Poesias by P@ulo Monti
Última atualização: 27/07/02
| 1- Acaso | 11- Vôo |
| 2- Repente | 12- Coisas |
| 3- Drama | 13- XV |
| 4- Intervalo | 14- Ruídos |
| 5- Aurora | 15- Alienação |
| 6- Contrastes | 16- Noturno |
| 7- Amiga em Silêncio | 17- Poeminha |
| 8- Beira-mar | 18- Amor |
| 9- VII | 19- Poeta |
| 10- Vento | 20- Manifesto |
| Anterior | próxima |
Acaso
Prenúncio de chuva:
As nuvens pesam sobre a cidade - elas ou a outra? -
Um telefone brinda um recém-nascido.
Mas, e do tempo, o que dizer?
Um automóvel lança seu rugido:
Que é feito de nossos rugidos?
Nossos pés buscam raízes
Mas o melhor do tempo está no momento este, o da criação
sabadinal:
O sábado com sabor de chuva!
E o resto, só o sonar de neurônio(perdido), refaz
A ânsia de nossos dias.
Repente
Num repente
A amplidão.
O céu invade
A sala
E os objetos
Flutuam
Num raio de sol.
Onde anda a visâo?
(O céu não invade mais as salas)
Digam-me, por favor.
Quero a lua perdida de um Planalto distante
E cheiro de relva fresca na madrugada.
Quero o coração deixado no mar.
Quero regar o cérebro embotado
E libertar os primeiros relâmpagos noturnos.
Drama
Meio sem jeito
O poeta se ajoelha ao momento da criação:
já são versos sem sentimentos, ilhados pelo
cimento e abençoados pelo azul.
Mas, eis que uma chuva precipita o banho universal.
E o pobre poeta sente como é difícil a penosa faina
da disposição livre,
Mais difícil, talvez, a arquitetura interna do homem.
O cheiro de terra molhada penetra nos passos comedidos
Entre tantos vazios,
E, no peito, algumas poucas plenitudes.
O verso é outro, as luzes estão apagadas!
Intervalo
Os fantasmas passeiam na casa adormecida.
Enchem cálices vazios
Em noites repletas de sonhos novos e antigos.
A lua, navega solitária, satélite:
Vive a solidão do espaço!
E as casas abandonadas
Encontram razão quase perdida de vidas à-toa(os fantasmas são
tão vagabundos...).
Mas, o mistério é noturno,
E a noite, despertada, anda, anda...
Aurora
Um sono profundo
Marcado no velho sapato corrompido pelo tempo
Aprisiona o ruflar das asas
Sonolentas da manhã.
O passeio noturno
Liberta antigas canções,
E, em coloridos poços sonoros
Vivem suaves, mas tristes
Criaturas: antigos humanóides.
Num grito isolado e quase sufocado
Algumas tímidas borboletas
Ameaçam o primeiro vôo:
O primeiro vôo...
E, nas contrações azuis da minha sombra,
Transformo-me em anjo sonoro
E musifico.
Faço-o até a última pena,
Até que a primeira estrela da manhã
Bruscamente poligonize-se em minha janela.
Contrastes
No mar o movimento
Salgado e precursor.
No ar o balanço,
Goteira escarlate.
No living a maré,
No corpo o caracol.
Na onda a vida,
Em espumas um sussurro.
No arco-íris brotam nuvens
Na cabeça, explode, arranha-céu,
E no pátio, numa cadeira
Balança todo o infinito.
Amiga em Silêncio
Quero teu silêncio,
Amiga.
Aquele silêncio que me devolve
O esquecido repouso absoluto.
Quero teu silêncio,
Amiga.
Quero, ainda, o profundo
Silêncio de fundo de mar.
E em noites de lua cheia
Quero teu silêncio
E teu olhar de peixe morto:
Teu olhar vítreo e vazio,
Vazio como teu silêncio,
Amiga.
Beira-mar
Da praia distante
Quero sal
Gaivotas
Maresias.
Vento salgado
Beira de mar:
Quero de volta
Um verão janeirado de sal e vento
Sal de verão
Ventos de janeiro!
Depois, saudade
Violão macio
Cachaça de rolha
E uma lua(que não precisa nem ser cheia...)!
VII
Alguma sombra
Ainda pousa
Sobre a relva molhada.
Duas pálpebras
Silentes e estáticas
Vigiam em eterna primavera.
Na rasa superfície
Da água-gota
Suaves bailarinas incendeiam
Um colorido bailado.
No piano calado
Submerge a última sinfonia:
O luar recomeça a trincar
Os beijos dos fantasmas
No sótão cristalizados.
Vôo
Pálpebras pesadas
E o amor assaltado numa esquina.
(Na via pública
um pássaro canta e seu canto
atrapalha as buzinas...).
No meio da noite
A chuva umedece
Meus gastos pneus.
Uma lua de mercúrio
Escurece meu último sorriso.
E, no meio da avenida,
Brota uma estrela sonora.
-->
Coisas
Ultimamente
Não tem chovido.
O sol tem estado
Muito brilhante.
