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VIAGEM AO DESCONHECIDO

 

              Em outubro de 1499 Felipe Gutierrez, um jovem estudante de filosofia da Universidade de Oxford, partiu numa aventura pelo mar com seu tio Diego Escovedo, capitão de uma caravela espanhola, Natividad,  que tinha por finalidade encontrar riquezas no Novo Mundo. Após dois meses de viagem pelo Mar Oceano rumo ao Ocidente, sem encontrar terra firme, os tripulantes da caravela amotinaram-se e tomaram a embarcação. A maioria dos conspiradores acreditava, convencidos pelo piloto Sancho Ruiz, que não estavam navegando para o Ocidente mas sim e tão somente para o Sul. O conhecimento dessa informação foi suficiente para o convencimento geral pois todos temiam cair da Terra num grande abismo sabe-se lá  pra onde. Os marinheiros não poderiam conviver com a idéia de rumar para o sul. Navegar para o Ocidente seria mais confortável e poderiam encontrar as novas terras e suas riquezas.  Foi aproveitando-se muito bem desse temor geral que Sancho Ruiz, um marinheiro simpático apesar de rústico e bárbaro, anunciou a todos, no convés, a verdade não revelada pelo capitão. "Fomos conduzidos a esta embarcação com a promessa de riquezas. Navegamos por estes mares a dois meses e a única descoberta que obtivemos foi a traição do capitão. Fomos enganados desde o princípio. O capitão pretendia levar-nos à morte. Escondeu-nos o tempo todo o rumo sul desta embarcação e já ultrapassamos a linha equinocial. Marinheiros! Tomemos o leme imediatamente e sigamos para oeste, nosso destino inicial, sem demora, pois  já deveremos estar nos limites do abismo infinito." Ao fim de suas palavras Felipe Gutierrez sentiu um forte pontapé‚ em suas costas, fazendo-o cair ao chão, aos pés de seu tio. Ao levantar não  reconheceu o agressor pois atrás de si estavam juntos Rodrigo de Jerez, Pedro Lopes, Manzano, Luis Valdés e Hernandes. Julgou, entretanto, ter sido Manzano o autor do pontapé. Manzano, apesar da barba tinha visível uma grande cicatriz do lado esquerdo do rosto. Vangloriava-se por tê-la adquirido  em luta pela reconquista cristã da península Ibérica. Demonstrando estar mais exaltado que os outros, foi ele quem gritou: "O capitão e também esse grumete que o acompanha queriam nos matar a todos, então que morram sozinhos." Todos gritaram juntos levantando seus facões e muitos sorriam mostrando suas bocas desdentadas. Felipe Gutierrez percebeu então a grande felicidade que todos sentiam com o prenúncio de suas mortes.

              Tomado por uma coragem a ele incomum; impulsionado,  por ter ouvido falar de conspiradores que mataram, decapitaram, esfolaram ou abandonaram seus comandantes em ilhas desertas; subindo numa caixa Felipe Gutierrez tentou convencer a todos de que não havia razões suficientes para tanto temor.  Tentou convencer a todos de que navegar nos mares do sul era o mesmo que navegar nos mares do norte.

              "Senhores! Espero com minhas palavras tranqüilizar a todos, pois é comum temermos o desconhecido, mas é tolice negar-se ao conhecimento. A sabedoria de que a Terra é redonda já  data dos mestres antigos. Temer o desprendimento das águas do Mar Oceano ou da embarcação quando se navega ao Sul do Planeta é inconcebível aos olhos da razão e sustenta-se apenas devido às falsas impressões adquiridas pelos sentidos. Toda água está grudada ao Planeta assim como tudo que nele se encontra. A água sustenta-se presa tanto ao Norte quanto ao Sul e por todos os lados, como a casca de um laranja. Não nos foi permitido saber porque não caímos da Terra, assim como tantas outras coisas permanecem inexplicáveis. Quem saberia explicar porque as nuvens sustentam-se suspensas ainda que carregadas com as águas das chuvas? Pela quantidade de água que às vezes se derrama não é de se supor que haja outro mar acima de nós? Como os ventos conseguem mover esses mares suspensos?"

