Infelizes Para Sempre

Regina Benitez

 

 

Ela me olhou com dureza e indagou:- E amigos? Você tem amigos?- Devolvi o olhar ácido, virei as costas e me afastei. Tudo poderia terminar aí, só que ela gritou:- Claro que você tem amigos, não é, queridinho? Até acho que você é gay.- Voltei lá e enfiei a mão na cara dela. A cara saudável de Wanda.
Tudo isto acontece porque sou de sagitário. Metade bicho. E ela nem chorou. Agüentou firme e ainda revidou. Ela é também de sagitário, a fera.
Fico me odiando por ter esses ímpetos. Eu queria ser equilibrado, ponderado. Ser desses que sorriem com superioridade e deixam passar. Mas fazer o que se sou de sagitário? Para esquecer a droga de tarde que passei com Wanda é que fui ver Sheila. Ah, Deus! A Sheila me comove. Sempre gostei dessas pessoas que não conseguem abrir inteiramente um dos olhos. Gosto do jeito como a pupila fica meio oculta pela pálpebra, que nesses casos escorrega mansa, como pétala de flor. Eu passei semanas sem saber qual a cor dos olhos de Sheila. É que toda disfarçada, ela baixava a cabeça, não me encarava e oferecia mais o perfil e os olhos em viés. No dia em que ela me olhou de frente com o único olho verde cintilando foi que Sheila me conquistou. Eu senti que ela oferecia aquele gesto como um presente. E o olho verde se sucedia em brilhos, enquanto o outro, amoitado por detrás dos cílios crespos, parecia adormecido, todo em repouso. Sheila é dona de uma personalidade singular. Tudo nela é exótico, sofisticado. Pensar nela, estar com ela me faz bem.
Quando Wanda veio morar do lado de minha casa eu pressenti que iam começar os problemas. Ela se insinuava, se oferecia. Uma criatura insípida e cheia de saúde. Nenhum traço que pudesse distingui-la das outras pessoas. Uma mocinha medíocre. Notei que ela sempre dava um jeito de sair de casa na mesma hora em que costumo sair. E forçava a barra. Sorria, cumprimentava, gracejava. Sou uma pessoa exigente e jamais alguém como Wanda me chamaria a atenção. Ficou meses e meses aparecendo em todos os lugares em que eu estava, incomodando, aborrecendo. Fosse no cinema, no vernissage, no teatro, lá estava ela, surgindo de um vão, de uma fresta de porta e ficava junto de mim, falando, falando, fazendo comentários ridículos. Eu sorria um daqueles sorrisos com os quais a gente se desculpa diante dos outros, tentando explicar:- Eu não tenho nada a ver com isto. Nem ao menos conheço esta daí. Mas nessas horas ela me acusava de tímido e falava ainda mais alto e ria feito uma desesperada. Uma criatura saudável. Detesto gente assim. Apesar disto, no entanto, nas armadilhas que ela preparava para me caçar, alguma parte de mim ficou. Foi exatamente a metade bicho, do sagitário, que ela prendeu e por isto se iniciou este relacionamento tão tumultuado. Não são raras as ocasiões em que nos ferimos pra valer. Cada vez que isto acontece eu me prometo que é a última. Procuro Sheila e entro no mundo sofisticado dela. Um mundo verde e luminoso, igual ao olho que ela me oferece como um universo. O que existe de melhor em mim avulta nesses momentos. Comentamos sobre livros de Kafka, discos clássicos e sobre os filmes de Visconti. Depois tomamos chá com aqueles pãezinhos recobertos de açúcar e eu sinto que o mundo de Sheila é doce. Sinto que ela capturou com sua extrema formalidade e seus gestos vagos de ternura a minha parte sensível e boa. A metade homem, de sagitário pertence a Sheila. É dela. Prometo que nunca vou esquecer de Sheila. Infelizmente, tenho de voltar pra casa e já no portão encontro Wanda. Entro num universo vermelho e nervoso. Todas as intenções sensatas que eu me prometia, assim como pedir desculpas, dizer que é melhor que a gente nunca mais se encontre e, principalmente, contar que não desejo feri-la mais, tudo isto se esvai. Wanda é como um carrossel meio maluco no qual a gente entra e parece que não vai sair nunca mais.- Saia da frente!- Eu grito e ela, teimosa, não se afasta. Penso que ainda vou acabar matando esta guria.- Calma, calma...- Eu me recomendo ainda meio envolto pelo mundo de Sheila. Mas é inútil e nos comportamos como animais.
