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José de Alencar

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Os vários "Alencares"

 

Heróis destemidos e seus atos inverossímeis, donzelas orgulhosas de seus recatos seduzindo moços decentes durante o baile, bravos indígenas comportando-se como cavaleiros medievais... Lutas ardentes entre o Bem e o Mal, crápulas que se convertem à honradez e à bondade, desenlaces invariavelmente felizes... De fato, as tramas de Alencar causam no leitor moderno uma sensação de artificialismo e anacronismo, e os méritos do primeiro escritor brasileiro de sucesso podem passar desapercebidos. Especialmente quando Alencar se torna o martírio de estudantes de primeiro e segundo graus, impacientes com o excesso de descrições e de adjetivos, próprio do estilo romântico, ou com o elogio de virtudes que se tornaram antiquadas. Mas, na verdade, como defende Antônio Candido, há vários "Alencares". Conhecendo-os melhor, há muito a ser resgatado.


O começo


José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana, cidade cearense próxima à Fortaleza. A vida de seu pai daria um bom romance para a época: primeiro foi padre, em seguida largou a batina e se tornou revolucionário. Quando nasceu seu filho José de Alencar, no dia primeiro de maio de 1829, ele já era um político influente no Ceará. Transferiu-se com a família para o Rio em 1838, onde o filho Alencar faria os primeiros estudos e descobriria os escritores franceses Chateaubriand, Dumas, Vigny, Victor Hugo e Honoré de Balzac. Iria descobrir também sir Walter Scott, que lhe despertou o desejo de cantar a terra natal através de um herói genuinamente brasileiro. Formou-se em Direito em São Paulo, na Faculdade do Largo São Francisco. Em 1854, recém-formado, começa a carreira de jornalista no Correio Mercantil e prepara, ao mesmo tempo, sua carreira literária e seu ingresso na vida pública. Dois anos depois, já como redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro, envolve-se numa polêmica com o "poeta oficial" do Império, Gonçalves de Magalhães, a respeito da obra deste, longo (e fraco) poema épico indianista intitulado Confederação dos tamoios. Ainda em 1856 escreve seu primeiro romance, Cinco minutos, publicado em folhetim. Em sua luta pela consolidação de uma literatura genuína, nacional, Alencar começa a percorrer os dois principais caminhos que o levarão ao seu objetivo: o indianismo e os temas urbanos.


Sucesso de público



Gonçalves Dias já havia aproveitado os temas indígenas em sua poesia. Em prosa, até meados do século XIX, o índio surgia apenas nas crônicas dos viajantes, sempre retratado como o fruto de uma civilização atrasada e bárbara. Na Europa, o movimento romântico resgatou, em cada país, a cultura dos seus primeiros habitantes. Se os celtas e os godos eram lá exaltados, aqui os indígenas seriam eleitos os depositários de nosso espírito nativista. É dentro desse espírito que em 1857 Alencar publica, com enorme sucesso, O guarani, e se torna assim "o único escritor de nossa língua a criar um mito heróico, o de Peri", como afirmou Antonio Candido. Peri é o grande herói idealizado: um "rei das florestas", autor de façanhas memoráveis como a de subjugar onças enormes com a força de seu braço, capaz de gestos cavalheirescos como o de descer um precipício para recuperar o porta-jóias de sua amada, Ceci. A realidade não é fonte de obstáculos para o herói: ela se molda à sua personalidade. O herói não deixa que o tempo e os fatos conduzam seu destino: ele dobra o tempo e as dificuldades com sua vontade. Alencar pinta a natureza brasileira com cores exuberantes, insere palavras tupis em sua narrativa e canta a formação do povo brasileiro através da miscigenação de duas raças (o africano é excluído desse processo pelo escritor).


Indianismo


O sucesso dos romances indianistas de Alencar não se limitaram à sua época: basta lembrar nossa ópera mais famosa, de Carlos Gomes, ou os cartórios espalhados por todo o Brasil, que anualmente registram um sem número de Iracemas, Peris, Jacis e Ubirajaras. O idealismo desses personagens, criticado por gerações posteriores, que taxaram Alencar como um "escritor de gabinete", desconhecedor da realidade que descrevia, era conscientemente forjado pelo autor: "N'O guarani, o selvagem é um ideal, que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira que o envolveram os cronistas, arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça", confessou o escritor em seu livro Como e por que sou romancista. A construção de um passado orgulhoso era um anseio tão forte do autor que, como ressaltou Silviano Santiago, Alencar recua no tempo a cada romance: enquanto O guarani se localiza no Brasil dos grandes proprietários de terra, Iracema (1865) fala em termos poéticos das origens do Brasil e Ubirajara (1874) chega aos tempos pré-cabralinos.


