Poesias by P@ulo Monti

Última atualização: 10/12/04

101 - Brisa 111 - Corpo a Corpo
102 - Poesia Noturna 112 - Reflexos
103 - Louco 113 - Domingo Cinzento
104 - Feira e Encontro (Sábado) 114 - Chuva de Verão
105 - Tempo Noturno 115 - Pistas
106 - Rosa 116 - Liberdade
107 - Cavalo 117 - À Você
108 - Filosofia 118 - Jornada
109 - Ventania 119 - Lírica
110 - Sinfonia 120 - Detalhe Urbano
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Brisa

Em certos momentos,
Lembranças
Invadem o peito do poeta!
Uma brisa de verão,
Lindos longos cabelos,
Uma guria que passa,
Suave,
Lindos olhos castanhos,
Um momento adolescente:
Balança meu mundo!
A mulher, agora,
Emociona-se:
Sem tempo e sem distância!

 

 

 

 

Poesia Noturna

Vozes sussurram entre avenidas adormecidas,
Músicas distantes,
Como cricrilar de grilos afônicos, acordam
Velhos sonhos noturnos:
No pequeno quarto, preparo os passos
Que visitarão as ruas,
Ensaio os gestos noturnos de halterofilista falido
E erguerei outros pesos - desamor!
Revejo velhas noites: velhos companheiros de copo e escada (era duro
enfrentar os degraus das saudades cotidianas ...),
Velhas ruas solitárias, implorando meus passos macios,
em suas silenciosas travessias noturnas,
Luares trapezistas saltando de uma estrela à outra, entre corpos perambulantes...
Mas, a noite, agora, é uma outra avenida:
As palavras embriagam, esvaziam tantos corações sedentos,
Gestos calam nos sulcos deixados nas bordas dos copos vizinhos,
As mesas acolhem distraídas felicidades momentâneas,
E a noite desperta.
Agora, tudo será lógico: beberemos de tudo um pouco, e restarão
Ressacas matinais!

 

 

 

 

Louco

Vagando pelas ruas
Na noite
Como um cão sem dono: sem nada
E sem destino.
Louco
Como um poeta falido.
Louco
Por me fugirem as mais tênues
Esperanças de felicidade.
Louco
Por ficar debaixo do céu, ao léu
Como uma esquecida esquina
Em meus mais tristes sonhos.
Louco
Por não aceitar aos demais como pássaros
(Todos somos pássaros famintos de céu para voar...).
Louco
Por ser uma ferida aberta e podre
Nas mãos de meus amigos.
Louco
Por querer ser o peixe que encerra o rugido do mar
Nas noites sem luar.
Louco
Por caminhar dentre as pessoas que permanecem
Em decomposição dentro de seus corpos (e eu sou limpo ...).
Louco
Por deixar-me voando na bruma do inverno
Quando as pessoas tremem de frio dentro de suas casas.
Louco
Por querer ser tão somente como a rua
Em frente a minha casa:
Pequena, mas, infinita em suas ânsias.
Louco
Por ser simplesmente louco.
 

 

 

 

Feira e Encontro

    Tarde de sábado. 17º C. Primavera com sabor de outono. Deveria ser um sábado cotidiano, afinal, tinha horário marcado no barbeiro, como qualquer mortal. Tomar um cafezinho, jogar conversa fora, futebol, tempo, essas coisas da vida normal da gente. E, sobretudo, cortar o cabelo.

    Mas, que coisa!, por que cargas d’água deveria a barbearia localizar-se tão próxima à Feira (feira, aqui, com maiúscula, para dar um certo ar de solenidade...)?

Sei lá! Coisa do destino, dos organizadores da feira, dos deuses, quiçá. Livros em profusão: história, geografia, poesia, literatura infantil, contos, romances: enfim, é uma feira de livros. Nada mais natural.

    À sombra dos jacarandás, centenas de barracas espalhadas. Atividades mis: contação de histórias, espetáculos teatrais, musicais, rádio-teatro, oficinas de literatura.

E passeio, distraído, transmutado, absorvendo esse momento cosmopolita. Quem sabe, um encontro. Sim, pois, os encontros também fazem parte da vida, do sábado cotidiano, da feira. Eis que, nós, anônimos escritores e poetas ainda crisálidas para o grande público e as editoras, temos nosso momento de felicidade. Não por estarmos com obras nas barracas, nem contando histórias, estrelando espetáculos, mas, antes, como simples mortais, tornando nosso sábado mais poético e concreto. Não a poesia concreta, pois, isso já é um outro tema, mas, a vida concreta, saltada diretamente das páginas da internet para um banco de praça pública em um encontro real em represália a tantos virtuais.

