Poesias by P@ulo Monti
Última atualização: 01/09/04
| 81- Dança | 91- A Uma Mulher |
| 82- Manhã | 92- Texto |
| 83- Mágica | 93- Tempo |
| 84- Manifesto nº 2 | 94- Aprendiz de Cronista |
| 85- Crianças | 95- In Memorian |
| 86- Falta de Sono | 96- Esquina |
| 87- Poema Classificado | 97- Verão |
| 88- Meu Pranto | 98 - Muro |
| 89- Germinação | 99 - Dos Metais |
| 90- Emoção | 100 - Intermezzo |
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Dança
Entre corpos navegadores
O som começou sua cristalização.
E nas contrações luminosas dos olhares,
Um coração pulsou, levemente.
Nas brisas sonoras
Dos movimentos noturnos
Asas abraçaram o espaço
E fundiram-se livremente.
Os passos no asfalto
Buscam nuvens terrestres
E, num raio de luar,
Tornam-se gigantescos olhos de mercúrio ...
Entre abraços suaves
E cristalizações luminosas
Os corpos pousam silenciosamente
Nas pálpebras trêmulas
De seus últimos acordes.
Manhã
Os velhos tijolos
Saúdam o novo dia:
A casa amanheceu serena
E as nuvens brancas
Reinauguraram o celeste.
No quintal
Algumas galinhas
Irrompem festivas no terreiro.
Na calçada, o mundo espreguiça-se,
Agitando-se um gotas coloridas
Que o sol debruça
Numa pequenina poça d'água.
E tudo recomeça naturalmente ...
Mágica
Um toque
Um gesto
Um suspiro:
Mágica.
Ausência lunar
Caminho
Dentre a menina mágica (abra kada bramor: all the way).
Pedaço de jardim
Branco balançar
Benção de folhas:
Noite no jardim.
Sons de Sinatra no ar
E muda conversa
com flores, folhas:
Um jardim encantado.
No meio da noite
Do mundo
De si mesma:
Casa Encantada.
Manifesto nº 2
Por quê continuar trancando
O grito na garganta?
Por quê criticar quando a ordem é construir?
Por quê pedir aprovação quando a coisa
Em si é libertação?
Por quê derrubar a gaivota que quer rever sua praia distante?
Por quê reprimir
Quando é preciso ser?
Por quê soluçar quando é preciso chorar mansamente?
Por quê viver
Quando é preciso existir?
Por quê sujar os corpos amantes com olhares limpos?
Por quê sacudir a poeira e cobrir de lama
Quando se pode sorrir?
Por quê não deixar meu versos voarem sem asas?
Por quê retóricas, serviços sociais,
Escolas litero-filogenéticas
Quando se deve dizer: avante?
Por quê telefonar quando se pode fazer um gesto de carinho
Num corpo sugado?
Por quê suportar este esqueleto sobre os ombros
Quando a mente navega no tempo e espaço sem cadeias?
Por quê não viver outro sonho mais real
Ou, então,
Por quê não criar asas e jogar-se deste
Trapézio apodrecido e voar?
Crianças
Assustam-me estas crianças (as de colo, principalmente ...)
Quando me olham com aquele
Gingar todo delas
Como se, de repente, fossem desmembrar-se todas.
E gesticulam, desordenadas,
Como quem explica assuntos metafísicos
Num mudo e novo método descritivo.
Fico com medo delas,
Pois, o que não estarão pensando de mim
Que me sacudo, faço caretas, o diabo!,
E continuam olhando-me
Como quem diz:
Ainda não aprendeste a te comportar?
Calo-me, ante esses pequeninos.
Calo-me e evito olhar,
Assim, estamos em paz!
Em paz e livres um do outro:
Eu, de minha infantilidade senil,
Elas de sua seriedade, sua profunda
E triste seriedade.
Assustam-me estas crianças (principalmente as de hoje em dia ...).
Falta de Sono
Hoje
5 da manhã
Descobriu-se
Um vácuo de consciência.
Havia
Um pouco de sono
Não usado.
Hoje
5 da manhã
Aconteceu pura poesia.
Poema Classificado
Compra-se um carro,
De preferência, fusca.
É necessário bom estado de conservação,
Pouca quilometragem
Muita disposição para andar.
É necessário que seja, eventualmente, boêmio.
E que suporte variações internas de pressão.