Alencar para moças


Entre 1857 e 1862, Alencar dedicou-se principalmente ao teatro e à carreira política. Esta seria vertiginosa e brilhante: em 1861 elegeu-se deputado, as reeleições se sucederam até 1868, quando foi nomeado ministro da Justiça do Gabinete Conservador. O seu sonho de chegar ao Senado, no entanto, foi interrompido em 1870, após violenta rusga com D. Pedro II. A desilusão com a política fê-lo voltar-se ainda mais para a literatura, que na verdade nunca abandonou: o sucesso de seus folhetins para senhoritas, senhorinhas e jovens românticos era avassalador. Nessa linha, além de Cinco minutos e A viuvinha, Alencar escreveu Lucíola (1862), Diva (1864), A pata da gazela e Sonhos d'ouro (1870), Senhora (1875) e Encarnação, publicado postumamente. São enredos em que o autor explora todas as facetas do amor romântico e, embora a maior parte deles exiba "ideais acabados de felicidade e perfeição", baseados no "lado luminoso da vida burguesa" da época, como frisa Marisa Lajolo, é neles que se pode fruir do melhor Alencar, detectado por Antonio Candido: o escritor que explora lados obscuros da alma feminina, especialmente em Lucíola e Senhora. Nesses dois romances nos deparamos com um Alencar ousado para os costumes da época: no primeiro, faz o elogio apaixonado da prostituta Lúcia, que preserva a virtude em meio à depravação. No segundo, apresenta Aurélia, uma mulher dominadora que arquiteta a compra de um noivo. Temas provocativos, perfis femininos polêmicos para o seu público.


Virgindade e simplicidade


Mas alguns parâmetros permanecem: a virgindade é tomada como um talismã, e a mulher sempre caminha, ao longo do enredo, para um ideal de decência e virtude. E vale a pena notar que nesses romances urbanos, assim como nos enredos históricos ou indianistas, prevalece a marca fundamental da obra de Alencar: os personagens que representam a bondade e a virtude estão mais distantes da cultura e da erudição, ao contrário de seus inimigos. A sociedade e a civilização são perversas, e a pureza d'alma só pode ser encontrada, para o escritor, nas figuras mais brutas, menos moldadas pelo conhecimento. Daí sua predileção, nos romances urbanos, por heroínas, menos dedicadas às letras e menos ativas social e politicamente. A ignorância, portanto, equivale à virgindade - um caminho para a salvação.


Outras obras


O desejo de uma literatura reconhecidamente nacional levou José de Alencar a obras de cunho regionalista ou histórico. No primeiro caso encontram-se O gaúcho (1870), O tronco do ipê (1871-73), Til (1872) e O sertanejo (1875); entre as visitas que Alencar fez à história pátria estão As minas da prata (1862-66), A guerra dos mascates (1871) e Alfarrábios (1873). Todos lhe granjearam respeito em vida e críticas póstumas, que podem ser resumidas pelo seu tipo de pesquisa: Alencar não conhecia diretamente os ambientes e tipos descritos, era um pesquisador de gabinete. No entanto, seu esforço sem dúvida abriu várias trilhas a serem percorridas pelas gerações seguintes: o Brasil já possuía um público leitor e, mais que isso, esse público já tinha a sua lista de heróis literários inesquecíveis, todos eles criados por um cidadão cearense, obstinado e cortês. José Martiniano de Alencar faleceu em 1877 no Rio de Janeiro, vítima da tuberculose.


Sobre José de Alencar


"Desses vinte e um romances, nenhum é péssimo, todos merecem leitura e, na maioria, permanecem vivos, apesar da mudança dos padrões de gosto a partir do Naturalismo. (...) Basta com efeito atentar para a sua glória junto aos leitores - certamente a mais sólida de nossa literatura - para nos certificarmos de que há, pelo menos, dois Alencares em que se desdobrou nesses noventa anos de admiração: o Alencar dos rapazes, heróico, altissonante; o Alencar das mocinhas, gracioso, às vezes pelintra, outras, quase trágico."
(Antonio Candido)

 

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