    Assim, encontramo-nos, eu e meus amigos virtuais, poetas, de carne e osso, em meio à esse mundo mágico. Foi desses bons momentos dos quais podemos desfrutar do convívio, do jeito de falar, de ouvir um ao outro, da maneira de olhar, de sentir estreitarem-se os laços.

    Quem sabe, ainda, em um supremo beneplácito de Deus, não venha a ter um encontro passarinho com o Poeta (“vocês passarão, eu passarinho ...”) escondido atrás de alguma barraca, sorvendo um livro de poemas, ou, quem sabe?, jogando conversa fora com algum pipoqueiro, um antigo lambe-lambe ou, feito guri, trepado nalgum jacarandá?

    Acho melhor e de bom-tom deixar o Poeta quieto no seu quarto de hotel, hoje, transformado em Casa de Cultura que leva seu nome e irmos tomar um singelo café no térreo do edifício. Mas, não sem antes ficar atento a qualquer ruído de passos: nunca se sabe ...

 

 

 

Tempo Noturno

Quero sair pela noite.
Sentir as vibrações da noite.
Quero a lua, as estrelas e o céu da noite.
Quero a mornidão da noite em meu corpo.
Quero ver milhões de seres pela noite (inclusive os microscópicos, aqueles
que me fazem vivo).
Quero, para mim, a boca da noite.
Quero ser beijado, mastigado, engolido pela boca da noite.
Quero o vento da noite
Quero ter você na noite.
Quero encontrar velhos amigos esta noite, que é especial,
Muito especial, pelo simples fato de ser noite.
E, assim me quero a mim, hoje: noite, noturnamente noite.
Quero o rumor dos bares, adegas, boates
Quero o ofuscar de luzes em mim, luzes de todos os matizes e intensidades
Mas, quero, acima de tudo, a noite.
Quero a noite com seus mistérios,
O seu mágico poder de transmutar o pensamento
Pois, de uma maneira ou de outra, sempre que pensamos nisto,
Pensamos naquilo.
Quero esse poder para cristalizar minhas variações metafísicas
Ou simplesmente sensoriais.
Quero a noite.
Preciso dela.
Quero a noite, lânguida e suave,
Quero o encontro de noite.
Quero meus dias noturnos.
Quero a noite.
Eu quero a noite em mim.
E, nela, quero ser múltiplo e profundamente inconstante, inconseqüentemente.
Quero o absurdo da noite.
Quero transpor os umbrais da noite para alcançar a noite maior.
Eu quero a noite.
Hoje.

 

 

 

 

Rosa

No domingo noturno
De repente
Uma amiga antiga
Se revelou: a lua grávida de mil estrelas
Gerou um cálice vermelho.
Um pequeno, imenso,
Suave, selvagem:
Brotou no meio da noite
A primeira rosa despertada!
Silenciosa como os olhares noturnos,
Vagabunda como os anjos (aqueles que não pousam
mais nos sonhos dos homens),
Silenciosa, ainda, como o ruflar de sorrisos embriagados,
Noturna como o sereno,
Macia como um abraço:
Rosa mulher!
 

 

 

 

Cavalo

Chove.
Barulho surdo de cascos
Rompe a noite.
Diamante negro
Impõem-se à prata
Brilhante dos raios.
Relincha selvagemente
Um sem-dono majestoso.
No dorso fogoso
Cavalgam relâmpagos
Escorrendo pela crina
Cometas líquidos.
Imenso cristal negro
Desloca o espaço
Galopa absoluto no vento
Açoita movimentos
Compõem os músculos
Ergue-se no ar
Rege a sinfonia:
Um ser livre
Indomado, proscrito.
Um cavalo sem nome.

 

 

Filosofia

Promessas de etéreas saudações
Despreendem-se de pedras.
Sentimentos duros com ágeis dedos suaves
Buscam frias criaturas sociais,
Veladas em noites sem trajetórias enluaradas.
..................................................................................
E o rádio mudo como quem não tem o que pensar
Sonha com uma válvula nova!
O cristal despreende-se do eterno repouso
E flutua em cérebros desarmados.
Chamas riscam novas imagens
E entre um grito e um gemido flácido,
O melhor é calar.



