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A Estrutura Como qualquer outra narrativa -que é a forma de discurso em que se relata um acontecimento ou sequência de acontecimentos-, os elementos estruturais do conto são: a acção, com as suas personagens, o espaço e o tempo. Existe uma forte concentração destes elementos, no conto, podendo muitas vezes haver uma só acção, decorrendo num único espaço, num tempo restrito. *As personagens ou agentes da acção de acordo com a importância, ou espaço que lhes é concedido na narrativa, são: principais, secundárias ou meros figurantes. Este conto fala de histórias dramáticas do quotidiano, e as suas personagens estão marcadas pelas frustrações, pela incapacidade de atingir o sonho -sonhado e, logo, perdido, ou nem sonhado, pela covardia. A acção gira à volta de três rapazes, depois homens e, mais tarde, velhos que falharam o seu destino.Porque o destino não lhes concedeu aquilo que tinham sonhado? Por incapacidade de atingir a altura do sonho? Por falta de coragem para o levarem até ao fim? Ou faltou-lhes a força para "fugir" e ir tentar outra vida, longe daquela vila? Por todas as razões, como veremos. Diz o narrador no início do conto: "Formávamos uma trindade de falhados". A partir daí, o leitor sabe qual o seu ponto de vista. São três falhados, pois, as personagens que podemos considerar as principais, já que nelas se centra a acção do conto: Mestre Poupa, o bombeiro, a sonhar "com o fogo da sua vida", que chegou um dia à vila espalhando a fama da sua coragem e lamentando que já não haja fogos como antigamente. E que, na realidade, escondia agora o medo do fogo. "Empurrado" pelos amigos e pelas circunstâncias, vai confrontar-se com o fogo e com o medo e perder a vida. André Juliano, filho de um pai rico, inválido e avarento que o humilha não lhe dando um tostão para viver dignamente e que fica preso à espera da herança do pai para, enfim, poder viver os sonhos de adolescente. Incapaz e tolhido pela covardia, não consegue dar o salto que o libertaria e fugir daquela "teia" que o prende, encolhendo-se na meia comodidade de uma vida miserável e estagnada. Incapaz de escolher a salvação, acaba preso, numa prisão real, quando tenta realizar o sonho, através de um fogo. O narrador, que tudo observa, a quem também o "fogo" marca o destino, perde a felicidade possível, o amor, o sonho, quando a mulher que ama, vítima de um fogo, vai aparecer, frente a toda a vila, em camisa, quase nua, nos braços do bombeiro salvador. Sem coragem para casar com ela depois disso, sem força para enfrentar a opinião pública e a chacota da vila, evoca, de remorso em remorso, como um pesadelo, em flashbacks angustiantes, a imagem dessa mulher. E, personagens secundárias, que, inconscientemente, provocam o desfecho de parte da acção: Antoninha das Dores, noiva do narrador, e Chico Biló, bombeiro da terra, que a salva do fogo. Apatia, atonia, neura, são traços fundamentais do carácter destas personagens, marcando também o ambiente em que se movem, como eles, parado e inerte. Num outro livro, o romance "Cerromaior", dirá Manuel da Fonseca: " a neura é o mal cá da terra..." Personagens principais : modeladas/ tipos? As personagens principais são modeladas: desenhadas com profundidade, bem definidas, com um mundo interior próprio. Caracterizadas mais de um modo indirecto através das acções, dos gestos, mas também, directamente, pelas falas, sobretudo da personagem do narrador, também ele personagem principal. De facto, falando da amizade com André Juliano diz ele: "dividíamos todas as raivas, todos os ciúmes, as invejas, os fracassos". Ou através das interrogações que põe a si próprio: "Serei acaso covarde? talvez". Ou, então, "fiz bem? fiz mal? podia ter sido de outra maneira?" À espera que um dia alguém lhe responda? Ou sem esperar resposta? As personagens secundárias são tratadas de modo mais ligeiro e caracterizadas, sobretudo, de modo indirecto. São mais os actos que nos levam a imaginá-las -como vítimas e, simultaneamente, causadoras involuntárias da sua tragédia que é a deles e a do narrador.
A intriga Como num quadro em movimento, ou num filme, com os seus flashbacks, analepses, vai-se tecendo um enredo, uma intriga em que tomam parte três indivíduos de carácter diferente, mas com um traço comum, a insegurança, a fraqueza, a fragilidade emotiva e é essa constante que vai concorrer para o desfecho. E os três destinos cruzam-se, entre fogos e cinzas e na amizade, única realidade positiva. Como um leitmotiv, é sempre o fogo a marcar a vileza e a grandeza das vidas. Tudo gira à roda do fogo, de vários fogos que determinam o destino de todas as personagens e causam a sua desventura ou perda, nas cinzas que deixam. O tempo O narrador leva-nos ao passado, através de "analepses" (o passado da adolescência dele e de André Juliano, o passado recente -o fogo) e dá-nos a conhecer ou recorda sentimentos seus ou de outras personagens. O tempo arrasta-se mas podemos dizer que é sempre o mesmo dia, igual e monótono, repetitivo, ou a realidade de um fogo, mesmo que se refira a dias ou a fogos, de anos diferentes. O passado e o presente, a passagem para o "sonho", a imaginação e o tempo psicológico que anula os diversos "tempos". O espaço Geográfico ou físico: em círculos cada vez mais fechados: a vila (espaço exterior, amplo) onde se concretiza a tragédia, onde se "passam" os fogos, o café (espaço interior) onde encontra os amigos , o passado, e onde hoje, sozinho, rememora esse tempo perdido. É também a repetição do mesmo cenário, a desolação do café da vila, cenário das frustrações das personagens, onde tudo "passa" como num écran, num filme que se desenrola aos nossos olhos, aumentando a amplidão que lembra a plánície alentejana, mas sempre à volta de um tema, de um tempo, de um espaço: o fogo.
O desfecho Até ao desfecho da história, que um fogo -outro, ainda- vem trazer. E, nele, se concentra a emoção violenta e, a seguir, uma vez mais, a resignação. Ao narrador nada mais resta senão acolher-se ao café da vila, a beber o seu café, mexido devagar e em silêncio. Com os gestos lentos de quem se habituou a eles para fazer render o tempo e esconder a solidão. A fumar um cigarro, enrolado eternamente igual, vai evocando o destino dos amigos e lembrando o passado. Com o remorso. E, nos olhos, a imagem de Antoninha das Dores, nos braços de Chico Biló que a salva das chamas, enquanto espera que o fim surja. Para que o destino "aconteça" de qualquer maneira. |
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