
A Decadência era evidente: a sujeira e a devassidão invadiram
a região de Salmac, Seu lar. Os mortos, vindos do Nordeste, haviam
multiplicado-se como ratos!!! Lembrava-Se da última imagem dos Seus
filhos e esposa. O ódio sobe-Lhe à mente quando recorda Sua
impotência naquele triste momento: o ódio contra a raça
dos devoradores de almas...
Estavam alguns dos mortos em volta de Si e de outros camaradas Seus. Insano,
o olhar dos mortos deixava bem claro que os mesmos estavam famintos por
novas Almas. E esta era uma constante para eles, ou findariam sua própria
existência. Havia uma clara divisão: sabiam quais eram os
inimigos a derrotar e a afronta urgia a legítima defesa dos cidadãos
da região da Grande Floresta. O primeiro intuito dos homens fora
o de organizarem um círculo, com espadas, facas, machados e lanças
em punho, colocando no seu interior as mulheres e crianças no intuito
de defendê-las com suas próprias vidas. Estes que estavam
na região central da cidade talvez fossem os últimos mortos
ainda existentes na Grande e Vasta Floresta.
Os mortos eram em centenas. Entre eles, Salmac reconhecera alguns velhos
amigos, vizinhos seus, acompanhados de membros da própria Família
por vezes. Ter enterrado Seus entes queridos fora uma ótima solução
encontrada, ou Salmac não conseguiria suportar ver a esposa e filhos
entre os da corja... A rapidez do ataque dos devoradores de Almas em Sua
cidade o deixara transtornado. Eles eram rápidos e silenciosos,
agindo na espreita, fazendo uso da escuridão para locomoverem-se.
A comunicação era limitada, mas eficiente. Utilizando-se
de aves treinadas poder-se-ia facilmente alertar aos cidadãos de
qualquer região quanto ao avanço dos mortos. Mas estavam
no Inverno... E, nesta época, as aves tendem a migrar dali para
as regiões mais quentes, assim como torna praticamente impossível
o vôo de quaisquer outras aves previamente treinadas em razão
do congelar de suas asas pelo extremo frio que fazia naquela região
durante o Inverno. Poderiam ter-se utilizado de mensageiros, e o foram,
mas esses provavelmente teriam sido pegos pelos devoradores de almas durante
o trajeto.
Não havia escapatória. Aquele não era o momento oportuno
de pensar-se nos porquês. Era evidente a necessidade de luta.
Eram algumas dezenas de homens de valor contra centenas de mortos cambaleantes.
Havia um ponto a favor dos vivos: sua habilidade com as armas. Talvez alguns
morressem nessa batalha, mas o feroz contato de suas lâminas com
o pescoço dos mortos já seria o suficiente para arrancar-lhes
aquilo que não mereciam: a vida eterna.
A tática havia sido planejada entre os homens, permaneceriam naquela
posição circular procurando avançar até o ponto
de não se desfazer a roda de defesa das mulheres e crianças.
Qualquer devorador de almas que ousasse avançar para diante do círculo
seria alvo de enérgico ataque. Não foram poucos os que ousaram...
Aliás: continuavam um tanto estúpidos os mortos... Apesar
de em vantagem numérica, não possuíam uma estratégia
formalizada para o avançar. Desconcertadamente procuram suas vítimas,
facilmente se expondo às laminas dos vigorosos homens da Grande
Floresta. Os mortos estavam a encontrar o Destino ao qual não
deveriam ter desvirtuado.
Um contágio de fúria havia tomado as afiadas lâminas
daqueles bravos homens. Apesar da desagradável cena de violência
para as mulheres e crianças, que se encontravam no interior do círculo,
sabiam que o
adversário
era perigoso para suas vidas ao ponto de não mais os temerem, ocultando
seus próprios medos...
De repente, um belo e embargado som partiu de dentro do círculo...
Era um som agradável, cantado nas rodas de homens para que os fizessem
não esquecer das antigas batalhas mesmo em tempos de já centenária
paz: era o cântico do Deus da Guerra e da virilidade. Eram as mulheres
que traziam em coro a lembrança daquele som, em um misto de embargo
na voz (em razão do choro interno) e raiva. As crianças desconheciam
a música, pois antes que completassem 14 Invernos não poderiam
manejar as armas de guerra (por muitas vezes herdadas de Sua
própria Família).
Procuravam-se, assim, preservá-las. O som foi aumentando gradativamente,
tocando muitos dos homens ao fundo.
Assim o foi, pois o brilho no olhar de cada um deles intensificava-se
cada vez mais que o som da Guerra cruzava seus ouvidos. Seus músculos
pareciam enrijecer pela influência da música e pela bela voz
das lindas
mulheres, o que
aos poucos deu lugar à voz dos homens que, pela facilidade da batalha,
cantarolavam enquanto decepavam os poucos mortos que ainda restavam à
sua volta.
