Poesias by P@ulo Monti
Última atualização: 06/03/02
| 21- Cotidiano | 31- Solilóquio |
| 22- Amar você | 32- Gerúndio |
| 23- Luta | 33- Despertar |
| 24- Sonhar | 34- Abstração |
| 25- Queria | 35- Elegia |
| 26- Do verbo querer | 36- Memória |
| 27- Elegia ao sonho desfeito | 37- Vôo |
| 28- Qualquer bobagem | 38- Flash |
| 29- Ideologia | 39- Triste |
| 30- Deserto | 40- De vez em quando |
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Cotidiano
As horas desfilam
Entre promessas que se avolumam
E os sorrisos espontâneos
Dos amigos momentâneos
Sentem as conversas ligeiras
Dos olhares mudos
Dos toques delicados
E as sensações
Ficam no ar suspensas!
Cascatas descambam
Vozes sussurradas
Quase sopradas
Veladas seduções que se instalam:
E a vida se rende ao encanto
Das ninfas gregas que fogem em verdes prados
E tudo se deixa como vento e sol!
E os amantes
Não se amam:
São desamantes
são fruto vazio e cheio de ânsia
São fusão de encontros e separação
são o fim
São amantes nas manhãs
São solitários fins de tarde!
Amar você
Amar você
Ouvir sua voz
Junto com os pingos dessa chuva
O mundo todo se cala!
Mais alto fala a saudade
De vê-la,
Junto ao meu peito
Deixar sua cabeça repousar:
Sentir seu respirar em mim!
Amar você
Murmurar em sua janela
Como o mar à praia
Escorrer por ela
Vê-la um instante só!
Amar você
Abraçar o infinito
Diluir-se na chuva do seu sorriso
Afundar-se no oceano do seu olhar
Flutuar no céu do seu corpo
Tornar-se o ar que respira
Sufocar em seu beijo
Muito mais, muito mais...
Amar você!
Luta
Sós.
Artista
Poeta
Traçam sua pintura
Poesia.
Seus corpos queimam
Seus sentidos fogem
Sua criação não pode morrer!
Céu
Vazio
Um vento morno
Uma esperança, talvez última!
Vida
Morte
Distancia-os
Projeta-os
Em suas - telas
Páginas - vazias!
Sonhar
Sonha, menina,
E que teu sonho seja de paz
Paz que o ar da manhã te trará.
Beijar-te-á, suavemente, a esperança
E teus campos abrir-se-ão em flores.
Flores da canção sonhada à noite
Flores da eterna primavera(na verdade, a primavera
é sempre eterna...).
E, enquanto isso,
A noite continua a beijar as estrelas!
Queria
Queria fazer um poema alegre,
Queria fazer brotar um sorriso em teus lábios,
Mas, só tenho amargura.
Queria fazer vibrar a vida dentro de mim,
Queria sentir o vento com alegria,
Mas, só tenho amargura.
Queria fazer um poema profundo,
Queria fazer amor com a mulher que há em mim,
Mas, só tenho amargura.
Queria não pensar que pensas, que o mundo pensa,
Queria ver o sol no meu peito brilhar,
Queria que o tempo não fosse triste,
E só tenho amargura.
Queria descer aos vales,
Queria não ser humano - ser humano é amargo demais...
Queria escrever um poema,
E só consigo extrair desta virgem folha de papel o fel de um
espírito em debate.
Queria tanta coisa...
Queria um amigo querido...
Queria ver a tua alma, amiga minha.
Queria ser as horas impassíveis e não ter tanta amargura..
Queria ser teu amante, perdido em teu corpo,
Em ti, mulher distante que vejo em meus raros momentos de
lucidez.
Queria tanta coisa,
E só tenho amargura!
Do verbo querer
Queria que meu poema falasse
Da infinita ternura que sinto.
Tão infinita que chega a ser triste.
Sinto em teus olhos que me amas
Sinto... e sinto dentro de mim
A falta do nexo desconexo
No momento em que te amo
Em que teu corpo se enrosca no meu...
