O Caminho do Bardo II
Finalizado em 22 de Abril de 2003 e.v.
 
 
 
 Visão de Thule
 
 
 



 
 
Resistência da Tradição:
Continuação de Na Taverna,
publicado em O Caminho do Bardo # 01.
 

                        A Decadência era evidente: a sujeira e a devassidão invadiram a região de Salmac, Seu lar. Os mortos, vindos do Nordeste, haviam multiplicado-se como ratos!!! Lembrava-Se da última imagem dos Seus filhos e esposa. O ódio sobe-Lhe à mente quando recorda Sua impotência naquele triste momento: o ódio contra a raça dos devoradores de almas...
                        Estavam alguns dos mortos em volta de Si e de outros camaradas Seus. Insano, o olhar dos mortos deixava bem claro que os mesmos estavam famintos por novas Almas. E esta era uma constante para eles, ou findariam sua própria existência. Havia uma clara divisão: sabiam quais eram os inimigos a derrotar e a afronta urgia a legítima defesa dos cidadãos da região da Grande Floresta. O primeiro intuito dos homens fora o de organizarem um círculo, com espadas, facas, machados e lanças em punho, colocando no seu interior as mulheres e crianças no intuito de defendê-las com suas próprias vidas. Estes que estavam na região central da cidade talvez fossem os últimos mortos ainda existentes na Grande e Vasta Floresta.
                        Os mortos eram em centenas. Entre eles, Salmac reconhecera alguns velhos amigos, vizinhos seus, acompanhados de membros da própria Família por vezes. Ter enterrado Seus entes queridos fora uma ótima solução encontrada, ou Salmac não conseguiria suportar ver a esposa e filhos entre os da corja... A rapidez do ataque dos devoradores de Almas em Sua cidade o deixara transtornado. Eles eram rápidos e silenciosos, agindo na espreita, fazendo uso da escuridão para locomoverem-se.
                        A comunicação era limitada, mas eficiente. Utilizando-se de aves treinadas poder-se-ia facilmente alertar aos cidadãos de qualquer região quanto ao avanço dos mortos. Mas estavam no Inverno... E, nesta época, as aves tendem a migrar dali para as regiões mais quentes, assim como torna praticamente impossível o vôo de quaisquer outras aves previamente treinadas em razão do congelar de suas asas pelo extremo frio que fazia naquela região durante o Inverno. Poderiam ter-se utilizado de mensageiros, e o foram, mas esses provavelmente teriam sido pegos pelos devoradores de almas durante o trajeto.
                        Não havia escapatória. Aquele não era o momento oportuno de  pensar-se nos porquês. Era evidente a necessidade de luta. Eram algumas dezenas de homens de valor contra centenas de mortos cambaleantes. Havia um ponto a favor dos vivos: sua habilidade com as armas. Talvez alguns morressem nessa batalha, mas o feroz contato de suas lâminas com o pescoço dos mortos já seria o suficiente para arrancar-lhes aquilo que não mereciam: a vida eterna.
                        A tática havia sido planejada entre os homens, permaneceriam naquela posição circular procurando avançar até o ponto de não se desfazer a roda de defesa das mulheres e crianças. Qualquer devorador de almas que ousasse avançar para diante do círculo seria alvo de enérgico ataque. Não foram poucos os que ousaram... Aliás: continuavam um tanto estúpidos os mortos... Apesar de em vantagem numérica, não possuíam uma estratégia formalizada para o avançar. Desconcertadamente procuram suas vítimas, facilmente se expondo às laminas dos vigorosos homens da Grande Floresta.  Os mortos estavam a encontrar o Destino ao qual não deveriam ter desvirtuado.
                        Um contágio de fúria havia tomado as afiadas lâminas daqueles bravos homens. Apesar da desagradável cena de violência para as mulheres e crianças, que se encontravam no interior do círculo, sabiam que o
adversário era perigoso para suas vidas ao ponto de não mais os temerem, ocultando seus próprios medos...
                        De repente, um belo e embargado som partiu de dentro do círculo... Era um som agradável, cantado nas rodas de homens para que os fizessem não esquecer das antigas batalhas mesmo em tempos de já centenária paz: era o cântico do Deus da Guerra e da virilidade. Eram as mulheres que traziam em coro a lembrança daquele som, em um misto de embargo na voz (em razão do choro interno) e raiva. As crianças desconheciam a música, pois antes que completassem 14 Invernos não poderiam manejar as armas de guerra (por muitas vezes herdadas de Sua
própria Família). Procuravam-se, assim, preservá-las. O som foi aumentando gradativamente, tocando muitos dos homens ao fundo.
                        Assim o foi, pois o brilho no olhar de cada um deles  intensificava-se cada vez mais que o som da Guerra cruzava seus ouvidos. Seus músculos pareciam enrijecer pela influência da música e pela bela voz das lindas
mulheres, o que aos poucos deu lugar à voz dos homens que, pela facilidade da batalha, cantarolavam enquanto decepavam os poucos mortos que ainda restavam à sua volta.
                        Sim, aquele embate parecia no fim. Nenhuma baixa entre os homens e já centenas dos carniceiros mortos com suas cabeças dispostas ao chão. Era fácil: bastava manterem sempre a estratégia de não mover-se
além do círculo, mantendo-o e aguardando pelo avançar dos débeis canibais de almas...
                        Entre os bravos homens encontrara Salmac valores individuais que, coletivamente, poderiam ser bem aproveitados em uma futura batalha. Tinha em mente libertar as novas gerações dos males provocados por aquele desvirtuo da Natureza, sabendo que a não praticabilidade daquela condição era iminente. A fórmula para a eternização do homem não poderia ser aquela que interfira na Alma do outro por egoísmo próprio pois, assim sendo, estaria a interferir na projeção coletiva da sociedade, que vivia harmonicamente desde o fim da última Guerra.
                        Como dito antes, há séculos estavam os povos da Terra em paz. O último cataclisma, provocado pelo homem (ou pela Natureza, não se sabe ao certo) havia eliminado da memória dos povos o uso das antigas armas de combustão ou pólvora, além de grande parte da tecnologia. Para a defesa pessoal, coletiva ou da propriedade, era usual a utilização de lanças, machados, facas, flechas e espadas. Não se sabe ao certo o porque do abandono das antigas armas... Talvez um grandioso e indevido uso de suas máximas capacidades tenha inserido no inconsciente coletivo das futuras gerações um esquecimento para com a sua existência. Talvez essa mudança tenha sido provocada propositalmente, por uma Força Superior e desconhecida, que os homens aos poucos provavam por meio da Ciência existir, embora sendo - até então- usada de forma materialista, limitada, estupidamente...
 

