Poesias by P@ulo Monti
Última atualização: 22/10/06
| 61- Sentir | 71- Amigos |
| 62- Paixão | 72- Trecho de Diário |
| 63- Encontro | 73- Olhar |
| 64- Divagações | 74- Noite |
| 65- Caneta e Poeta | 75- Mora Comigo |
| 66- Amantes | 76- Canto Crioulo |
| 67- Pedido | 77- Brasília |
| 68- Quadro | 78- Lamento |
| 69- Toada | 79- Quis no Silêncio |
| 70- Solitude | 80- Gênese |
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Sentir
Sinto que a poesia me arrasta
Cada vez mais e com mais força.
Não luto.
Deixo-me arrastar.
Pois, quando nos encontramos nesse arrastar,
A poesia e eu,
Sinto que sou um deus.
Eu crio através e por ela.
E minha criação me satisfaz.
Paixão
Eu me apaixono perdidamente
Por certos olhares que me dirigem.
Apaixono-me, também, por muitas mulheres,
Cada uma mais do que a outra.
É como a poesia, inevitável.
Encontro
Um olhar é algo tão simples e,
ao mesmo tempo, tão mágico: nos faz conhecer,
reconhecer, lembrar, relembrar.
Um olhar profundo e tranqüilo nos faz religar
um tempo imemorial, sem limites!
Sinto todo esse tempo quando nos perdemos
numa troca de olhar, sem palavras, e com tanto entendimento!
Tanta cumplicidade, tanto reconhecimento de, por que não?,
vidas passadas.
Talvez, com algum tempo desse tempo que vivemos,
com algum atraso de tempo e alguns sentimentos
confusos: amizade, carinho, cumplicidade,
reconhecimento de almas irmãs, de um amor universal.
Maior que o tempo, que a carne, que o sangue que derramamos
nestas jornadas muitas vezes sem sentido.
Perguntaste por que te olhava. Sabias, sem o saber, como eu, de
tudo isso.
É um sentimento mútuo que voltamos a reconhecer em nós,
pois, todos os encontros tem um sentido e um significado.
Bom ter te encontrado!
Divagações
E assim vou vagando pelo mundo
Em busca da minha saudade perdida.
Das noites de boemia deixadas
Na rotina dos bares
Das damas da noite que amei e que não amei
Pois, todas amaram o poeta.
O poeta que ama seus sonhos seus desencantos,
Sua musa maior.
E que ama, acima de tudo, seus momentos de paz
Nos bares e ao som do violão chorando o samba triste
De sua saudade deixada no seio de sua amada
Numa noite qualquer de um dia qualquer
De uma felicidade de um corpo-a-corpo
Sem vencedor nem vencido.
Vagando ...
Caneta e poeta
E de repente
A caneta
Toma vida:
É o poema
Começando
Ou é o poeta chorando ....
Então, tudo muda:
Já nada mais importa
A rua fica na rua
A lua no céu
A noite fica espiando atrás do poste de luz ...
E a caneta desbravando palavras
Sublimando tanto dia-a-dia
Levada pela mão do poeta(o poeta se funde em sua caneta)
E vibra e desvibra
Ela sofre e dessofre
Ela ama e desama
Ela se acaba sozinha num ponto de exclamação:
E o poeta descansa(sem paz)
Para sempre!
Amantes
Amor ...
Meus passeios pelo ar
Minha esperança solta ao vento
Vontade de passear contigo
De mãos dadas, como num sonho antigo,
Protagonistas de um filme nosso: tu e eu!
Explodiu a saudade de ti
Em pensamentos de amor feito na tarde, na noite ...
Entre sussurros e vida aberta à nossa vontade.
Um cotidiano de suor e lágrimas
Uma fuga noturna ao nosso sonho de amor
Um olhar trocado no silêncio de nós, da noite.
Uma muda promessa de amantes que se buscam,
Na vertigem de eterna noite em teus braços.
Amor ...
Vem flutuar em nosso leito
Vem ser eu e serei tu
Vem te perder comigo desta cidade
Que nos ofusca com suas luzes ...
