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Paul Ricoeur

"Filosofar é reaprender a ver o mundo"

   

Michel Foucault

 

Ordem e Medida

No início do século XVII “o pensamento deixa de se mover no elemento semelhança”. Da semelhança, parte-se para uma análise “feita em termos de identidade e diferença”.

Diz Foucault que, já mesmo em Francis Bacon encontramos uma crítica da semelhança. Contudo, essa crítica só diz respeito às fantasias que se encontram no sujeito e não “às relações de ordem e de igualdade entre as coisas.” São os ídolos da tribo, da caverna e do fórum. Mas a crítica de Bacon não dissipa as similitudes, que se constituem de figuras familiares ao empirismo. Somente com Descartes será possível excluir a semelhança “como forma primeira do saber” e analisar a semelhança em termos de identidade e diferença, de medida e de ordem.

Isso não quer dizer que Descartes queira abolir a comparação pois a comparação é necessária ao raciocínio. Como nesta dedução “todo A é B e todo B é C, logo todo A é C.” Aqui há duas formas de comparação: pela medida e pela ordem. Pela medida porque há diferença entre o todo e suas partes, onde se considera primeiro a totalidade para que possamos analisar segundo a identidade e a diferença. Pela ordem porque se reconhecemos dois termos como A e B temos que considerar os dois isoladamente, descobrir o mais simples, em seguida verificar a proximidade que há entre eles e partir às coisas mais complexas. 

Mas o que importa observarmos aqui é que (como diz o próprio Foucault) “uma coisa pode ser absoluta sob um certo aspecto e relativa sob outros; a ordem pode ser ao mesmo tempo necessária e natural (em relação ao pensamento) e arbitrária (em relação às coisas), porquanto uma mesma coisa, consoante a maneira como a consideramos, pode ser colocada num ponto ou noutro da ordem.”

Foucault, depois de dizer que o século XVII “assinala o desaparecimento das velhas crenças supersticiosas ou mágicas, e a entrada, enfim, da natureza na ordem científica”, diz que, “cumpre apreender e tentar restituir as modificações que alteraram o próprio saber.”  Essas modificações  resumem-se em primeiro lugar pela “substituição da hierarquia analógica pela análise”, isto é, toda semelhança será submetida à prova da comparação tendo em vista a medida e a ordem.

Além disso, o jogo das semelhanças, que era infinito tendo como única limitação a ordem das coisas, vai passar por certo recenseamento, isto é, uma enumeração dos elementos que constituem o conjunto encarado. Assim será possível estabelecer identidades entre um conjunto de determinados elementos e, feito isso, estabelecer os graus de diferença entre eles. O discernimento que se faz entre os elementos através da identidade e da diferença é o que vai, a partir do século XVII, constituir o conhecimento.

 

A representação dos signos

Conforme Foucault, o classicismo definiu o signo segundo três variantes: A origem da ligação, o tipo de ligação e a certeza da ligação.

A origem da ligação

Se no século XVI cada coisa trazia imprimida (por Deus) sua marca, sem que houvesse necessidade que o homem a conhecesse para ela existir; no século XVII as marcas irão significar primeiramente no “interior do conhecimento”. Os signos estarão encerrados no espaço próprio do conhecimento, e na medida em que se passa de uma impressão a outra se passa “da mais fraca probabilidade à maior certeza”.

O tipo de ligação

Na forma de ligação que se funda no classicismo o signo pode ter duas posições: “ou faz parte, a título de elemento, da coisa que serve para designar; ou então está realmente e efetivamente separado dela.” Isto é, para que o signo funcione ele precisa estar inserido naquilo que significa e ao mesmo tempo separado daquilo que significa.

A certeza da ligação

Foucault esclarece que já desde muito antes de Crátilo, sabia-se que “os signos podem ser dados pela natureza ou constituídos pelo homem”. Mas antes, esses signos constituídos pelo homem deviam o seu funcionamento à sua fidelidade aos signos naturais. Agora, porém, a convenção e a natureza irão ter outro valor. O signo natural não vai ser mais que um elemento separado das coisas e será signo do conhecimento. O signo convencional será aquele mais simples e mais bem ajustado a um número indefinido de elementos, portanto, mais fácil e mais funcional.

 

A representação duplicada

         Conforme Foucault até o renascimento prevalecia o “pensamento por semelhança” porque as coisas tinham as suas marcas, essas marcas eram marcadas por outra coisa e a relação que havia entre esta e aquela, que era “quase a mesma coisa”, estabelecia a semelhança. A partir do século XVII “o signo encerra duas idéias, uma da coisa que representa, a outra da coisa representada; e a sua natureza consiste em animar a primeira com a segunda”. Por exemplo: “Quando se olha para um certo objeto como representando um corpo, a idéia que dele se tem é uma idéia de sinal e esse primeiro objeto chama-se sinal.” Assim é necessário que o sinal, além de mostrar a relação que o liga ao que ele significa, deve conter a própria representação daquilo que ele representa. Isto é, o signo deve trazer no interior da sua representação o significado.

         Foucault  afirma que no século XVII, semelhança e signo chamam-se um ao outro, mas de um novo modo. Além disso a semelhança situa-se ao lado da imaginação e esta só se exerce apoiada naquela, enquanto a semelhança só aparece em virtude da imaginação. Por exemplo: só podemos encontrar semelhança entre uma impressão presente e uma passada se retomarmos a nossa imaginação ( imaginação no sentido de imagem guardada na memória). Portanto não haveria nenhuma semelhança sem imaginação.

 
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