Odisséia Home Page
Machado de Assis

Principal.....Downloads.....Links.....Tutoriais.....Games.....Grêmio.....Vestibular

Um sobrevivente


Do lado materno, descendente de açorianos. Do paterno, bisneto de escravos. Suas origens e o preconceito social certamente o tornaram arredio e tímido. Esse tom reservado, manteve-o durante toda a vida. Daí o sem número de vidas que lhe imaginaram os admiradores e adversários, em vida e postumamente, biografas invariavelmente atreladas a interpretações políticas de sua obra.
A primeira lenda reza que sua mãe era lavadeira - não era. Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, numa família de agregados. O pai, pintor decorador, e a mãe, que fazia alguns trabalhos de agulha para fora, viviam humildemente, sem dificuldades gigantescas (e sem mínimas perspectivas de ascensão). Machado não freqüentou cursos regulares, e sua cultura livresca gerou novos mitos. A mãe teria lhe ensinado as primeiras letras - o que é plausível, embora seu pai, assinante do célebre Almanaque Laemmert, poderia ter feito o mesmo. Teria caído nas graças da madrinha, a proprietária das terras em que nasceu: ela teria resgatado das ruas o jovem epilético e vagabundo, e lhe fornecido educação e amparo. Pouco provável, já que ainda adolescente o garoto saiu dos arrabaldes para a cidade, indo morar com o pai em São Cristóvão. Outra história corrente: Machado aprendeu o francês com o forneiro da padaria Gallot - que não foi fundada antes do autor traduzir Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo. Sua esposa, Carolina, teria lhe apresentado os escritores ingleses - mesmo tendo surgido na vida de Machado após a publicação de artigos sobre Dickens e de Iaiá Garcia, umapersonagem sempre cercada de livros ingleses.
São histórias que, laudatórias ou detratoras, parecem guardar no fundo um certo ranço elitista: como aquele rapaz humilde, pobre e mulato, sem berço ou educação formal, conseguira adquirir tanto conhecimento e um lugar de destaque num espaço conservador, reservado a gente de bem? Empurrões condescendentes devem tê-lo alçado até ali, imaginava-se.
Mas Machado sobreviveu à desconfiança, ao preconceito e aos seus mitos. Era um sobrevivente desde a infância: venceu a epidemia de sarampo que matou a irmã caçula, a tuberculose que matou a mãe, e as epidemias de febre amarela e cólera que assolaram o Rio de Janeiro em sua infância. Tipógrafo, repórter, articulista e funcionário público modesto, viveu com recursos modestos até meados da década de 1870. Autodidata, admirador de José de Alencar, Gonçalves Dias, Victor Hugo e Byron, não foi também o alienado "barnabé" que procurava apenas viver confortavelmente, como lhe pintaram engajadas gerações posteriores que, tendo em mente o exemplo de Lima Barreto, quiseram cobrar de Machado o mesmo radicalismo. Militou entre os liberais, foi candidato a deputado, desferiu críticas ferozes contra parlamentares e chegou a atacar duramente o ministério de Caxias em seus artigos jornalísticos.


O escritor


As primeiras preferências literárias marcaram aquela que foi considerada sua "fase romântica". Ela inclui suas poesias (Crisálidas, de 1864 e Falenas, de 1870), suas peças teatrais e seus primeiros romances: Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Mas ao compararmos estas obras às de Alencar, seu ídolo da juventude e expoente máximo da literatura brasileira de então, as diferenças já anunciam um novo romance. Embora este primeiro Machado ainda se preocupe mais com a trama romanesca do que com o aprofundamento psicológico de seus personagens, estes são mais importantes que o cenário dos livros, e mais: já vivem intensamente seu tempo e as contradições da sociedade carioca.

É na década de 1880 que Machado consolida seu estilo, com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), data em geral apresentada como o início do Realismo psicológico no Brasil. Aqui o senso de observação do autor realiza-se plenamente na profundidade psicológica dos personagens. Tomam forma as principais características de seus texto: a ironia e o humor começam a substituir o antigo tom de denúncia, como já havia acontecendo em seus artigos jornalísticos. A originalidade de um narrador que começa a contar a história de sua vida no caixão, recém-falecido, é uma ousadia para a época. As metáforas sociais, já presentes em suas narrativas curtas (Contos fluminenses, 1870), chegam enfim ao romance. E surgem também os diálogos diretos com o leitor, que iriam marcar sua obra dali em diante. Virgília, a principal personagem feminina, também antecipa a "mulher de Machado", misteriosa e inalcançável em seus atos, sedutora e incompreensível.
A partir de então, cargos e lauréis públicos não lhe faltaram. Sua ironia e seu ceticismo tornavam suas críticas aceitáveis para uma elite que aprendeu a rir de si mesma, e a se olhar com certo desencanto. Aos poucos, mas firmemente, Machado garantiu fontes de renda que permitiram sua carreira plácida de escritor. Duas outras obras da maturidade formariam uma trilogia com Brás Cubas e entrariam na lista dos maiores romances de nossa literatura. Quincas Borba (1891) narra a ascensão social e a loucura de Rubião, apressada pela astuta Sofia, conhecedora das regras do novo mundo em que Rubião ingressara e uma sedutora metáfora da rapina e da ambição. Dom Casmurro, em 1899, é o episódio de adultério mais investigado da literatura brasileira, com o narrador Bentinho orientando os leitores a desconfiarem de sua esposa Capitu, a "de olhos oblíquos e dissimulados". Com seus contos e romances, Machado fundou a ficção brasileira contemporânea, e deu a ele um estatuto de universalidade que não havia sido alcançado durante o Romantismo.

 

Trecho das obras


Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo IX


"Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e, com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que o menino era o pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de 'o menino-diabo'; e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher do doce de coco que estava fazendo, e, não contentecom o malefício, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer à minha mãe que a escrava é que estragara o doce 'por pirraça'; e eu tinha apenas seis anos.(...)"


Dom Casmurro, capítulo XXXII


"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e o que me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá a idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve."

Hosted by www.Geocities.ws

1