 

 

Ventania

Ventila a dor
Do sol na carne
E o vento no dia-a-dia.
O mar na sala
E a dor ao vento, vento ventilador.
Paz giratória
Gira vento sem paz
Com dor de mar.
Numa onda
A eterna ventilação:
Onde anda a onda
Rugindo o último sono marinho?



 

 

Sinfonia

Quero cristalizar as palavras e, ao
Cristalizá-las numa clave de Lá bem Maior,
Quero fazer da mesa de bar
O passaporte das brisas marinhas!
Mas, meu coração não escuta o pedido das
Águas brancas, brilhantes,
Espumosas, espumadas
Sobre as minhas cinzas!
E os copos tilintam saudações novas
E velhas,
Velhas como o sabor do sol, solitário,
Sono-lento, só tão bar noitidiano ...
E perto da noite,
Estrangulo os dentes da noite em bocas,
Beijos,
Em portas das ruas noturnas,
Nós turvos em meio à janela do último olhar aberto:
É a última sonata, aproveitem,
Bebam,
Afoguem,
Sucumbam,
Morram,
É cristalização ...


 

 

Corpo a Corpo

Escada horizontal,
Becos, avenidas,
Transe cotidiano:
Corpo a corpo.
Noite adentro
Em suprimento triangular
Peito, coração, membros:
Corpo a corpo.
Fêmea, macho, anúncio luminoso:
Corpo a corpo.
Conjugações anômalas (ou defectivadas)
De verbos acontecendo ou acontecidos
Nos tempos em estado de graça,
Ou, ainda, neologisticamente concebidos:
Novo futuro corpo a corpo.



 

 

Reflexos

Viver o momento,
Vagar estereofonicamente nos canais
E artérias cardiais: o estéreo é a doença da música.
A mônade é apenas fagulha
Da grande chuva de meteoros!
O momento é caótico de lógicas arcaicas,
O instante é flutuação de cristais
Cosmotransfigurados:
Salve meu olhar perfurante!
É preciso vazar o instante Delta
Vibrar em Beta
Soltar os cavalos do poema uno,
Galopar arritmicamente na pulsação ventricular:
Ausentar sentidos
Retirar as vendas
Abrir as portas - realidade, onde?



 

 

Domingo Cinzento

Domingo cinzento.
Passeio pela bruma da manhã:
Nunca mais te vi!
Um barco azul
Passeia sua solidão:
O sol?
Tú o levaste!
Vou pela rua
Sem destino:
Minhas ânsias
Quem quer saber?
Rumo sem destino.
Hoje é um dia
Sentimental
Para mim:
Poder ser como o vento
E voar por sobre o mundo.
Domingo cinzento ...
Devolve-me o sol,
O destino de minha rua,
As brumas de minha pobre vida:
Devolve-me a primeira dança!
Domingo cinzento ...


 

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Chuva de Verão

É chuva de verão
E traz vontade
De não se fazer nada.
Sentir-se muito vivo
Abrir a camisa
Receber no peito, no rosto
Todo vento e toda chuva.
Tarde de chuva de verão
Deve ser para fazer amor.
E chuva de verão
É bom, profundamente,
Para fazer poesia.
Para beber todos os pingos
E todas as gotas da janela.
Vento que traz chuva de verão
Dá vontade de ser homem de uma só mulher
E viver de novo.
É, chuva de verão
Dá vontade de ser chuva de verão:
Receber
Comover
Transbordar
Anestesiar
Circular concentricamente.

 

 

 

 

Pistas

Ah! Os rastros de coisas, tantas coisas ...
Pingos de poesia diária
Que nos fica na retina.
Um cão vagabundo, de olhar infinitamente triste
Alguns minutos roubados ao tempo para falar
Com amigos, novos e antigos,
Exatamente nas horas mais impróprias.
Mas, o que profundamente me agita é essa
Falta de inspiração!
Quem ma roubou?
Um ladrar distante?
Um desabrochar de petúnias?
Uma saudade recente?
Ou foram, simplesmente, alguns destes rastros
Salpicados na retina
Que nos deixa repletos de cotidiano,
De tantas coisas?
Neste exato momento acontece o inusitado:
Num poste da rede elétrica
Trapezisticamente um pierrot saltita nas paralelas
Pautas não escritas dos fios.