Vem flutuar entre as estrelas de um céu que fazemos num beijo
trocado.
Amor ...
Esqueçamos a vida que corre lá fora,
Guardemo-nos em nossa embriaguez,
De nossos momentos juntos
Amemo-nos!
Amor ...
Pedido
As batidas surdas do coração
Gritam ao vento
À chuva, ao mar.
No céu, estrelas cadentes
Na terra, corpos se buscam.
Nas horas, escoam-se esperanças
Nos momentos, cristalizam-se beijos de amor!
E a vida corre célere
Janelas se abrem para o amanhã
E um pedido se faz presente:
Viver por amor.
Os sonhos se vão com a manhã
Com a manhã vens tu
E contigo se perdem os temores
E as trevas de uma noite sem ti.
Vem a mim
Que te busco
Na manhã de um dia tão só, sem ti.
E um outro pedido se faz presente:
Viver nosso amor.
Quadro
Infinitude.
Nuvens,
Céu azul,
Pensamentos ...
Uma janela aberta!
Toada
Acabando a felicidade num momento
A bondade chorando num canto
Sangrando a capacidade num tormento
A mocidade varando num quebranto.
Abraçando a amizade num pranto
A vontade começando num movimento
Movimento virando felicidade.
Bondade saudando tonta
O manto da capacidade chutando
Curando de branco a mocidade.
Amizade cantando tanto
Extasiando vontade sem conta,
Cantando na ponta da brutalidade.
A agressividade curando sem conta
Tanto chutando uma falsidade
Como saudando a velocidade em branco.
Cidade virando manto
De tanta saudade começando
Abraçando movimento sem vontade
Em pranto de amizade varando
Sangrando quebranto na mocidade.
O tormento chorando essa capacidade
Acabando num canto de felicidade
Extasiando uma vontade, um momento.
Solitude
Um resto de sol:
Sol só
Como eu.
Um gesto interrompido
Um pedido
Calado.
Uma tarde vazia
Cheia de silêncio
Da tua voz.
Um resto de sol
Um gesto interrompido
Uma tarde vazia
Eu vazio!
Uma brisa
Um encontro
De céu e mar.
Brisa, vento leva.
De desencontro
Vazio de nós dois
Se enche o espaço.
Uma distância
Um pedido calado
Uma tarde vazia
Um sol ...
Que te vê, saúda
Que te tráz a mim:
Teu calor
Teu corpo
Teu olhar
Tua voz
Teu amor!
Saúdo-te na distância
Amiga, amada
Filha, mãe e mulher
De teu poeta solitário sem ti!
Amigos
Uma rua
esquecida
Uma lembrança antiga
Uma galeria minha e tua
Uma feira de novidades!
Dia após dia
Um sonho a viver!
Com meu casaco sobre o ombro
Como um vagabundo
Buscando meus amigos nesta tarde!
Longe estou,
Porém, muito perto,
Pois, a distância é somente um conceito abstrato.
Prontamente estarei ao fim de tarde
Entre Corrientes e Callao!
Trecho de
Diário
É domingo.
Ruas vazias
Como convém a uma cidade do interior...
De repente
Um gotejar
Lento de sonhos de inverno: o vento caminha pelas ruas, curioso.
As casas
Estão fechadas: dormem a saudade
Das tardes sonolentas de verão.
Passeio por estas ruas
Me encontro, guri, numa esquina(e ficamos lá, os dois,
planejando uma pescaria no Cambaí...).
Naquele tempo
Não havia crises no mundo
Pois, o mundo era ali (e era fácil ser criança ...).
O sol está desmaiado
Também, com tanta nuvem cinza a cirandar à sua volta.
E meu avô,
A contar histórias: "Estava, uma vez ..."
E alisava sua perna
Como quem alisa a saudade que, de repente, se materializou ...
E, assim, eu ia sendo criança!
E deixando aqueles domingos de matinées
Aqueles sonhos de ventos curiosos
Aquelas esquinas de tantas histórias
Aquelas ruas em que me perdia após o almoço
E só retornava para o jantar.
