| Tocandira
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Michel Foucault Ordem e Medida No início do século XVII o
pensamento deixa de se mover no elemento
semelhança. Da semelhança, parte-se para uma
análise feita em termos de identidade e
diferença. Diz Foucault que, já mesmo em Francis
Bacon encontramos uma crítica da semelhança. Contudo,
essa crítica só diz respeito às fantasias que se
encontram no sujeito e não às relações de ordem
e de igualdade entre as coisas. São os ídolos
da tribo, da caverna e do fórum. Mas a crítica de
Bacon não dissipa as similitudes, que se constituem de
figuras familiares ao empirismo. Somente com Descartes
será possível excluir a semelhança como forma
primeira do saber e analisar a semelhança em
termos de identidade e diferença, de medida e de ordem. Isso não quer dizer que Descartes queira
abolir a comparação pois a comparação é necessária
ao raciocínio. Como nesta dedução todo A é B e
todo B é C, logo todo A é C. Aqui há duas formas
de comparação: pela medida e pela ordem. Pela
medida porque há diferença entre o todo e suas
partes, onde se considera primeiro a totalidade para que
possamos analisar segundo a identidade e a diferença. Pela
ordem porque se reconhecemos dois termos como A e
B temos que considerar os dois isoladamente, descobrir o
mais simples, em seguida verificar a proximidade que há
entre eles e partir às coisas mais complexas. Mas o que importa observarmos aqui é que
(como diz o próprio Foucault) uma coisa pode ser
absoluta sob um certo aspecto e relativa sob outros; a
ordem pode ser ao mesmo tempo necessária e natural (em
relação ao pensamento) e arbitrária (em relação às
coisas), porquanto uma mesma coisa, consoante a maneira
como a consideramos, pode ser colocada num ponto ou
noutro da ordem. Foucault, depois de dizer que o século
XVII assinala o desaparecimento das velhas crenças
supersticiosas ou mágicas, e a entrada, enfim, da
natureza na ordem científica, diz que,
cumpre apreender e tentar restituir as
modificações que alteraram o próprio saber.
Essas modificações resumem-se em primeiro lugar
pela substituição da hierarquia analógica pela
análise, isto é, toda semelhança será submetida
à prova da comparação tendo em vista a medida e a
ordem. Além disso, o jogo das semelhanças, que
era infinito tendo como única limitação a ordem das
coisas, vai passar por certo recenseamento, isto é, uma
enumeração dos elementos que constituem o conjunto
encarado. Assim será possível estabelecer identidades
entre um conjunto de determinados elementos e, feito
isso, estabelecer os graus de diferença entre eles. O
discernimento que se faz entre os elementos através da
identidade e da diferença é o que vai, a partir do
século XVII, constituir o conhecimento. A representação dos signos Conforme Foucault, o classicismo definiu
o signo segundo três variantes: A origem da ligação, o
tipo de ligação e a certeza da ligação. A origem da ligação Se no século XVI cada coisa trazia
imprimida (por Deus) sua marca, sem que houvesse
necessidade que o homem a conhecesse para ela existir; no
século XVII as marcas irão significar primeiramente no
interior do conhecimento. Os signos estarão
encerrados no espaço próprio do conhecimento, e na
medida em que se passa de uma impressão a outra se passa
da mais fraca probabilidade à maior certeza. O tipo de ligação Na forma de ligação que se funda no
classicismo o signo pode ter duas posições: ou
faz parte, a título de elemento, da coisa que serve para
designar; ou então está realmente e efetivamente
separado dela. Isto é, para que o signo funcione
ele precisa estar inserido naquilo que significa e ao
mesmo tempo separado daquilo que significa. A certeza da ligação Foucault esclarece que já desde muito
antes de Crátilo, sabia-se que os
signos podem ser dados pela natureza ou constituídos
pelo homem. Mas antes, esses signos constituídos
pelo homem deviam o seu funcionamento à sua fidelidade
aos signos naturais. Agora, porém, a convenção e a
natureza irão ter outro valor. O signo natural não vai
ser mais que um elemento separado das coisas e será
signo do conhecimento. O signo convencional será aquele
mais simples e mais bem ajustado a um número indefinido
de elementos, portanto, mais fácil e mais funcional. A representação duplicada Conforme Foucault até o renascimento prevalecia o pensamento por semelhança porque as coisas tinham as suas marcas, essas marcas eram marcadas por outra coisa e a relação que havia entre esta e aquela, que era quase a mesma coisa, estabelecia a semelhança. A partir do século XVII o signo encerra duas idéias, uma da coisa que representa, a outra da coisa representada; e a sua natureza consiste em animar a primeira com a segunda. Por exemplo: Quando se olha para um certo objeto como representando um corpo, a idéia que dele se tem é uma idéia de sinal e esse primeiro objeto chama-se sinal. Assim é necessário que o sinal, além de mostrar a relação que o liga ao que ele significa, deve conter a própria representação daquilo que ele representa. Isto é, o signo deve trazer no interior da sua representação o significado. Foucault afirma que no século XVII, semelhança e signo chamam-se um ao outro, mas de um novo modo. Além disso a semelhança situa-se ao lado da imaginação e esta só se exerce apoiada naquela, enquanto a semelhança só aparece em virtude da imaginação. Por exemplo: só podemos encontrar semelhança entre uma impressão presente e uma passada se retomarmos a nossa imaginação ( imaginação no sentido de imagem guardada na memória). Portanto não haveria nenhuma semelhança sem imaginação. |