Aqui neste lugar
Alguns poucos sussurros
distantes
Em busca de maior eco.
As semanas se apresentam iguais
E os dias não têm tido muita razão
De acontecer coisas...
Coisas que precisam acontecer,
Ou ainda, serem pensadas e precisadas.
Como um pingo d'água
Um quebrar de ondas
Um crepitar de antigos fogos
Um trincar de vidros(aqueles que nos embaçam as janelas da
alma...)
Alguma coisa,
Qualquer coisa!
XV
Quem me dera poder
Desentranhar um poema.
Desentranhar como quem
Tropeça numa pedra acidentalmente,
Ou encontra, de repente, um velho amigo.
Desentranhar, ainda, talvez
Como quem descobre, maravilhado,
A primeira emoção do amor, a primeira namorada.
Desentranhar um poema
De um rótulo antigo, desses de sabonete ou dentifrício,
Ou de um olhar infinito e triste daquele cão
De minha infância(Ah! O cão de minha infância:
ele era o poema que gostaria de desentranhar hoje...),
Quem me dera poder,
Quem me dera.
Ruídos
Na sala deserta
Uma flor está brotando.
No escuro solar
Um feto é gerado e
Nas entranhas do chão
Um terremoto morre.
Numa pauta suspensa
Um pássaro canta, ao l o n g e.
Numa avenida
Geme o asfalto e
Busca sua cicatriz antiga(a terra agoniza).
E no alto de um campanário
Um sino badala
Indiferente.
Badala, ba-da-la, b a d a l a ...
Vento
O vento agitando-se entre as árvores
Tráz outras agitações dentro de mim...
E eu, sentado à esta mesa, que não a minha,
Mergulho ventaniamente nas palavras.
Palavras feitas de(no) vento do meu espaço
in(ex)terno,
O vento macio de beira-mar, amando água, corpos e sal!
O vento suave de lirismos (in)contidos no (pobre) peito do poema
em gestação,
O vento refeito em nuvens brancas,
como um seio de mulher: rijo, inflexível e sedutor.
O vento ventando a vida
Varrendo saudades noutras direções
Vento vindo, voando, vago: vento...
Alienação
O som do mar
Busca meu ouvido.
Meu olhar
Mergulha no quarto escuro
E busca as profundezas:
A suprema claridade das profundezas!
Tudo se resume:
Certo
Errado
Idiotas & doidos
Brilhantes & esmeraldas:
Puro e maculado!
O som do ouvido
Procura meu mar
Mergulha no certo
E busca o errado:
O teto desaba em luzes coloridas!
Noturno
As asas estão abertas:
A noite convida a voar...
Tudo é tão massificante
Tão alienante
Tão ser sem ser!
As asas estão abertas:
A noite é virgem...
Tudo é tão amargo
Tão morte
Tão dolorido!
As asas estão abertas:
A noite é sonho...
Tudo é tão desumano
Tão fumaça
Tão sufocante!
As asas estão abertas:
Quem vai voar?
Amor
O amor eleva-se no ar
Flutua em profundo olhar...
Beija perdidamente o espaço da tua boca,
Perde-se em teus cabelos,
Desliza em teu pescoço...
Descobre teu coração!
Eleva nosso momento
Desnuda-se o céu
Brilha em nosso olhar!
Acompanha as suaves formas de nossos corpos tão próximos
Trêmulos e felizes...
Amor solto na noite
No amanhecer, na aurora
Do nosso despertar!
Amor,
Perdido de amor
Por nós...
Poeta
Poeta desencontrado
Palavras soltas ao vento
Recolhidas e soltas em ouvidos surdos!
Poeta esquartejado
Sonhos desfeitos na madrugada
Feitos e refeitos em uma musa!
Poeta suave
Dormido de nuvens, brisas e luares
Amado pela sua própria essência!
Poeta sofrido
Assim como tu, amigo
Abandonado, mal-amado, porém saudado
Numa réstia de sol!
Poeta amigo
De sua poesia, sua loucura
Espalhada nas ruas, nos risos
De mãos estendidas!
Poeta, poeta...
Por que não seres comum?
Por que poeta?
Para poetares simplesmente?!
Poeta...
Manifesto
E enquanto vamos tapando nossas bocas
Com feijão e arroz,
Vão subindo o pão e o leite.
E enquanto vamos tomando suor com cansaço,
Vão sucumbindo todas as éticas, as profissionais,
principalmente.
E enquanto vamos subindo as escadas,
Vão descendo nossas carcaças altivas.
E enquanto os relógios esmagam nossas cabeças vazias,
Vão calando as canções sem o ranger de idéias.
E enquanto comemos o pó das filas cotidianas,
Vão apodrecendo bilhões de neurônios.
E enquanto lutamos nas camas amores verticais,
Vão acabando nossos sonhos marginais.
E enquanto escrevemos na noite como se fôramos
Vermes costurando na cova fresca,
Vão calando nossas vozes que gritam no silêncio de nossos olhos
televisores.
Viva o pileque que tomamos nesse botequim de palavras!
- A seguir: um enforcamento em praça reservvada.