Odisséia Home Page
Manuel Antônio de Almeida

Principal.....Downloads.....Links.....Tutoriais.....Games.....Grêmio.....Vestibular

Um romance carioca

 

Falar de Manuel Antônio de Almeida, infelizmente, é referir-se apenas ao criador do inesquecível Leonardo Pataca, o herói torto de Memórias de um Sargento de Milícias. Tivesse vivido mais tempo, o médico e escritor poderia ter nos legado uma obra original, e talvez até antecipado tendências de estilo que só se consolidariam ao final do século. Mas faleceu aos trinta anos de idade e só nos deixou esse divertido romance, escrito na juventude.

Nasceu na cidade do Rio em 1831, mesmo ano em que vinha ao mundo Álvares de Azevedo. Filho de portugueses humildes, estudou desenho na Academia de Belas Artes, e logo em seguida foi cursar a Faculdade de Medicina. Foi diretor da Imperial Academia de Música e Ópera Nacional por três anos, até sua extinção em 1860. Em 1858 tornou-se administrador da Tipografia Nacional, onde conheceu o jovem Machado de Assis, seu funcionário. Mas foi durante os estudos, antes de iniciar sua carreira como administrador público, que publicou seu romance.


Macedo versus Alencar


A década de 1850 foi o auge da literatura ultra-romântica no Brasil. Entre os livros de sucesso do período estão a Lira dos vinte anos de Álvares de Azevedo (1852), Inspirações do claustro de Junqueira Freire (1855) e Primaveras de Casimiro de Abreu (1859). Entre os romancistas, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar dominavam a cena. Talvez este breve panorama do gosto literário de então explique a pouca atenção dada às Memórias de um sargento de milícias, publicado em folhetins no jornal A pacotilha entre 1852-53, assinada por "Um Brasileiro". O pseudônimo, para alguns biógrafos, denota o pouco interesse pela carreira literária, já que a própria publicação em livro, um ano depois, não trouxe a assinatura do autor. Mas também pode ser um indício de como Manuel Antônio via a literatura de então.

Comparando seu romance aos de Macedo e Alencar, muito se aventuraram a colocá-lo como um predecessor do realismo. Outros ainda classificaram-no como o primeiro romance picaresco brasileiro. O certo é que o cenário e os personagens diferem em muito daqueles dos principais escritores românticos. Não há maneirismos ou véus que disfarcem as pessoas e as paisagens do Rio. Manuel Antônio descreve profissões populares, festas da cidade que reúnem tipos populares, as modinhas e os fados da época retratada, o início do século ("Era no tempo do rei", assim se inicia a narrativa). Leonardo Pataca está longe dos cavalheiros de Macedo ou dos heróis de Alencar, parecendo muito mais mortal e falível, tornando-se assim semelhante e íntimo dos leitores. O estilo é jornalístico e direto, e o autor recusa qualquer manifestação sentimentalista, adotando uma ironia e um cinismo que lembram mais o futuro Machado do que os escritores do momento.

Porém, afirmar que Memórias não pertence ao Romantismo é um exagero. O universo de Leonardo é o mesmo de Martins Pena, dramaturgo de maior sucesso da época, e o estilo coloquial também se aproxima das comédias do período. A grande diferença desse romance para os seus contemporâneos é que o autor se aproveitou da linguagem e do cotidiano populares para compor sua trama, abandonando os temas mais caros à elite da Capital. Mesmo a afirmação que Leonardo Pataca é um pícaro não é exata. O pícaro, embora cheio de graça, está sempre errado moralmente. Leonardo não é bom nem mau, como todos os personagens do livro. Mais profundo que um pícaro, suas ações são precedidas de hesitação e não seguem qualquer modelo de conduta, afastando-se do tipo tradicional castelhano. Como lembra Antonio Candido, ele é "o primeiro grande malandro que entra na novelística brasileira, vindo de uma tradição folclórica e correspondendo, mais do que se costuma dizer, a certa atmosfera cômica e popularesca de seu tempo no Brasil". Parece que Manuel Antonio nos diz: veja, os homens não são como descritos nos romances que vocês estão lendo, são mais complexos, e a própria complexidade da vida é que lhes dá graça e sabor.

Assim, Manuel Antonio de Almeida escreveu aquele que pode ser considerado o primeiro "romance carioca", no sentido que este último termo acabou assumindo no imaginário cultural brasileiro. Mas foi seu único romance. Faleceu em naufrágio no canal de Macaé, no ano de 1861, na costa da Província do Rio de Janeiro.


Sobre o autor de Memórias...


"Admirável contador de histórias, com uma prosa direta e simples, nua como a visão desencantada e imparcial que tinha da vida. Por isso mesmo, interessava-se pelo geral, comum a um grupo. Os homens são todos mais ou menos os mesmos; logo, os seus costumes exprimiriam sem dúvida uma constância maior, seriam menos fugazes que os matizes individuais. Manuel Antônio é, por excelência, em nossa literatura romântica, o romancista de costumes."

(Antonio Candido)

Trechos da obra


Memórias de um sargento de milícias, capítulo 14


"O mestre-de-cerimônias era um padre de meia-idade, de figura menos má, filho da Ilha Terceira, porém que se dava por puro alfacinha: tinha-se formado em Coimbra; por fora era um completo São Francisco de austeridade católica, por dentro refinado Sardanapalo que podia por si só oferecer a Bocage assunto para um poema inteiro; era pregador que buscava sempre por assunto a honestidade e a pureza corporal em todo sentido; porém interiormente era sensual como um sectário de Mafoma."


Memórias de um sargento de milícias, capítulo 15



Ser valentão foi em algum tempo ofício no Rio de Janeiro; haviam homens que viviam disso: davam pancada por dinheiro, e iam a qualquer parte armar de propósito uma desordem, contanto que se lhes pagasse, fosse qual fosse o resultado.
Entre os honestos cidadãos que nisto se ocupavam, havia, na época desta história, um certo Chico-Juca, afamadíssimo e temível. Seu verdadeiro nome era Francisco, e por isso chamaram-no a princípio - Chico -; porém tendo acontecido que conseguisse ele pelo seu braço lançar por terra do trono da valentia a um companheiro que era no seu gênero a maior reputação no tempo, e a quem chamavam - Juca - juntaram este apelido ao seu, como honra pela vitória, e chamaram-no daí em diante - Chico-Juca."

Hosted by www.Geocities.ws

1