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Álvares de Azevedo

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Vita Brevis

Ele escreveu mais do que viveu. Considerando sua vida breve, vinte anos limitados pela doença, temos a impressão de que a passou lendo e escrevendo. Ao lê-lo pela primeira vez, a impressão altera-se radicalmente: o jovem certamente gastou-se na devassidão, entre mulheres pálidas, punhais sangrentos e bebidas inebriantes, saindo de casa apenas à noite para aventurar-se entre o bordel e o cemitério.

Seus contemporâneos também pareciam confundir-se em meio à vida e aos delírios do poeta. Cercaram-no de mitos, alguns criados em vida e outros póstumos: por exemplo, teria vindo ao mundo sobre uma mesa da Faculdade de Direito, em São Paulo. Passava as noites alcoolizado, desfrutando de orgias satânicas com seus colegas do grêmio estudantil. Ou, ao contrário, a completa falta de virilidade é que o fazia gozar em versos daquilo que não podia desfrutar.


A vida


Vamos aos fatos, ao que sobrou para a sala de aula. Ao contrário de outros românticos, nasceu em berço importante e foi cercado de carinho e de todas as garantias para levar uma vida feliz. Não sofreu qualquer perda significativa. Aluno promissor, ingressou aos 17 anos na Faculdade de Direito e demonstrava uma curiosidade intelectual incomum. Ativo, fundou a revista "Ensaio filosófico", pregando o nativismo e o nacionalismo românticos. Leu com avidez Byron, Musset e Goethe (principalmente Werther, o herói suicida). Escrevia tanto quanto lia, daí a irregularidade de sua obra, marcada pelas obsessões de seus autores preferidos: a angústia (o spleen byroniano), o macabro e o fantástico, o amor platônico, a virgindade e a morte.

Viveu uma época literária em que o Romantismo já se consolidara no Brasil, ao menos em versos: escritores como Gonçalves de Magalhães, Tôrres - Homem e, principalmente, Gonçalves Dias, estabeleceram a poesia como uma forma de expressão individual, mais livre e menos sujeita às regras clássicas da composição. Por isso diz-se que Álvares viveu a chamada "segunda geração" romântica, a que levou a cabo o individualismo anunciado naqueles primeiros poetas. Juntamente com Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, ele levou o subjetivismo ao seu limite ultra-romântico, expressando uma alma atormentada em todas as suas contradições.

Alguns de seus dilemas hoje nos são visíveis: a mãe virtuosa e a jovem irmã foram as duas mulheres que serviram como contraponto idealizado de honra e virgindade às suas damas poéticas, imaginadas a partir daquelas celebradas nas tascas, mais carnais e mundanas que seus exemplos familiares de virtude. Sua experiência intelectual como estudante de Direito certamente entrou em choque com o universo de suas preferências literárias. E todas as possibilidades de um futuro brilhante foram sufocadas pela tuberculose, o mal-du-siècle que, minando seu corpo, o fez conviver constantemente com a sombra da morte.


A obra


Como afirmou Antonio Candido, "se o Romantismo, como disse alguém, foi um movimento de adolescência, ninguém o representou melhor no Brasil do que Álvares de Azevedo". Porém, o "mais adolescente" dos poetas brasileiros parece enfrentar preconceitos - quase nunca é recomendado aos adolescentes como leitura escolar obrigatória. Versos esparsos surgem em livros de segundo grau, os vestibulares requisitam-no de surpresa. A Lira dos vinte anos foi a única obra que deixou preparada para a publicação, e é onde se encontram seus poemas de maior valor literário. Mas outras obras ajudam a marcar o perfil do poeta. Em O conde Lopo, poema longo narrado em versos livres, o personagem central é atormentado pela culpa: assassinou sua esposa impulsivamente, motivado pelo ciúme. Macário é uma peça teatral completamente diferente de tudo que havia na época: desprezando as unidades de tempo e espaço, o escritor cria um clima fantástico para narrar o encontro de seu alterego com Satanás. E, finalmente, Noite na taverna: uma coletânea de contos góticos e noturnos, em que os temas macabros se sucedem: necrofilia, incesto, assassinatos e vinganças terríveis são narradas por um grupo de amigos, que se esmeram em aterrorizar o leitor. Enfim, voltando a Antonio Candido, "pode-se gostar de Gonçalves Dias ou Castro Alves, mas a ele (Álvares de Azevedo) só nos é dado amar ou repelir".

 

Trechos da obra


Meu sonho


Eu
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através...
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?...
Tu escutas... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O fantasma
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!...

Se eu morresse amanhã!

Ser eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro,
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louça!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor de vida que devora
A ânsia da glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

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