O mais difícil desta situação é que bem no fundo, bem no íntimo eu sei que as duas têm uma importância enorme para mim e que tudo vai chegando a um ponto que não há mais como esquecer de uma, nem de outra. Nas horas calmas, Sheila avulta em sua casa de muros altos, cercada de verde, respirando verde, olhando verde. Mas os momentos tumultuados são de Wanda, naquele apartamento onde o vermelho predomina e irrita.- É a minha cor- ela se defende quando digo que não se pode usar o vermelho daquele jeito.- É a minha cor também. Mas, deve ser usada com cuidado- insisto e uma discussão interminável começa aí.
Sei que estou dividido e esta sensação me incomoda. Interfere no meu trabalho e na tarefa complicada de compor fórmulas com exatidão, eu me perco no tempo e na quantidade. Basta um reflexo que me lembre o olhar verde de Sheila ou os cabelos vermelhos de Wanda e eu me faço descuidado, quebro frascos, coisas que para um engenheiro químico não podem acontecer. Sei que um dia vou ter de encontrar a fórmula que me faça optar por uma das duas e sei que nesta hora vou estar sofrendo porque se uma me comove a outra me empolga.
Então sucedeu um fato que nos últimos tempos era até comum: quebrei um tubo de ensaio e com as mãos feridas, diante do sangue que escorregava, nasceu aquela certeza. Era mesmo Wanda a preferida. Pela primeira vez eu me sentia inteiro em sua armadilha, em condições de oferecer a ela as palavras ternas que antes pertenciam a Sheila. Também Sheila me parecia distante e apagada, diluída naquele sangue que me lembrava o mundo de Wanda.
Ao contrário do que sempre eu havia suposto, a descoberta e a conseqüente escolha não me fazia infeliz. Pelo contrário. Fui tomado de uma exaltação tão intensa que só podia mesmo ser a mais pura felicidade. E eu corri para o apartamento de Wanda. Era urgente esclarecer tudo. Contar da minha incrível descoberta. Dizer que tudo aquilo era mesmo amor. E foi então que eu tive aquela terrível surpresa. Wanda, aquela fera que eu conhecia também tinha a sua parte humana e sensível e este pedaço dela, terno e doce, amava outra pessoa- O nosso relacionamento não podia dar certo- ela sentenciou- Por incrível que pareça, a gente é muito igual. Desta vez, nem ao menos discutimos. Era a nossa parte mais nobre que se encontrava e também havia o outro, que se afastou, discreto, para que pudéssemos nos entender. E ela falava mansa e eu sabia o quanto ela estava certa.
Fui para a casa de Sheila e, enquanto ouvíamos Debussy , eu pensava. Pensava em Wanda. Um dia, daqui há anos talvez a gente se encontre. Eu com Sheila, ela com aquele cara discretíssimo. Seria impressão ou ele teria uma pálpebra pendente? - Pois um dia nos encontraremos e mergulhados na maior paz, na maior monotonia, vamos sentir uma grave emoção, um surpreendente arrepio. Dois animais famintos. E tudo será muito breve e voltaremos ao tédio com a nossa certeza. Porque aí ela surgirá explodindo, límpida e concreta. Ah, essa melancólica certeza de que afinal escolhemos certo, tão certo que conseguimos ser infelizes para sempre.

 

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