              Alguns riram, parecendo admirarem a explanação ou por admirarem a tentativa desesperada de alguém que, estando diante da morte, busca todo e qualquer instrumento para se salvar. Riam, mas nada entendiam ou concordavam. Outros, pendurados como macacos nos ovéns ou amontoados na amurada de estibordo gritavam: "Matem os traidores." "Joguem-nos ao mar." Rapidamente Felipe Gutierrez reiniciou sua argumentação: "Não há  o grande ou o pequeno em si mesmos, não há o baixo e o alto, não há acima nem abaixo em si mesmos. Alto e baixo, pequeno ou grande, acima e abaixo existem apenas em relação com outro. Assim ocorre também com o Norte e com o Sul. Por isso dizemos Norte e Sul da Terra. Tais denominações existem para nos locomovermos e nos localizarmos no Planeta. Se costumeiramente dizemos que ao Norte nos encontramos acima e ao Sul nos encontramos abaixo é por mera comodidade do hábito. Quando estamos ao Norte não significa que estejamos em cima e quando estamos ao Sul não significa que estejamos embaixo. Distanciamo-nos tanto da estrela tramontana que hoje já não a avistamos, mas observem quantas novas estrelas estão agora mais próximas de nós. O Universo é um círculo perfeito e todos astros estão em equilíbrio e harmonia como quis o Criador. As estrelas que compõe a última esfera celeste estão em toda nossa volta. Portanto, estamos abaixo de todas elas não importando se ao Norte ou ao Sul da Terra. O que quero dizer é que não há meios para afirmarmos que a estrela tramontana localiza-se ao Norte, pois ela faz parte de uma esfera. Alguém saberia dizer qual é o Norte e qual é o Sul de uma esfera? Ou, melhor ainda, qual é a parte de baixo e qual é a parte de cima de uma esfera?"

              Nesse momento Sancho Ruiz que segurava um arcabuz disse: "E alguém saberia dizer se esse grumete tem miolos na cabeça?" Todos riram muito, às gargalhadas, e aos empurrões Diego Escovedo e Felipe Gutierrez foram conduzidos ao porão. Diego Escovedo tentou consolar o sobrinho ao chegarem no cativeiro: "Esses homens só reconhecem a força das palavras quando acompanhadas pela força da espada." Felipe, desolado, reflete: "Somente um tolo como eu se dedicaria a tentar convencer os brutos através da lógica. Ainda mais estes que ora se encontram embebidos pela paixão da revolta. Não conseguem enxergar nem mesmo as maiores evidências da verdade, pois são ofuscados pelos resultados imediatos e mais fáceis, mesmo que falsos, alcançados pelos sentidos."

              "Contudo, não terá sido em vão - disse Diego Escovedo - Afinal, estamos vivos." "Sim, não posso negar. Quando subi naquela caixa, instintivamente, para tentar convencê-los agi tomado por um reflexo. Como num relampaguear da memória lembrei-me que, quando criança, divertia-me colocando uma formiga em um balde d'água proporcionando-lhe ora alguns desafios ora alguma ajuda. Provocava redemoinhos, ondas enormes para uma formiga. Jogava água, como numa cachoeira, fazendo-a imergir. Tudo isso para testar a vontade de viver da formiga. Jogava algumas folhas secas ou raminhos para que se salvasse do afogamento. Depois, mais desafios. Por fim, tendo em vista sua grande capacidade em resistir aos desafios e sua insistência em lutar pela vida, libertava-a. Senão, seria morta. Talvez os amotinados nos reservem desafios semelhantes, pois nossa condição é a mesma das formigas de minha infância."

