O mais incrível e, ao mesmo tempo, assustador quando nos deparamos com a sociedade imaginada por George Orwell é que ela parece estar se aproximando de nossa realidade. Esse cenário imaginado na metade do século passado não perdeu em nada a sua atualidade, ainda que o totalitarismo tenha perdido seus maiores expoentes. Mesmo que por outros rumos, a realidade é que a cada dia que se passa as inovações tecnológicas avançam sobre o território da liberdade individual. As câmeras por todas as partes ou guerras periódicas para assegurar a paz são uma realidade cotidiana.
A perda da privacidade precede a perda da própria individualidade. Com isso o espírito crítico desaparece e o processo se torna irreversível. A lógica do terror, utilizada em 1984, se assemelha à utilizada nos dias de hoje por várias nações, nas quais sob o pretexto da segurança nacional a população é submetida as mais diversas arbitrariedades. Assim como no romance, um dos mais importantes instrumentos para o controle das massas é a manipulação das informações sobre sua própria história.
O mundo imaginado por Orwell está dividido entre três superpotências: Eurásia, Lestásia e Oceania. É importante perceber que esses países têm simetria, respectivamente, com as áreas de influência da União Soviética, China e Estados Unidos. Essas três nações totalitárias permanecem em estado de tensão constante. E esporadicamente guerreiam formando alianças extremamente voláteis. Mas o objetivo maior para as três não é vencer a guerra, mas, na verdade, manter o controle interno.
A população é dividida em classes que tornam a mobilidade social quase inviável, mas suficientemente possível para alimentar a esperança dos mais ambiciosos. A mais elevada posição social é a dos membros do partido interno, seguidos pelos do partido externo – que são uma espécie de classe média. E, por último, uma gigantesca massa indiferenciada, genericamente, chamados de “proles”, que formam a grande maioria da população.
Winston Smith, habitante da Oceania, pertence ao partido externo e é um pacato funcionário do Ministério da Verdade. No entanto, nas profundezas de sua mente sempre alimentou uma profunda dúvida sobre a legitimidade do governo de sua nação.
O trabalho de Winston Smith é operar uma constante operação de “correção do passado”. Por exemplo, se um jornal antigo houvesse publicado a Oceania estava em guerra contra a Lestásia e a mais nova guerra fosse contra Eurásia seria necessário alterar os registros para que não surgissem contradições. A população deveria acreditar que o inimigo é e sempre havia sido a Eurásia.
Winston percebia claramente a intenção do Partido que era a de anular a história. No entanto, a completa apatia dos cidadãos em relação a essas mentiras o atormentava. Seria ele o único louco? Talvez, pensava, por não existir mais o passado não haveria vida nele e nem uma verdade absoluta. Uma verdade que não pudesse ser alterada segundo as conveniências do Partido.
Orientado por remotas lembranças de um passado anterior à constituição da Oceania e do Partido, Wiston começa a caminhar da indiferença para a rebeldia contra sua sociedade. Estimulado pelo amor de Júlia e pela crença na existência de uma aliança rebelde liderada por Godstein ele começa a crer que há esperança na luta contra o Partido, desde que os proles tomem consciência dos absurdos cometidos por este.
Acima de todo o Partido está a figura do Grande Irmão. Antigo companheiro de Emmanuel Goldstein e que atualmente é inimigo mortal dele. Essas figuras são análogas a Stálin e Trotsky. Em todas as casas, ruas ou prédios que se vá se vê o um imenso cartaz com o rosto dele e com as inscrições: “O Grande Irmão Zela por ti”. Segundo as desconfianças de Winston é provável que o Grande Irmão nunca venha a morrer, pois na continua “revisão histórica” feita por ele já se modificam os registros do nascimento dele.
Outra ferramenta indispensável para o poder do Partido é a teletela. Esse aparelho se assemelha a uma televisão em quase tudo exceto pelo fato de não ser desligável e também de transmitir informações, ela capta imagens em seu raio de alcance e qualquer som que seja mais alto que um cochicho. Todo o material coletado é avaliado pela Polícia do pensamento e qualquer possível rebelde é eliminado. Geralmente a transmissão da teletela se limita divulgação dos resultados das supostas batalhas de Ocêania e da superação das metas de produção dos planos trienais. Todos os membros do Partido interno e externo possuem teletelas em suas casas. Mas entre os proles o uso do aparelho é restrito.
Nessa sociedade onde o amor e a racionalidade são crimidéias, a maior qualidade que uma pessoa pode ter é capacidade de duplipensar, ou seja, aceitar duas verdades mesmo que contraditórias desde que seja o Partido quem as pregue. Um exemplo de bom cidadão seria aquele que pudesse conciliar a crença na impossibilidade da democracia, mas crer também que o Partido é protetor da democracia. Uma das definições que nos é dada no livro: ”(...) é a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas“.
No entanto, a mais poderosa ferramenta de dominação da qual o Partido dispõe é a Novilíngua. Tendo ciência da importância da comunicação e do poder da palavra, criou-se o perfeito idioma totalitário que através de sua gramática singular e simplificante impossibilita qualquer critica verbal contra o Partido, seus membros ou mesmo a sociedade.