E deixei tudo, não para sempre,
Mas, para mim, guri,
Bem guardado na querida Itaqui.
Olhar
As folhas em branco
Parecem ter a palidez do primeiro susto.
Como aquele que senti quando,
De repente, teu olhar
Se mostrou como apenas olho.
Curioso, amada,
Não sabia que tinhas olho.
Sempre acreditei que tinhas olhar,
E que olhar!
Lamento que o lirismo tenha fugido,
Mas foi apenas pelo susto primeiro da descoberta.
Assim acontece, às vezes, com a inspiração:
Leva cada susto que, se esconde, tímida,
Dentro das cápsulas não deflagradas das palavras em mineral estado.
Mas, entre um e outro susto,
As desmineralizo.
E como se mostram generosas!
E nos protegemos de sustos segundos.
Noite
De dentro da noite
Partiu meu andar
E os caminhos solitários
Formaram tantos luares à beira-mar.
Nos bares, outros alguéns estão
Bebendo as últimas solidões noturnas.
E num repente
Os gostos salgados e poeirentos
Vazaram os olhos vermelhos do último copo
E o que restou, foram alguns poucos cacos, pregados
No espaço vazio e escuro em grave solenidade.
Mora Comigo
Mora comigo
Uma piscina verde.
Mora em meus olhos
Sugados pela falta das primeiras lágrimas
Uma piscina verde.
E, no fundo azul
Do meu último suspiro,
Teu corpo se projeta, lentamente, azuladamente
Em minhas águas turvas
E não tão verdes.
Mas teu sorriso me devolve
O verde: o infinito verde
Do primeiro mergulho.
Mora comigo
Uma piscina verde - toda verde.
Lamento
Na condição madrugada,
As coisas perdidas e achadas
Juntam-se, amontoam-se
Dentro do peito ...
As horas, agora, são mais lentas
As lembranças mais rápídas e doídas ...
Ao longe, um lamento marinho
Uma falta, um pedido no ar:
Aqui, uma esperança morreu!
Mas, é madrugada,
E nela se refazem os gestos diurnos
(principalmente, os que não
aconteceram ...)
E no sorriso solitário
Uma vontade de vida,
Uma boca calada de beijos,
Um corpo sem corpo,
Um espaço vazio: que pena!
Que pena o desencontro,
O profundo abismo,
A tênue linha,
O instante desencantado: que pena, nós!
Quis no
Silêncio
Quis no silêncio das bocas
Um olhar morno de amantes,
Um sorriso amando no silêncio,
Ou até quem sabe?
Um beijo molhado!
Ah! Um beijo molhado ...
Molhado da luz do seio guardado,
Do silêncio eloqüente de toques macios,
Da ternura cálida de corpos nús,
Da espuma branca de noites de amor.
Um beijo molhado,
Molhado e não acontecido,
Nunca mais!
Quis no silêncio das bocas
Um beijo de futuro presente,
Um beijo de esperança,
Um beijo de vida!
Quis uma opção,
Mas a condição é mais forte:
Procurar, procurar,
Sempre e cada vez mais!
Quis no silêncio das bocas
Um beijo molhado,
Molhado de molhado!
Quis a essência,
O indizível -
Quis demais ...
Pena.
Gênese
Do amor nasceu
Uma canção:
Uma canção noturna,
Molhada e com cheiro de chuva ...
E da canção nasceu
Um caminho de estrelas:
De estrelas serenas, com sabor de primavera!
Na primavera, o vento
Inaugurou as rosas:
Rosas despertadas nos olhos da manhã.
E, na manhã, surgiu
Um pássaro:
Um pequenino e suave pássaro,
com asas de nuvem e canto de delicado cristal ...
Do amor nasceram
Muitas outras maravilhas:
Maravilhas naturais
Como um sorriso, um olhar ou, ainda, um terno raio de sol ...
Mas, antes de tudo,
Nasceu do amor
Algo muito maior:
Muito maior que o mundo
Nasceu, do amor, um homem.