(continua...)
 



 
Ao Povo da Grande Floresta:
 
 
Ó, Grande Deus da Floresta,
o Corpo e o Solo dos Teus Filhos
sangram a distância que Os afeta.
 
Afastaram-Se do Solo,
trocaram-No pelo litoral,
nesta horrível região em que, por força, Me Isolo.
 
Não gosto do Sol
prefiro, antes de tudo, o belo frio
das Altas Montanhas em seu crisol.
 
Mas, no Grande País das diferenças sociais,
há uma forte ligação de seu povo com o mar,
um fruto da Tradição de muitos dos seus  ancestrais.
 
Enquanto no Interior deste rico país
há um grandioso vazio demográfico,
muitos tolos permanecem nas grandes cidades,
distantes de sua Real e Antiga raiz.
 
O Meu Sonho é o de retornar para as Grandes Montanhas
onde Meu Sangue, Minha Mente e Meu Corpo
se regenerariam, apenas, com a pre-sença de suas manhãs.
 
Amando o Solo em que planto,
também o Sangue de Minha Família
estando a viver, Minha Mente, em um Eterno Canto.
 
Canto ao Grande Deus da Floresta
este Deus que germina o feminino e belo Solo
em um complemento que a Natureza não contesta.
 
Meus queridos filhos melhor seriam criados
afastando-Os desta horrível e degenerada grande cidade
o mais rápido possível, antes que sejam “contaminados.”
 



 
O Conceito de Dualidade:
 
 
Um Deus da Guerra encontra Seu “oposto” na Deusa que ama.
Por que criou-se um Deus do “bem” que a todos engana?
 
Seria a necessidade de manterem-se em silêncio os ignóbeis cordeiros
através da criação do Deus do “mal” e pela imposição dos medos?
O erro apenas está em intervir em uma outra Individualidade,
quando esta não causa mal a Ti ou à toda Sociedade.
 
Mas se Deus é “perfeito” e criou o homem com a possibilidade de errar
por que ao fazê-lo vais a teu “superior espiritual” te lamentar?
 
