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Ela me olhou com dureza e indagou:- E amigos? Você tem
amigos?- Devolvi o olhar ácido, virei as costas e me afastei.
Tudo poderia terminar aí, só que ela gritou:- Claro
que você tem amigos, não é, queridinho? Até
acho que você é gay.- Voltei lá e enfiei
a mão na cara dela. A cara saudável de Wanda.
Tudo isto acontece porque sou de sagitário. Metade bicho.
E ela nem chorou. Agüentou firme e ainda revidou. Ela é
também de sagitário, a fera.
Fico me odiando por ter esses ímpetos. Eu queria ser equilibrado,
ponderado. Ser desses que sorriem com superioridade e deixam
passar. Mas fazer o que se sou de sagitário? Para esquecer
a droga de tarde que passei com Wanda é que fui ver Sheila.
Ah, Deus! A Sheila me comove. Sempre gostei dessas pessoas que
não conseguem abrir inteiramente um dos olhos. Gosto do
jeito como a pupila fica meio oculta pela pálpebra, que
nesses casos escorrega mansa, como pétala de flor. Eu
passei semanas sem saber qual a cor dos olhos de Sheila. É
que toda disfarçada, ela baixava a cabeça, não
me encarava e oferecia mais o perfil e os olhos em viés.
No dia em que ela me olhou de frente com o único olho
verde cintilando foi que Sheila me conquistou. Eu senti que ela
oferecia aquele gesto como um presente. E o olho verde se sucedia
em brilhos, enquanto o outro, amoitado por detrás dos
cílios crespos, parecia adormecido, todo em repouso. Sheila
é dona de uma personalidade singular. Tudo nela é
exótico, sofisticado. Pensar nela, estar com ela me faz
bem.
Quando Wanda veio morar do lado de minha casa eu pressenti que
iam começar os problemas. Ela se insinuava, se oferecia.
Uma criatura insípida e cheia de saúde. Nenhum
traço que pudesse distingui-la das outras pessoas. Uma
mocinha medíocre. Notei que ela sempre dava um jeito de
sair de casa na mesma hora em que costumo sair. E forçava
a barra. Sorria, cumprimentava, gracejava. Sou uma pessoa exigente
e jamais alguém como Wanda me chamaria a atenção.
Ficou meses e meses aparecendo em todos os lugares em que eu
estava, incomodando, aborrecendo. Fosse no cinema, no vernissage,
no teatro, lá estava ela, surgindo de um vão, de
uma fresta de porta e ficava junto de mim, falando, falando,
fazendo comentários ridículos. Eu sorria um daqueles
sorrisos com os quais a gente se desculpa diante dos outros,
tentando explicar:- Eu não tenho nada a ver com isto.
Nem ao menos conheço esta daí. Mas nessas horas
ela me acusava de tímido e falava ainda mais alto e ria
feito uma desesperada. Uma criatura saudável. Detesto
gente assim. Apesar disto, no entanto, nas armadilhas que ela
preparava para me caçar, alguma parte de mim ficou. Foi
exatamente a metade bicho, do sagitário, que ela prendeu
e por isto se iniciou este relacionamento tão tumultuado.
Não são raras as ocasiões em que nos ferimos
pra valer. Cada vez que isto acontece eu me prometo que é
a última. Procuro Sheila e entro no mundo sofisticado
dela. Um mundo verde e luminoso, igual ao olho que ela me oferece
como um universo. O que existe de melhor em mim avulta nesses
momentos. Comentamos sobre livros de Kafka, discos clássicos
e sobre os filmes de Visconti. Depois tomamos chá com
aqueles pãezinhos recobertos de açúcar e
eu sinto que o mundo de Sheila é doce. Sinto que ela capturou
com sua extrema formalidade e seus gestos vagos de ternura a
minha parte sensível e boa. A metade homem, de sagitário
pertence a Sheila. É dela. Prometo que nunca vou esquecer
de Sheila. Infelizmente, tenho de voltar pra casa e já
no portão encontro Wanda. Entro num universo vermelho
e nervoso. Todas as intenções sensatas que eu me
prometia, assim como pedir desculpas, dizer que é melhor
que a gente nunca mais se encontre e, principalmente, contar
que não desejo feri-la mais, tudo isto se esvai. Wanda
é como um carrossel meio maluco no qual a gente entra
e parece que não vai sair nunca mais.- Saia da frente!-
Eu grito e ela, teimosa, não se afasta. Penso que ainda
vou acabar matando esta guria.- Calma, calma...- Eu me recomendo
ainda meio envolto pelo mundo de Sheila. Mas é inútil
e nos comportamos como animais.
