onde está sua mãe? - Indago e recebo como resposta um gesto amplo que pode significar em todos os lugares como em lugar nenhum.
Ela continua me olhando, com um interesse tão intenso que chega a me constranger.


A menina e eu, na praia enorme, agora nos encaramos. Toda inquieta me pergunto por que ela insiste em me analisar. Por que o olhar dela fica esmiuçando detalhes. Por que ela fica entre o sol e eu, numa provocação. Realmente, não encontro respostas. Então ela fala. Pela primeira vez, ela fala: - Onde estão suas tranças? - Indaga apontando para os meus cabelos curtos.- Eu não sei - digo num único fôlego. - Por aí, perdidas. - Que pena! - Lamenta a menina. - É - eu concordo, desejando que ela vá embora de uma vez. Não gosto que fiquem me questionando e ela praticamente me acusou de não ter mais tranças. O que compreendo é que ela me censurou porque não sou mais criança. - E eu tenho culpa? - Eu não tenho culpa - falei e me odiei. Por que tenho de ficar me explicando? - Detesto isto! E por que tenho de dar satisfação para uma menininha? Um dia ela vai saber o que acontece com as tranças, com a infância da gente. Com a inocência, com os sonhos... Também o que sucede é que de súbito esta garotinha fez com que eu me sentisse muito mal. Chegou e estragou meu dia de mormaço. Lembrei de tudo o quanto eu pretendia ser e fazer. De tudo o que não fui e não fiz. Ela continua na minha frente, esperando. O que afinal ela está esperando? Agora, inclina a cabeça pára o lado e torna a indagar: - Onde estão as suas crianças? - Decididamente, ela quer me aborrecer. Digo que estão por aí, com o pai. - Quem pode exatamente saber onde estão as crianças? - Sua mãe sabe que você está aqui? - Ela acena com um gesto de mãos que não responde a nada e eu continuo: - Pois é isto daí, garota. Acredito que ela não sabe. No íntimo eu sinto que a menina me acusa. E são acusações graves. A primeira que eu percebi é a de que não fui fiel aos meus sonhos, que deixei de ser criança. Pois até não cortei as minhas tranças? A outra é de que não sou muito grande coisa como mãe. Como gente.

Dou às costas à menina mas, com três passos rápidos, outra vez ela está em posição de me encarar. - Que é que você faz? - Ela pergunta e eu me vejo na obrigação de dizer que não faço nada. - Sou uma inútil - confesso.
Será que apanhei muito sol na cabeça? Será que estou muito só nesta praia? Será que estou imaginando ou esta roupinha de banho é a mesma que eu usava há anos atrás ? Começo a acreditar que esta garota sou eu mesma, voltando de longe, de um tempo em que eu me prometia coisas. - Diga de uma vez oque você quer - digo impaciente, sem desviar os olhos das pequenas flores azuis espalhadas na roupinha dela. - Lembro que minha mãe sabia cuidar de mim...

Desculpe se ela estava incomodando - escuto a mulher que chega. Deve ser a mãe da menina. Lá se vão as duas. Também a canoa já deve estar guardada e o sol desaparece.

Estou com dor de cabeça e decido que tenho de voltar. Apanho o óleo de bronzear, a toalha, as sandálias, enquanto penso no que podem fazer o sol e a solidão. Estava até com medo da menina e ela só queria passar o tempo. Brincar. Ela só queria brincar.
Entro em casa. Acendo as luzes e vejo que tudo continua. Entre a luz e meu desespero, a menina, ainda mais parecida comigo e com olhos mais cruéis.- Por que você me eliminou? - Ela pergunta.
O interrogatório prossegue e eu descubro que ele não tem fim. Que não pode mesmo ter fim.

 

 

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