Queria também teu olhar no meu
Sem frescuras nem quimeras
De falta de sonhos,
Sonhos que antevejo em nosso olhar
E como é lindo!
Sonhar é preciso
Como preciso é voar no ar de teu sorriso
Que me transforma em criança...
Que ri à-toa
Que brinca com teus cabelos
Que desperta o amante inesgotável
Que bebe teu amor, teu corpo...
Que te faz minha para sempre
No infinito momento de nosso olhar.
Elegia ao sonho desfeito
Tudo se transformou:
O sonho não é mais
O mundo não é mais
A vida(o que dizer dela?).
O sorriso apagou
A luz acabou
O dia se foi
A noite(o que dizer dela?).
As palavras voaram
Os corpos separaram
O desencanto se fez presente.
As pedras rolaram no mundo
As águas afogaram tanta coisa
(A semana, o domingo!)
A fumaça ergueu-se em prantos
Enxofre e morte louvaram a loucura!
Tudo se transformou...
Até o céu buscou as cinzas
As nuvens choraram a morte do sol!
E a vida?(o que dizer dela?...)
A vida... continua
E a noite também!
Qualquer bobagem
Anjos abatidos
Janelas abertas
Olhos da noite.
Céu de estrelas
Portas fechadas
Mentes vãs.
Risos, risos
Lágrimas sem jeito
De buscar teu peito.
Caminho solitário
Beira de estrada
Chão, poeira e solidão.
Canção sem título
Só amor em mim
Para ti, amor
Para mim, a canção!
("Escute esta canção, ou qualquer bobagem...")
Ideologia
Sinta meu corpo
No vento
Dos sorrisos
Dessa ventania
Em um beijo quebrado.
Quantos encontros espalhados
Encontrados...
Na rua, no mundo, no olhar,
Nos corpos
Ventos róseos
Sorrisos
Ventanias
Beijos quebrados.
Meus dias encostados
No sol
Na chuva
Sem sol e mão
Com mão e sol
Sol e não
Uma solidão!
Banalidades...
Tantas coisas do mundo
Meu corpo
No sol
No vento
Em sorrisos e esperança.
Sinta beijo quebrado
Dessa ventania
Dos sorrisos
No vento
Em um, meu corpo.
Deserto
A fonte esgotada
A tarde acabada
O dia de amanhã: onde estão meus versos?
A vida lutada
A estrada caminhada
A noite por chegar: onde irei agora?
O peito rasgado
Os músculos dilacerados
O sonhos açoitados
Amor esmagado!
Tanta coisa a fazer sem fazer
Caminhos opostos tomar como amantes
Difíceis como o céu à terra descer
Já tropegamente seguimos ofegantes...
Onde estão meus versos?
Amor, eterno fogo infernal
Rege todo meu ser animal
Fera acuada: rosno, xingo e despedaço...
O mar já não sabe o que faço!
Um sonho rasga o véu da noite
O luar desvairado beija minha testa:
Tudo está consumado!
Solilóquio
Ninguém diz:
Nada da noite!
Alguém diz:
Dia de tudo,
Tudo ou nada!
Ninguém diz:
Tudo amar!
Alguém diz:
Nada no tudo,
Tudo de noite!
Ninguém diz:
Dia de nada,
Tudo do nada!
Alguém diz:
Nada amar,
Morte-vida!
Ninguém diz nada de tudo.
Gerúndio
É a gota
Pingando
É o orvalho
Anoitecendo
É o vendaval
Rondando
É a água
Rolando
É um dia
Andando
É a lua
Perpetuando
É a cor
Cicatrizando
É um sono
Pingando
É a saudade
Anoitecendo
É gente
Rondando
É uma lágrima
Rolando
É amor
Andando
É o pensamento
Perpetuando
É a vida
Cicatrizando.
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Despertar
As estrelas transfiguraram-se
E partiram nas asas dos primeiros raios da manhã.
O vinho escorreu-me pela garganta
Inundou meu vale de sonhos.
Os rochedos receberam meu corpo
E o ofereceram aos ventos.
As planícies estenderam-se no horizonte
Montes e névoas ergueram-se do chão
E bradaram ao céu o soluço do poema...