O mais difícil desta situação é que
bem no fundo, bem no íntimo eu sei que as duas têm
uma importância enorme para mim e que tudo vai chegando
a um ponto que não há mais como esquecer de uma,
nem de outra. Nas horas calmas, Sheila avulta em sua casa de
muros altos, cercada de verde, respirando verde, olhando verde.
Mas os momentos tumultuados são de Wanda, naquele apartamento
onde o vermelho predomina e irrita.- É a minha cor- ela
se defende quando digo que não se pode usar o vermelho
daquele jeito.- É a minha cor também. Mas, deve
ser usada com cuidado- insisto e uma discussão interminável
começa aí.
Sei que estou dividido e esta sensação me incomoda.
Interfere no meu trabalho e na tarefa complicada de compor fórmulas
com exatidão, eu me perco no tempo e na quantidade. Basta
um reflexo que me lembre o olhar verde de Sheila ou os cabelos
vermelhos de Wanda e eu me faço descuidado, quebro frascos,
coisas que para um engenheiro químico não podem
acontecer. Sei que um dia vou ter de encontrar a fórmula
que me faça optar por uma das duas e sei que nesta hora
vou estar sofrendo porque se uma me comove a outra me empolga.
Então sucedeu um fato que nos últimos tempos era
até comum: quebrei um tubo de ensaio e com as mãos
feridas, diante do sangue que escorregava, nasceu aquela certeza.
Era mesmo Wanda a preferida. Pela primeira vez eu me sentia inteiro
em sua armadilha, em condições de oferecer a ela
as palavras ternas que antes pertenciam a Sheila. Também
Sheila me parecia distante e apagada, diluída naquele
sangue que me lembrava o mundo de Wanda.
Ao contrário do que sempre eu havia suposto, a descoberta
e a conseqüente escolha não me fazia infeliz. Pelo
contrário. Fui tomado de uma exaltação tão
intensa que só podia mesmo ser a mais pura felicidade.
E eu corri para o apartamento de Wanda. Era urgente esclarecer
tudo. Contar da minha incrível descoberta. Dizer que tudo
aquilo era mesmo amor. E foi então que eu tive aquela
terrível surpresa. Wanda, aquela fera que eu conhecia
também tinha a sua parte humana e sensível e este
pedaço dela, terno e doce, amava outra pessoa- O nosso
relacionamento não podia dar certo- ela sentenciou- Por
incrível que pareça, a gente é muito igual.
Desta vez, nem ao menos discutimos. Era a nossa parte mais nobre
que se encontrava e também havia o outro, que se afastou,
discreto, para que pudéssemos nos entender. E ela falava
mansa e eu sabia o quanto ela estava certa.
Fui para a casa de Sheila e, enquanto ouvíamos Debussy
, eu pensava. Pensava em Wanda. Um dia, daqui há anos
talvez a gente se encontre. Eu com Sheila, ela com aquele cara
discretíssimo. Seria impressão ou ele teria uma
pálpebra pendente? - Pois um dia nos encontraremos e mergulhados
na maior paz, na maior monotonia, vamos sentir uma grave emoção,
um surpreendente arrepio. Dois animais famintos. E tudo será
muito breve e voltaremos ao tédio com a nossa certeza.
Porque aí ela surgirá explodindo, límpida
e concreta. Ah, essa melancólica certeza de que afinal
escolhemos certo, tão certo que conseguimos ser infelizes
para sempre. |