              Diego Escovedo e seu sobrinho permaneceram presos no porão do navio, próximo aos víveres, durante todo o restante da viagem sem conhecimento da direção tomada pela embarcação. Se havia alguma intenção por parte dos marinheiros amotinados de proporcionar-lhes alguns desafios, tais intenções teriam sido interrompidas por uma grande tempestade na segunda noite após a prisão. Felipe Gutierrez e Diego Escovedo começaram a ouvir vozes aflitas e gritos vindos do convés. O vento assobiava fora da embarcação que começava a balançar como nunca. Via-se clarões repentinos e ouvia-se trovões estrondosos. O capitão, que já enfrentara algumas tempestades, previu que aquela seria muito forte e não seria fácil dominar a embarcação. Não tinha confiança alguma que o piloto conspirador, agora no comando da caravela, pudesse contornar aquela situação. Já em meio à tempestade, gritou várias vezes para que tirassem-no dali. Somente ele saberia comandar Natividad naquela situação. Entretanto não foi ouvido. O barulho era infernal, todas madeiras da caravela rangiam nas cavas das ondas. Homens no convés gritavam a todo momento, trovões incessantes, o barulho dos víveres misturavam-se ao das panelas entrechocando-se. Vez por outra alguma coisa caia em algum lugar.  A água do convés entrava no porão, onde se encontravam, e já podiam sentir seus pés encharcados e avistar ratos aflitos a nadar. Felipe Gutierrez também gritava para que o tirassem daquele porão, implorando para que não o deixassem morrer. Os tripulantes amotinados estavam muito mais preocupados com suas próprias vidas, principalmente após terem visto alguns de seus colegas caírem ao mar em meio à tempestade. Foram instantes de pavor, tanto para os prisioneiros, quanto para os marinheiros que aos gritos, sufocados pelo barulho das ondas que encharcavam todo navio, procuravam salvar-se da tempestade demoníaca, salvando a embarcação.

              Aos poucos a tempestade foi se amainando e passaram a ouvir somente o barulho da chuva forte e as vozes dos marinheiros aflitos com os estragos. Para o jovem Felipe  parecia estarem navegando normalmente. Seu tio, no entanto, percebera que Natividad estava a deriva. Pelas vozes que ouvia concluiu que a embarcação tinha sofrido sérias avarias. As mais graves teriam sido a perda do leme e de dois mastros que se partiram  o  que estariam causando muita dificuldade de navegação.

              Passaram-se dois dias após a tempestade e no meio da segunda noite, acordaram com um barulho vindo da carcaça da caravela, que depois de um solavanco parecia ter estacionado. Os dois prisioneiros começaram a ouvir sorrisos extasiados e gritos emocionados de alegria. Felipe Gutierrez logo entendeu que estavam em terra firme. Alguns marinheiros desceram o batel, outros se jogaram ao mar e todos dirigiram-se à terra. A embarcação havia encalhado bem próximo à terra, pois, durante algum tempo ouviram as vozes dos homens que lá chegaram. Depois, o silêncio tomou conta do lugar. Já era dia e nenhuma voz humana se ouvia. Somente no começo da noite é que aqueles marinheiros retornaram. Nessa mesma noite os prisioneiros foram retirados do cativeiro e conduzidos à terra firme. Comeram carne e uma fruta desconhecida. Os outros homens trataram de esvaziar, esbaforidamente, os últimos barris de vinho,  deixando boa parte dele escorrer por toda barba. Sancho Ruiz, o eloqüente piloto, depois de relatar o que havia encontrado em terra firme disse-lhes estar certo de que haviam chegado às novas terras e não numa ilha como alguns marinheiros desconfiavam. Disse-lhes ainda, que estavam sendo libertados para que junto com outros consertassem a caravela.

              No dia seguinte Felipe Gutierrez e seu tio tiveram oportunidade de conhecer o lugar onde haviam chegado. Juntamente com outros dois marinheiros iniciaram o trabalho de restauração do leme, dos mastros e outros consertos na embarcação ora encalhada. Hernandes, o cordoeiro, ficou encarregado de vigiar Natividad e também, provavelmente, os prisioneiros. O restante da tripulação, apenas dez homens pois muitos morreram durante a tempestade e outros adoeceram, embrenhou-se pela mata a procura de ouro ou de sua nascente.

             Felipe Gutierrez, Diego Escovedo e mais dois marinheiros, Duarte Peres o calafate e Rodrigues o carpinteiro, construíram os mastros, o leme, consertaram as velas rasgadas  e outros danos causados pela tempestade. Entretanto, após cinco dias de trabalho intenso, não viram perspectiva alguma para desencalhar a caravela. Muito pelo contrário, nos dias todos em que estiveram trabalhando só viram aumentar a desesperança de poderem um dia sair dali.

 

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