Quebrou-se a corrente
Verteu a nascente
E nasceu o filho do amor desesperado!
Abriram-se os céus
E choraram as pedras
Explodiram os gritos
E sacudiram a Terra
E tudo começou!
O sofrimento tomou lugar no espaço
A longa jornada abriu-se à frente
Um pássaro voou
E a caminhada começou!
Abstração
O tempo pára
A vida pára
E a mente voa, livre
Em busca de nada.
Passeios entre campos floridos
Ou miseráveis charnecas
Expressão doce e alienada
De um sonho que só percebe a vida perdida,
Ou por encontrar
Na vibração do coração.
E o mundo gira
Na sua consciência imortal de sensações e desejos
Expersos pelo subterrâneo das horas vazias em que sabia ser nada
E continuava a sê-lo.
E continua a projetar-se no vácuo dos sentidos anestesiados
E saudades inúteis.
De realização idiota e mórbida
De seres abstratos
Abstraidamente abstraído.
Elegia
E a chuva
Lava minha vida putrefata.
Leva meus versos
Para a terra fria e molhada.
A morte lançou sua maldição
Sobre a flor.
E o amor desvaneceu-se
Em tristissimo pranto.
As trevas desceram
O mar engoliu seu náufrago
Pouco a pouco,
Lentamente.
Nas horas mortas sem solução
O fim do sonho
Sonhado, dormido de vozes.
A estrada, o sonho desfeito, o violão calado
O fim do amor
Amado, tomado da vida.
E a chuva
Chovida, lavada em meu peito,
Corpo e restos de ser.
O mar engoliu seu náufrago
Muito a muito,
Docemente.
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Memória
Então vim à vida.
Viver minha loucura
Explodir meu lirismo.
Chorar tristes de tantas alegrias
Provar a morte da partida
Sentir o lado escuro
Ter o medo nas entranhas.
Gozar as cópulas sem amor
Sorrir as esperanças
Desesperar as angústias de ser.
E meu lirismo explodiu a loucura
De tantas alegrias chorou triste
A morte da partida nas entranhas
De amor sem cópulas desesperadas.
O lado escuro vivi
Tive o medo da loucura.
Desesperei a vida
E sorri das esperanças.
Naufraguei em tantos mares, azares
Sobrevivi num blefe
De céus sem estrelas, de luas.
Esfriei tantos sóis
Matei tantas sedes
Em cálices vazios.
E tudo se fez de repente:
A vida
Os poemas
Os anjos
O poeta
O ser
Até eu!
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Vôo
E busquei sobre as ondas do mar
O sopro de teu sorriso
E subi aos céus
Perguntando que é de teus cabelos
Sempre soltos entre suaves brisas noturnas.
E enchi as mãos com as águas
Como se as enchesse de ti
E escapuliram de minhas mãos
Indo se deixar ficar distraídas
Em branca areia na praia.
E procurei em uma concha
Ouvir não o som do mar
Mas teus sussurros entre meus abraços
Apaixonados.
E só consegui sentir o sal nas narinas
O gemido surdo do mar
O imenso amor das ondas na praia
E a minha solitude.
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Flash
E o encontro
Se fez ausente.
Tudo se fez de repente:
O sol em nós
O mar em nós
O vento em nós.
E a saudade abraçou meu corpo - docemente.
Triste
Quando estou triste
Gosto de me deixar ficar
A passear em becos
Sem saída(os becos são sem saída só para os olhos)
No inverno, à tarde,
É bom sentir
O frio na carne
E o vento no rosto:
Ver a garoa começar...
De vez em quando
De vez em quando
Me deixo levar
Pelas ruas, pé-ante-pé(não devo acordar meus fantasmas...)
Examinando ou me deixando examinar
Em cada calçada
Em cada casa
Alguns restos de mim
Perdidos(ou encontrados)
Alguns pedaços de sorrisos inocentes
Ou pedaços de preguiçosas tardes de verão.
Ah! O verão... ( o verão boceja nuvens brancas no azul...)
E sigo andando
Agora mais rápido:
É melhor deixar meus fantasmas dormir!