Fundamental que tenha rádio
Pode e deve ser FM
Para que eu possa receber mensagens sensórias
Que tenham o ritmo de um quebrar de ondas.
Os bancos devem ser preguiçosos como noites de intenso verão
E que haja perfume que lembre a mulher da gente recém-saída do banho.
Compra-se um carro que,
Ao se vê-lo, tenha-se a impressão de ser uma extensão nossa.
Sua buzina deve ter a sabedoria de não falhar nunca,
E, ao mesmo tempo, sussurrar como o amor feito.
Que o motor seja silencioso e corresponda às expectativas
Como a força da mulher amada.
Bom será também que o pára-brisa seja vaza-brisa,
E, que os pedais, tenham a certeza de um passo depois do outro.
A alavanca de câmbio deve ter um não sei quê de seios,
Que, ao tocar, tenha-se excitação visual dos mesmos.
E que, o volante, lembre lindas e perfeitas nádegas
A quem o toque deverá ser firme e gentil.
Compra-se um carro,
De preferência, fusca.
Meu Pranto
Ancestral do homem,
Ontogênese da minha vida:
Profunda falta de mim!
- Onde a primeira onda do mar?
Inspiração inominada:
Vazio absoluto!
Sábado de sol e ventos
Sigo idiosincrásico de mim!
Assim se perpetua o momento:
Profunda falta de mim!
- Onde o primeiro sangrar de minha poesia?<
Sábado de sol e ventos
Poema duramente gerado
Nas entranhas da mulher que nunca terei:
Profunda falta de mim!
Sábado
De sol
E
Pranto!
In
Memorian
Nesta larga avenida
Eu, bandoleiro(olhem-me:)
Assaltante anônimo,
O último procurado!
Venho de longe,
Andarilho poeirento,
Caçador proscrito
Em busca de paz!
Não mais ladrão diurno das máscaras cotidianas
Não mais "clown" em praça pública
Não mais caçador de nuvens coloridas (aliás, elas estão em extinção ...)
Não mais "gitano estradero"
Apenas um antigo
Bandido
Guardado para sempre
Num desbotado cartaz: "Wanted - Dead or alive"!
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Esquina
Uma ponta de esquina:
Parede cálida,
Sol de inverno,
Vento na copa das árvores.
Isso me bota profundamente quieto!
Sou eu sozinho
Contra(com) a natureza,
Mas, acima de tudo,
Sou eu na minha rua!
Sou numa ponta de esquina,
Encostado numa parede cálida,
Voando sobre as árvores,
A me ensopar de sol:
Sou eu na minha rua!
E, muito mais,
Sou eu no meu lugar.
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Muro
Quero a solidão de um canto de muro branco,
Talvez,um pouco respingado de lama (essa lama cotidiana do pós-chuva)
Para encostar meu coração.
Sentir o bater surdo
De seus múltiplos co(tijolo)raçõe(s),
Ao ritmo petrificado do nosso cimento incolor.
Quero a solidão, a profunda e punjente solidão de um muro,
E assim, tocar sua gelada impotência de ser muro,
Quando poderia ser um riacho mole e sonolento.
Mas, então, já não mais o quereria.
Pois, quero sua infinita solidão de muro,
E, tristemente, branco.
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Dos Metais
Metálicos sons:
Terremotos
Seqüestros
Atentados!
Metálica vida:
Solidão
Multidão
Agitação!
Metais e metais:
Computadores
Sangue
Sentimentos!
Metálicos seres humanos
Humanos seres metálicos
Terremotos e mais metais!
Sangue metálico
Corpo projetado solitário
Em metálica noite!
Metais:
Amor cantametal
Vida contametal
Espaço siderametal!
Metais ...
Socorro!
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Intermezzo
A manhã do meu tempo
Afogou meu lirismo
Nos olhos cansados
Da minha raça.
Na sala de estar
Abri as vidraças do meu mundo
E ventei nas contrações brilhantes
De uma suave gaivota
Que invadiu o cenário.
(Sutil bailado de encontros silenciosos
Ante a sensação do espaço recuperado).
E no centro do mundo
Palpita o sangue resgatado na noite serena.
Retomo o peso do poema
E sob versos informes
Cristalizo as vibrações puras
Da primeira estrela noturna.
Neste exato momento, acontece o inusitado:
Num poste da rede elétrica
Trapezisticamente um pierrot saltita nas
Paralelas pautas
Não escritas dos fios.
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