O Estado na obra George Orwell é onipotente e onipresente. Todos os sentimentos, instituições ou eventos são minuciosamente tramados para reafirmar o Estado dirigido por um partido único. É o totalitarismo em sua forma mais perfeita. Assim como no Estado idealizado por Thomas Hobbes, o indivíduo não pode fazer escolhas sob o risco de retornar a sua condição primitiva e destruir a própria sociedade.
A polícia do pensamento que vigia os cidadãos através da teletela é responsável por criar a sensação de segurança e, ao mesmo tempo, de medo entre os cidadãos. Ela protege a sociedade dos “maus cidadãos”, mas também vigia a cada um e bastaria um momento de invigilância ou descontrole para que qualquer pessoa seja considerada criminosa. A Crimidéia é um conceito perigoso e suficientemente amplo para enquadrar qualquer tipo de pensamento ou ação que seja considerada hostil ao governo.
Fazia parte da ideologia do partido, o Ingsoc, os lemas “Guerra é paz”, “Liberdade é escravidão” e “Ignorância é Força”. Essas palavras têm um significado profundo que, de certa forma, resume a ação do Partido. Essa é mais umas das temáticas levantas por Orwell que se mantém extremamente atuais e que sem muitas alterações ainda podem ser constatadas no mundo do século XXI.
A teoria da Guerra é exposta por Orwell, segundo ele, após a industrialização do século XIX teria sido possível operar, em poucas gerações, uma gigantesca diminuição das desigualdades econômicas, da má educação e do trabalho abusivo e exploratório, no entanto, caso isso ocorresse cedo ou tarde as pequenas elites restantes se veriam encurraladas, pois os cidadãos perceberiam sua inutilidade e rapidamente tratariam de elimina-las. Para evitar isso de forma mais ou menos consciente a classe dominante continuamente destruía os bens materiais excedentes para evitar a acumulação de riqueza e cultura por parte das massas.
Basicamente a diferença entre o ocorrido no século XIX e início do século XX e o mundo dominado por Ocêania, Eurásia e Lestásia. Foi uma maior consciência da necessidade da destruição desses valores excedentes. Obviamente os membros do partido interno continham essa consciência com o duplipensar. Portanto, a guerra entre as três superpotências não tinha como prioridade destruir o inimigo - até porque havia um forte equilíbrio de forças – mas manter a hegemonia da classe dominante. Com efeito, era essa guerra que possibilitava a paz interna e, por conseqüência, o equilíbrio de forças. Esse era o profundo significado de “Guerra é paz”
“Liberdade é escravidão” é outra máxima que poderia facilmente ser demonstrada na realidade atual. No caso do romance, todos os membros do partido interno e externo, em poucos anos, teriam como único idioma a Novilíngua. Ou seja, estariam definitivamente impedidos de se expressar contra o partido e, em certa medida, até os pensamentos que constituíssem crimidéia estariam impedidos. No entanto, a gigantesca massa indiferenciada dos proles nunca seriam educados em novilíngua e não se extendia a eles as penalidades da crimidéia.
O cativeiro da ignorância a qual as massas estavam submetidas era, ao mesmo tempo, o refúgio do pensamento livre. Em contra partida, como tributo às regalias que tinham os membros do partido não mais poderiam ter a mente livre, seus pensamentos estariam para sempre presos aos estreitos limites da novilíngua. Umas das frases ditas por um dos membros do partido interno a Winstom retrata bem essa situação: “os proles e os animais são livres”. Até certo ponto era daí a esperança revolucionária que Winstom depositava nos proles, ainda que ele mesmo objetasse que a ignorância deles não os permitiria tomar consciência da situação.
A última da idéias “Ignorância é força” retrata a situação principalmente dos membros do partido, pois quanto mais conhecimento eles possuírem, mas delicada será sua situação diante da sociedade e, por isso, mais comprometida estará sua possibilidade de sobreviver nessa sociedade totalitária. Os questionamentos que Winston se faz tendo consciência de um passado melhor o tornam criminoso e potencialmente vítima da polícia do pensamento.
Os membros do partido interno que são o cérebro coordenador dessa sociedade e por isso possuem mais conhecimento de todos os mecanismos e objetivos só podem escapar de um trágico destino se forem capazes de executar o duplipensar com perfeição,ou seja, precisam conhecer e negar simultaneamente a mesma idéia. Quando não o fazem acabam por ter o destino do amigo de Winston, Syme, que era um dos maiores peritos na construção da novilíngua, mas foi capturado pela polícia do pensamento por ter uma visão muito clara dos acontecimentos e comenta-los de forma descuidada.
A formação desse Estado todo-poderoso, segundo as lembranças de Winston, havia se dado em uma situação de crise generalizada, quando uma guerra atômica destruía todo o mundo. Winston e seus familiares foram obrigados a se refugiarem no antigo metrô. A partir daí mais uma vez podemos perceber a ligação entre a idéia de Hobbes e do romance de George Orwell, afinal a criação destes Superestados se deu em um momento de crise total onde a sociedade sucumbiria sem as mãos de um poder absoluto.
O aparelho de Estado da Ocêania é sustentado sobre quatro pilares principais: o Ministério da Verdade, Ministério da Paz, Ministério da Fartura e Ministério do Amor (Miniver, Minipaz, Minifar e Miniamo, em novilíngua). O primeiro deles é onde Winston trabalha e é responsável por tornar os fatos passados condizentes com as afirmações atuais do partido, mas ele não se limita a isso e também faz a adaptação de antigas obras de arte, como a de Shakespeare, para a ideologia do IngSoc. É responsável ainda pelo desenvolvimento da Novilíngua.
O Ministério da Paz é responsável pela constante relação de guerra com a Lestásia e Eurásia. O Ministério da Fartura é responsável pela economia da Oceania e sempre divulga resultados falsos para convencer a população de que a riqueza e a produção do país são crescentes. Esses ministérios têm funções complementares já que são responsáveis pela manutenção da pobreza, de forma que equilibram a produção e destruição dos bens. No caso de algum desequilíbrio imprevisto o Ministério da Verdade faz a correção das previsões.
O Ministério do Amor controla a polícia do pensamento, sendo assim, é responsável pela espionagem, prisão, torturas e julgamento daqueles que se voltam contra o Partido. Nele os opositores não apenas são eliminados é também sua função desiludir o inimigo, antes de destruir a pessoa o tornam um partidário de seu regime, o fazem amar o Grande Irmão. O Miniamo é verdadeiramente a imagem do leviatã para população, e criar esse medo não é menos sua função do que capturar os rebeldes.
À semelhança dos dias de hoje, uma das mais importantes e estratégicas armas utilizadas pelo Partido é o etnocentrismo. Ou seja, eles criam uma imagem extremamente deturpada dos estrangeiros para causar na população uma mistura de ódio e medo. Em vários lugares são divulgadas fotos de aparência sinistra dos cidadãos da Lestásia ou Eurásia e os prisioneiros de guerra são sempre bastante exibidos, mas Winston reflete que na realidade há pouquíssimas diferenças entre os habitantes das três nações, afinal não há margens para individualidades sob o poder desses Superestados.