| Tocandira
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Por que comecei estudar Filosofia
Quando cursava a 3ª série do colegial (hoje
ensino médio) um professor realizou uma pesquisa em sala
de aula solicitando que cada aluno levantasse o braço.
Perguntou quem gostaria de estudar medicina, direito,
engenharia civil, etc...A maioria, inclusive eu, desejava
estudar engenharia eletrônica. A partir daquele instante
comecei a desconfiar daquele meu desejo. Havia decidido
estudar engenharia eletrônica sem influência de pessoa
alguma e, portanto, acreditava ser pioneiro nessa idéia.
Se muitos outros colegas chegaram à mesma conclusão
sozinhos, significaria que talvez pudesse haver uma forma
de todos nós estarmos sendo manobrados pela sociedade. A
sociedade já ditava as regras para nosso comportamento,
impunha as roupas que devíamos vestir, o corte de cabelo
que devíamos usar, os horários que devíamos obedecer.
Enfim, todo nosso relacionamento com o mundo exterior era
moldado pela sociedade. Agora, nossos desejos, nossos
gostos, nossos sentimentos e nossos pensamentos pareciam
também estarem sendo dirigidos pela sociedade. Seria
possível a sociedade interferir também em nosso
interior? Isto é, seria possível nossos desejos, nossos
gostos, nossos sentimentos e nossos pensamentos serem
moldados de acordo com os interesses dos governantes ou
empresários?
Talvez tenha sido essa desconfiança inicial que me
levou a pensar em estudar filosofia. Na 2ª série
já havia estudado essa disciplina. Lembro-me muito pouco
de tais aulas, contudo, após o término do colegial
ficou, pelo menos, a impressão de que o estudo de
filosofia na faculdade poderia ajudar-me a responder
perguntas como: De onde viemos? Para onde vamos? Deus
existe? O que é o homem? Existe vida após a morte?
Enfim, ficou a impressão de que a filosofia poderia
ajudar-me na aquisição da sabedoria tão necessária a
quem importa mais a evolução do espírito do que da
matéria, a quem deseja mais ser do que ter.
Sabia que o campo de trabalho seria restrito a lecionar e
que ninguém enriquece lecionando ou filosofando.
Trabalhando já desde 15 anos de idade, não aceitava a
idéia de que cursar uma faculdade seria um investimento
do qual se espera um retorno financeiro no futuro.
Pensava: Com trabalho ganhamos dinheiro e com
estudo o conhecimento. Minha realização pessoal
estava vinculada ao estudo e não ao trabalho, estava
vinculada ao conhecimento e não ao dinheiro. O trabalho,
apesar de inicialmente requerer algum esforço mental,
logo se tornava repetitivo e não trazia mais
contribuição alguma ao meu desenvolvimento pessoal.
Desta forma, a meu ver, todo trabalho era escravizante e
opunha-se ao ser humano. O trabalho seria a negação do
conhecimento. Estudar, portanto, significaria se opor a
essa força opressora da vida. Estudar filosofia, muito
mais que isso, poderia significar encontrar um caminho
para viver bem. |