QUARTO DE
CRIANÇA
TODOS OS PARTOS DA VIDA
Maria
Rita Lemos
Faltam poucos dias para que
aconteça a partida. Dessa vez, nãoserá para voltar aos finais de semana...
ele vai para bem longe, coisa de
1000 km
. Vai para outro estado, distante, em busca de um sonho antigo, que ele
finalmente vai poder realizar.
Meu filho vai embora, estudar
em Ouro Preto
, numa UniversidadeFederal, exatamente como queria. Ele conseguiu, e estou
orgulhosa por isso. Sei que deveria estar feliz, e estou. Mas aí entra o
problema dos partos, de todos os partos que uma mãe tem que fazer durante a
vida, e sei que este está sendo um dos mais doloridos.
São muitos partos, a cada
despedida, a cada mudança de vida, há um corte, e haja coração para tantos.
Lembro-me de que, no último
final de semana, fui ao casamento deum jovem e querido afilhado de batismo. Foi
muito linda a cerimônia, a recepção aos convidados estava impecável. Tudo
muito bonito, todos muito emocionados e felizes.
Na hora em que eu cumprimentava
a mãe do noivo, minha comadre, eu disse a ela que o filho que hoje partia, para
a lua de mel e depois para morar em seu próprio canto com a sua mulher, jamais
seria o mesmo, quando viesse, aos domingos, almoçar com a mamãe. Ela se
espantou, ficou até um pouco triste, mas eu completei e expliquei que,
por mais
que desejemos, realmente o filho que parte, seja para uma Faculdade ou para
formar sua própria família, como é o caso de meu afilhado, pode até voltar
sempre para a casa dos pais, mas já não é sua casa.
É a casa de seus pais, e assim é que tem que ser, esse é o
caminho
natural.
Essa é a prova de que estamos cumprindo nossos
papéis de mãe
ou de pai, que estamos fazendo nossa parte na rutura do cordão umbelical. E
esse processo sempre dói, muito mais até que o primeiro corte.
Na primeira vez
em que o cordão que unia nossos filhos a nós, mães, foi cortado, estávamos
provavelmente anestesiadas, e havia gente ajudando... não doeu quase nada, até
porque ver aquela coisinha suja e enrugada sobre nós, o filho ou filha
que
tanto desejamos, é maravilhoso, não nos damos conta da dor. Os outros partos começam
quando deixamos esse filho ou filha na porta da escola, pela primeira, vez,
muitas vezes aos berros, e sabemos que temos que deixar. Depois, mais para a
frente, são as formaturas, a apresentação da primeira namorada ou namorado, a
saída para o cursinho, a escolha da profissão... finalmente, a saída
definitiva da casa materna, para a
Universidade ou para a pessoa com quem escolheram passar o resto da vida. Ou
ambos. E não precisa ser longe: tenho uma amiga que, a cada domingo à tarde,
quando a filha volta para Campinas, onde estuda, passa por um processo parecido,de parto, mesmo. Sabe que a casa dela não é mais aqui, é lá, com os
amigos e
amigos, com a vida nova de universitária. Os finais de semana são só um oásis
nesse caminho que ela escolheu.
Enfim, estou aqui, neste
domingo de sol, bordando em ponto de cruz uma letra G, bem grande, nas toalhas
que meu filho levará para seu novo lar. Aliás, contra sua vontade, que achou
besteira isso, pensa que na república para onde vai tudo deve ser
em comum. No
entanto, ponderei, ele tem que ter seus pertences pessoais... e racionalizei
tanta coisa inútil, porque no fundo eu sei que o bordado é para que ele
se
lembre desta mulher chorona que está aqui, desdobrando fibra por fibra, diante
de uma toalha de banho.
A hora da partida se aproxima,
e meu filho tem me evitado, como eu a ele. Nada de muito ostensivo, apenas
defesa mútua.
Espero que eu possa largar sua mão sem
tentar retê-la, e conformar-me com mensagens ocasionais na net e telefonemas
mais ocasionais ainda. Mas o melhor é que espero que ele se lembre do que
aprendeu, durante os dezenove anos que passamos juntos, dos
valores que sei que
acumulou, do homem íntegro que deixarei partir, sem olhar para trás. O mundo,
agora, é dele. O parto, agora, é meu problema,
ficou por minha conta.
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