Se o teu Deus monoteísta é tão perfeito,
por que o homem sempre tende a cair em “erro”?
O erro, para o Bardo, está na intervenção de Sua Individualidade,
pois esta, até então, nunca quisera denegrir outra Vontade.
 
O Bardo, mesmo sendo Individualista,
sabe que tem a proteger Sua Família.
 
O limite de Sua Individualidade
está em não possuir ciúmes do outro.
Características ignóbeis da sociedade,
a quem tem no material o único conforto.
 
O mal estaria em invadir a Propriedade
do homem que se mantêm apenas em Sua Privacidade.
 
Não intervindo no coletivo do outro
quando este, em nenhuma esfera, o aflige,
permanece o Bardo a Caminhar, sem estar afoito,
apenas temendo e “eliminando” quem O atinge.
 



 
O Isolar do Misantropo:
 
Acreditas mesmo em uma divisão entre o bem e o mal?
O que Te motivas a crer nessa habilidosa mentira dual?
 
A imposição da culpa perante o “erro”
não atinge aquele que age em desapego.
O desapego ante as conquistas materiais
não O inflige em culpa ante os mortais.
 
Não havendo para Si maiores interesses que atinjam o homem comum
segue o Bardo em busca de Seu Verdadeiro e Interno Equilibrium.
 
Sendo conveniente para Si não atrapalhar a outra Individualidade,
naquilo em que ela não O atinja em sua Honrosa e Interna Verdade,
Seus objetivos, para não interferirem no de outrem,
tendem a ser Espirituais, naquilo que O convêm.
 
Conveniente para o Bardo é Sua Revitalização Espiritual, Interna,
não havendo interesse por qualquer interferência externa.
 
Em sua maioria os homens, deliciando-se junto à lama,
em busca das conquistas materiais, que fazem jus à fama,
tende a isolar-Se o Bardo não-dualista e Misantropo,
pois a humanidade mais Lhe parece um covil de porcos.
 
Desta forma, elimina-se o bem e mal para o Bardo,
não contribuindo para a manutenção do humano fardo.
 
Em Sua Propriedade, junto à Grande e Vasta Floresta,
ao lado de Sua Família, de quem ama, sempre em festa,
o Bardo segue em Seu Caminho Interno e revitalizador
não se impondo às “verdades” que atingem ao homem profanador.
 



 
O Decadente:
aos antigos e esquecidos escritores de Nosso país.
 
 
O Bardo Escriba continua em Sua Saga
do despertar do passado secular perdido
por uma corja usurpadora que engana
e que a Sua Força, e a de muitos outros, tem exaurido.
Classificam-No como um Decadente
pois tem no Símbolo Seu Poder eminente.
O Arquétipo, Sua Força latente,
vê-Se resgatada pelo Bardo presente.
Homens valorosos, limitados pela regionalidade,
tão bela é Vossa História, como também a originalidade.
Críticos do passado, novos burgueses ridículos,
ridícula fora vossa análise, limitada pelo conservadorismo.
Um conservadorismo católico, diga-se de passagem,
essa mesma religiosidade que de seu mórbido passado não tem coragem.
Coragem para relembrar o quanto fora assassina,
de quanto matara em nome de uma “verdade” que ao tolo fascina.
 
Somente aos tolos e ignorantes vós enganas,
não ao Bardo que preserva o Tradicionalismo pagão
que corre em Seu Sangue desde distante geração.
O Bardo que não é ludibriado por vossa “ética” que derrama,
põe-Se em defesa do Solo e do Sangue que vossa “verdade” profana.
Quem são vossos santos, que a mim não atingem,
se não uma necessidade de os Antigos Deuses substituírem???
Oh, heróico povo, do maldito pesadelo acordai,
a farsa orientalista e mestiça, do Vosso Sangue, se delicia e se esvai...
Sangue e Solo desde muito estão ligados,
o judaico-cristianismo apenas absorveu esse original passado.
Essas forças monoteístas que necessitam torná-Lo limitado
não são fortes o suficiente para manter os antigos Deuses calados.
Vossa História não está perdida, autores de Nosso recente passado,
o Decadente e Bardo continua a lutar, mesmo que solitário,
para que o Vosso Simbólico trabalho de regeneração não se veja calado.
 



