Tocandira

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1º Capítulo - Viagem ao Desconhecido

"Filosofar é reaprender a ver o mundo"

Nivaldo Peres Bonfim

   

Por que comecei estudar Filosofia

          Quando cursava a 3ª série do colegial (hoje ensino médio) um professor realizou uma pesquisa em sala de aula solicitando que cada aluno levantasse o braço. Perguntou quem gostaria de estudar medicina, direito, engenharia civil, etc...A maioria, inclusive eu, desejava estudar engenharia eletrônica. A partir daquele instante comecei a desconfiar daquele meu desejo. Havia decidido estudar engenharia eletrônica sem influência de pessoa alguma e, portanto, acreditava ser pioneiro nessa idéia. Se muitos outros colegas chegaram à mesma conclusão sozinhos, significaria que talvez pudesse haver uma forma de todos nós estarmos sendo manobrados pela sociedade. A sociedade já ditava as regras para nosso comportamento, impunha as roupas que devíamos vestir, o corte de cabelo que devíamos usar, os horários que devíamos obedecer. Enfim, todo nosso relacionamento com o mundo exterior era moldado pela sociedade. Agora, nossos desejos, nossos gostos, nossos sentimentos e nossos pensamentos pareciam também estarem sendo dirigidos pela sociedade. Seria possível a sociedade interferir também em  nosso interior? Isto é, seria possível nossos desejos, nossos gostos, nossos sentimentos e nossos pensamentos serem moldados de acordo com os interesses dos governantes ou empresários?    

                 Talvez tenha sido essa desconfiança inicial que me levou a pensar em estudar filosofia.  Na 2ª série já havia estudado essa disciplina. Lembro-me muito pouco de tais aulas, contudo, após o término do colegial ficou, pelo menos, a impressão de que o estudo de filosofia na faculdade poderia ajudar-me a responder perguntas como: De onde viemos? Para onde vamos? Deus existe? O que é o homem? Existe vida após a morte? Enfim, ficou a impressão de que a filosofia poderia ajudar-me na aquisição da sabedoria tão necessária a quem importa mais a evolução do espírito do que da matéria, a quem deseja mais ser do que ter.

                Sabia que o campo de trabalho seria restrito a lecionar e que ninguém enriquece lecionando ou filosofando. Trabalhando já desde 15 anos de idade, não aceitava a idéia de que cursar uma faculdade seria um investimento do qual se espera um retorno financeiro no futuro. Pensava: “Com trabalho ganhamos dinheiro e com estudo o conhecimento”. Minha realização pessoal estava vinculada ao estudo e não ao trabalho, estava vinculada ao conhecimento e não ao dinheiro. O trabalho, apesar de inicialmente requerer algum esforço mental, logo se tornava repetitivo e não trazia mais contribuição alguma ao meu desenvolvimento pessoal. Desta forma, a meu ver, todo trabalho era escravizante e opunha-se ao ser humano. O trabalho seria a negação do conhecimento. Estudar, portanto, significaria se opor a essa força opressora da vida. Estudar filosofia, muito mais que isso, poderia significar encontrar um caminho para viver bem.

 

 
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