 

 

 

 

Liberdade

Idéias avolumaram-se, cristalinas.
(Os sonhos, às vezes, são cristalinos ...)
Liberdade ...
Sonho real tornado lenda
- Desnutrição espiritual -
(Por, de) uma sociedade
d
e
c
a
d
e
n
t
e
!
Lágrimas sem jeito,
Um caminho solitário,
Chão, poeira e solidão:
Beira de estrada ...
Liberdade.
Anjos abatidos,
Janelas abertas,
Portas fechadas,
Mentes vãs ...
Liberdade!
Canção sem título,
Vozes clamam em orepsesed
Ouvidos fecham-se
Tanta luta: despertar!
Liberdade, liberdade ...
Sonho infantil
Na aurora do mundo:
Libertar é preciso!

 

 

 

À Você

Enquanto caminhávamos nos becos escuros
E nos desesperávamos, você estava sentado na calçada, pensando, pensando ...
Enquanto nos desencontrávamos dentro do grande cogumelo
E nossos corpos voavam em sombras coloridas,
Você estava sentado na calçada, pensando, pensando ...
Enquanto colhíamos frutos em casas vazias
E taras afogavam traumas em feridas abertas de desejos reprimidos,
Você estava sentado na calçada, pensando, pensando ...
Enquanto doenças avolumavam-se
E as mentes embotavam-se,
Você estava sentado na calçada, pensando, pensando ...
Enquanto os sentidos esvaziavam-se
E os moribundos sustentavam arranha-céus,
Você estava sentado na calçada, pensando, pensando ...
Enquanto brotavam asfaltos nos campos
E, nas ruas, explodiam neuroses silvestres,
Você estava sentado na calçada, pensando, pensando ...
E quando os becos iluminaram-se
E o cogumelo passou,
Os frutos, os traumas, as feridas, as doenças
E sentidos renasceram, ainda assim, você nada viu.
Você não é fácil!
Sentado nessa calçada, pensando, apodrecendo, morrendo! ...
E tantos "você" que ainda estão sentados nas calçadas, cuidado:
O chão está abrindo-se, e os céus desabando.
Levantem e andem!
O sol está nascendo e é preciso dourar os corpos e caminhar.
Sempre à frente!
Venham caminhar: pés descalços na grama que renasce,
Peito nú ao vento purificado, coração sem ódio, olhos abertos!
Venha,
Venha viver.

 

 

 

Jornada

Quando eu me embebedar de
Ventos e sinos distantes,
Libertarei o corpo doído e
Flutuarei em notas delicadas!
Não quero vento calmo, ou mesmo
Morno como abraços flácidos.
Não pretendo os sinos estridentes como sirenes desvairadas!
Quero o vento sem rumo, o vento noturno e solitário, parado.
Quero o sino silente, mudo, calado.
Tudo será lento, imperceptível, como o som desarticulado!
Será insurreição lenta de moléculas, desdobrando-se,
Ilimitando-se:
Será tudo vibrátil, feroz.
A água pingará de minha testa, fluída
O ar será efêmero como notas de flautas perdidas
Nas montanhas arderão minhas carnes
Será o recomeço, a vida no coração.

 

 

 

 

 

Lírica

Minha poesia, o vento está levando.
Nos olhos da musa, somente imagens de fim de noite.
No começo da canção,
Não mais musa, não mais vento.
Apenas pousa, longe,
Uma lágrima derramada no sereno,
Em busca do poeta.
É minha poesia que chora
O desencanto do poema,
E, de mão espalmadas,
Resta apenas o ruflar das asas noturnas do mar.
No deserto pernoita o poeta
Na areia gelada do estéril (dizem que o poeta é mágico):
Quem sabe se pela manhã não chovam versos na canção?
Então, haverá mares maiores,
E minha gaivota feita poesia,
Talvez se deixe deslizar pelo arco-íris do teu olhar
(O primeiro olhar que me será dado)
Silencioso e azul.
Já agora, o vento soprará minha poesia,
E terei nos olhos o raio-x do mundo.
Terei novamente a lira e,
Nela, tocarei canções suaves (e com cheiro de terra molhada).
Então, será fecundado o tema da canção,
E o poeta levitará, grávido, nos braços da lua.

 

 

 

Detalhe Urbano

Na minha rua
Tinha um lampião de gás.
Imaginem um lampião de gás no meio da rua ...
Era bom vê-lo brilhar, à noite.
E quando o acendedor de lampiões vinha despertá-lo
Para cumprir sua doce rotina,
Minha rua ficava com uma auréola mágica,
Um não sei quê de bonita:
Conseguia volatizar-me naquela pequena chama ...
Na minha rua
Tinha um lampião de gás.
Um lampião que, visto de longe,
Era assinzinho assim ...
Mas, que, de perto,
Ah! De perto nem era lampião:
Era um sol.
 

 

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