 
Numa Sombria Noite:
 
 
Caminhando por entre ruas escuras e desertas
nota o Bardo o quanto não está Só naquele lugar.
Seres e sons dos mais perversos aparentam estar na espreita
aguardando uma Solitária Alma a quem hostilizar.
 
Não podia manter-Se calmo o Bardo,
pois os movimentos nas sombras eram evidentes.
Também os ruídos O deixavam angustiado,
manteve-Se em alerta o Bardo previdente.
 
Olhando para o alto, para o céu,
notou que uma Estrela (?) ao Norte o brilho evidenciava.
Não havendo nenhuma nuvem como véu,
estando Ela na direção a qual Ele se destinava.
 
Sentindo-Se banhado por Sua Beleza,
desconhecia, até então, Sua existência.
Aparentando, para Si, exaurir uma Espiritual Defesa
o Bardo sente-Se, assim, reconfortado por Sua Onipotência.
 
Permanecendo em Equilíbrio,
desaparecem todos os terríveis movimentos e ruídos.
O Estranho poder pelo Planeta (?) avistado, exaurido,
torna aquele triste Bardo afastado do perigo.
 
As forças das sombras parecem querer resistir
quando a desatenção atinge o Bardo só.
A desatenção no caminhar pelas sujas ruas a intervir,
tendo Sua Força Espiritual como único e satisfatório bem maior.
 
 
 
 



 
Equilibrium:
ao som do EMPEROR...
 
 
O Deus:

                        “Não havendo diferença entre a Luz e a Sombra, o que temes, Minha Nobre Criança?”

 
O Imortal:

                        “Temo pela sorte de minha Família, não querendo expô-La, temo que possam atingi-La.
                        “Por mais que não haja dualidade o homem deixa-se, por vezes, levar-se por uma interior ‘maldade.’”

 
O Deus:

                        “E quando esse mal não é a bondade? Tu não rires de a quanto pôde chegar Tua ingenuidade? A ‘bondade,’ sendo um fruto dos justos, não é de qualquer pessoa que podes esperar este produto.
                        “Lembra-Te: o ingênuo quando não aprende, durante a Batalha dessa virtude se arrepende. Em razão destes e outros  fatores, não há diferença entre o bem e o mal. Suas Forças, em Equilibrium, devem ser usadas por Ti de forma não desigual.

 
O Imortal:

                        “Mas e o homem que é ‘mal’ só pelo fato de o ser? Este não quer a tudo, e a todos, destruir ou corromper?
                        “Sua Vontade Seria digna de ser livre como a Minha? Diga-Me, pois creio que nesse ‘erro’ a Alma de muitos Caminha...
 

O Deus:

                        “Este é um desvirtuado da natureza original, dessa forma sua órbita não nos seria mais funcional.
                        “Ou modificaria-se o seu interno desequilibrium, ou permaneceria com a humanidade em um eterno atrito.”

 
O Imortal:

                        “Mas e se este homem age conscientemente?  O que poderia-se fazer para não mais tornar seu ‘mal,’ ao homem, latente?”

 
O Deus:

                        “O que irei Te dizer talvez a Teu Coração não possa agradar, mas seria melhor deixá-lo assim, dessa forma, a tê-lo que modificar.
                        “O interno desequilibrium será silenciado por uma horrível morte, ou apenas pelo encontrar de uma Interior Verdade que o ‘acorde.’
                        “Mantenha-se sempre reto e avante; e não terás o que temer... Mantendo-Se sempre alerta para da afronta poder Se defender.
                        “O ‘pecado’ e seu ‘mal’ apenas existem para ‘regular’ a sociedade e para nós, Deuses, não existe essa forma de dualidade.
                        “Equilibrium de Forças, Equilibrium de Poder. São estas as ‘Verdades’ que deveriam prevalecer.
                        “O homem sempre foi ‘Ético’ para com os seus semelhantes em todas as sociedades, não necessitando de uma força usurpadora que se diga dona desta ou daquela ‘Verdade.’
                        “A Hierarquia também sempre existiu, para entre os homens intitular-Se como ‘respeito.’ Observes, Tu mesmo, como diversas sociedades de animais se organizam e me digas se há - para elas - a necessidade dos nossos conceitos de ‘dualismo’ em devaneio.
                        “Após milênios de domínio do medo, o homem tornou-se um ser estúpido e fraco. Esse medo que hoje ‘mantêm’ a Vossa sociedade, é apenas um fruto do limitador conceito dualista de Zoroastro.”
 



 
 
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