| Tocandira
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Paul Ricoeur Função geral da linguagem
A linguagem não aparece como uma função específica
para definir a existência humana, assim como aparece a
função da racionalidade ou da sociabilidade. A
linguagem está entre todas essas funções.
O que confirma isso é o fato dos objetos que vemos, que
tocamos, enfim, tudo o que passa pelos nossos sentidos
já terem sido sulcados por nossa linguagem
anteriormente. Isto é, quando na infância começamos a
perceber as coisas é porque já desenvolvemos alguma
forma de linguagem. O mesmo acontece com os gestos. Como
os antropólogos já constataram, também os homens
primitivos quando começaram a talhar pedras já
possuíam um encadeamento de gestos. Esse
encadeamento de gestos é como o encadeamento de uma
frase.
A função da linguagem encontra-se, portanto, intrincada
na percepção, na ação, nos gestos e também na
reflexão. A linguagem não se manifesta somente quando
conversamos com outras pessoas. A reflexão sobre nós
mesmos também passa por um processo de linguagem. A
reflexão é uma espécie de discurso que se faz a si
mesmo. Assim, os sentimentos que vivemos poderão ser
expressos através da linguagem. Signo
Só é possível perceber, refletir e agir quando temos
signos. Porque o signo substitui a realidade para poder
expressar essa mesma realidade. Ou melhor, o signo é
posto no lugar da realidade e vale por essa realidade.
Assim o signo nunca é o que é, mas é sempre outra
coisa. Por exemplo: um traço para a geometria é um
segmento de reta; para os gramáticos é um grifo;
para os físicos é um vetor. Essa substituição
das coisas pelos signos é, conforme Paul Ricoeur,
o enigma da linguagem. A frase Nas frases a significação aparece ao
nível da relação. Não vamos mais conhecer a
significação de cada palavra, mas do seu conjunto. Ou
seja, da combinação, no mínimo, entre um nome e um
verbo. Não iremos mais buscar a significação da
palavra Sócrates, por exemplo, mas sim de uma frase,
como Sócrates está sentado. A
significação não se encontra nem em Sócrates nem em
sentado, mas na relação de Sócrates e de sentado. A significação não corresponderá mais
a portadores que se podem nomear, mas às
relações a um estado de coisas. Ao
contrário das palavras temos, agora, um
estado de coisas que faz com que minha frase seja
verdadeira ou falsa. Isto é, a frase, a
combinação de um nome e de um verbo, deve ter
necessariamente um significado verdadeiro ou falso,
enquanto na palavra não há essa possibilidade. Por outro lado essa significação
depende da referência à experiência de cada um. Porque
quando falamos já trazemos a tona a significação.
Temos uma capacidade original de significar.
A linguagem se articula em cima dessa capacidade. Por
exemplo; uma pessoa ao ouvir outra falando sobre alguma
coisa vai ter um entendimento parecido com o que a outra
quis significar, mas nunca um entendimento idêntico,
justamente, porque a linguagem, esse falar sobre alguma
coisa, tem uma significação que traz em si a
experiência anterior de cada um. |