Sim, aquele embate parecia no fim. Nenhuma baixa entre os homens e já
centenas dos carniceiros mortos com suas cabeças dispostas ao chão.
Era fácil: bastava manterem sempre a estratégia de não
mover-se
além do círculo,
mantendo-o e aguardando pelo avançar dos débeis canibais
de almas...
Entre os bravos homens encontrara Salmac valores individuais que, coletivamente,
poderiam ser bem aproveitados em uma futura batalha. Tinha em mente libertar
as novas gerações dos males provocados por aquele desvirtuo
da Natureza, sabendo que a não praticabilidade daquela condição
era iminente. A fórmula para a eternização do homem
não poderia ser aquela que interfira na Alma do outro por egoísmo
próprio pois, assim sendo, estaria a interferir na projeção
coletiva da sociedade, que vivia harmonicamente desde o fim da última
Guerra.
Como dito antes, há séculos estavam os povos da Terra em
paz. O último cataclisma, provocado pelo homem (ou pela Natureza,
não se sabe ao certo) havia eliminado da memória dos povos
o uso das antigas armas de combustão ou pólvora, além
de grande parte da tecnologia. Para a defesa pessoal, coletiva ou da propriedade,
era usual a utilização de lanças, machados, facas,
flechas e espadas. Não se sabe ao certo o porque do abandono das
antigas armas... Talvez um grandioso e indevido uso de suas máximas
capacidades tenha inserido no inconsciente coletivo das futuras gerações
um esquecimento para com a sua existência. Talvez essa mudança
tenha sido provocada propositalmente, por uma Força Superior e desconhecida,
que os homens aos poucos provavam por meio da Ciência existir, embora
sendo - até então- usada de forma materialista, limitada,
estupidamente...

“Não havendo diferença entre a Luz e a Sombra, o que temes, Minha Nobre Criança?”
“Temo pela sorte de minha Família, não querendo expô-La,
temo que possam atingi-La.
“Por mais que não haja dualidade o homem deixa-se, por vezes, levar-se
por uma interior ‘maldade.’”
“E quando esse mal não é a bondade? Tu não rires de
a quanto pôde chegar Tua ingenuidade? A ‘bondade,’ sendo um fruto
dos justos, não é de qualquer pessoa que podes esperar este
produto.
“Lembra-Te: o ingênuo quando não aprende, durante a Batalha
dessa virtude se arrepende. Em razão destes e outros fatores,
não há diferença entre o bem e o mal. Suas Forças,
em Equilibrium, devem ser usadas por Ti de forma não desigual.
“Mas e o homem que é ‘mal’ só pelo fato de o ser? Este não
quer a tudo, e a todos, destruir ou corromper?
“Sua Vontade Seria digna de ser livre como a Minha? Diga-Me, pois creio
que nesse ‘erro’ a Alma de muitos Caminha...
“Este é um desvirtuado da natureza original, dessa forma sua órbita
não nos seria mais funcional.
“Ou modificaria-se o seu interno desequilibrium, ou permaneceria com a
humanidade em um eterno atrito.”
“Mas e se este homem age conscientemente? O que poderia-se fazer para não mais tornar seu ‘mal,’ ao homem, latente?”
“O que irei Te dizer talvez a Teu Coração não possa
agradar, mas seria melhor deixá-lo assim, dessa forma, a tê-lo
que modificar.
“O interno desequilibrium será silenciado por uma horrível
morte, ou apenas pelo encontrar de uma Interior Verdade que o ‘acorde.’
“Mantenha-se sempre reto e avante; e não terás o que temer...
Mantendo-Se sempre alerta para da afronta poder Se defender.
“O ‘pecado’ e seu ‘mal’ apenas existem para ‘regular’ a sociedade e para
nós, Deuses, não existe essa forma de dualidade.
“Equilibrium de Forças, Equilibrium de Poder. São estas as
‘Verdades’ que deveriam prevalecer.
“O homem sempre foi ‘Ético’ para com os seus semelhantes em todas
as sociedades, não necessitando de uma força usurpadora que
se diga dona desta ou daquela ‘Verdade.’
“A Hierarquia também sempre existiu, para entre os homens intitular-Se
como ‘respeito.’ Observes, Tu mesmo, como diversas sociedades de animais
se organizam e me digas se há - para elas - a necessidade dos nossos
conceitos de ‘dualismo’ em devaneio.
“Após milênios de domínio do medo, o homem tornou-se
um ser estúpido e fraco. Esse medo que hoje ‘mantêm’ a Vossa
sociedade, é apenas um fruto do limitador conceito dualista de Zoroastro.”