Marcia Lorenzato
No fil do mist�rio cotidiano

Marcia Lorenzato explora a mem�ria e suas terras interiores atrav�s de grandes formatos de obras
fotogr�ficas onde o �ntimo encontra o mist�rio da vida quotidiana, onde a morte, o questionamento
sobre a morte evoca a passagem, a transfer�ncia, o pr�ximo e o inquietante.  Onde se situa a
pessoa humana, entre as mil e uma rotas a serem percorridas, as escolhas, os sonhos a serem
realizados... a ambival�ncia e a rescis�o, a doa��o e a aceita��o, a revolta, a abertura e
o segredo, o �ntimo de todo ser que debica, pouco a pouco, este fio de onde surge sua vida.

De onde vem aquilo que nasce.  Nascimento.  Grito. Palavra. Sil�ncio.

Todas essas facetas nos s�o simbolicamente entregues, �s vezes inocentemente, como um regresso
�s fontes da inf�ncia, �s vezes ferozmente, mesmo com ares de anjo, de do�ura, de solid�o, de
p�talas de flores.  E estes milhares de rostos que habitam nossas mem�rias.
Mem�rias de um povo, de alian�as e de recusas, de novas vias, de rostos a procriar.

Marcia Lorenzato cria uma obra original que ecoa em n�s, que nos interpela.

Uma obra de mist�rio, um grito, a aurora de um di�logo... Como uma transum�ncia... 

Ao descobrir este mundo singular, voc� poder� ser conquistado!

                                                                                        Pascale Eyben, historiadora de Arte,
                                                                                        Bruxelas, Novembro de 2003

Abrindo cortinas 

Marcia Lorenzato prop�e atrav�s de sua obra mergulharmos no processo de amplia��o da nossa
sensibilidade, como observadores atentos, atrav�s de uma express�o que se renova. Quem observa
sua obra, realiza um procedimento solit�rio, viajando no imagin�rio poss�vel, indo al�m do quadro
exposto em simb�licas camas que, como portais, convidam-nos para ir al�m das interpreta��es
conscientes e chegarmos ao inconsciente reflexivo.

                                                                                         Paulo Pegoraro, jornalista,
                                                                                         Brasil, Outubro de 2003



As faces cruzadas da obra de Marcia Lorenzato

Estar diante do trabalho de Marcia Lorenzato � entrar, obra por obra, no imagin�rio �ntimo da artista
e viver o efeito inesperado do gesto criado em equil�brio sobre um fio.  O que poderia ser mais bem
representativo deste equil�brio do que um eixo vermelho vertical onde pivotam imagens? E o que
poderia ser mais �ntimo que camas onde repousam fotos pessoais do passado? Os len��is das camas
s�o telas semitransparentes em que o v�u se cobre e se descobre, sob o jogo de luzes sabiamente
instaladas atr�s da imagem, impress�es maculadas de l� e daqui de um escotoma.  O tra�o
obl�quo da obra "Jogo Duplo" parece, por exemplo, querer pesar a leveza inocente pr�pria da juventude
contra o peso do olhar direto e perfeitamente l�cido da obra "De Dentro" da senhora idosa que o acompanha. 
Balan�ar, pesar, subpesar a fim de melhor medir.  Ser� que na obra da M�rcia � chegada a hora do balan�o?

                                                                                         Marc Audette, York University,
                                                                                         Toronto, Setembro de 2002
                                                                                         Exhibition R�sistances, Shawinigan Arts Centre, Qu�bec, 2002

Os sonhos acordados de M�rcia Lorenzato


Atrav�s da sua pr�pria biografia, M�rcia Lorenzato expressou aquilo que, mais tarde, seria a subst�ncia
da sua obra, ou seja, o distanciamento, a locomo��o como renascimento para si, a abertura para novos
territ�rios, novos encontros, novas sensa��es.  Nascida em S�o Paulo, em uma fam�lia de ra�zes �talo-
portuguesas, a artista morou em diversas cidades do Brasil e  Canad�.  � em Bruxelas que colocou
provisoriamente sua bagagem, antes, sem d�vidas, de continuar seu caminho rumo a novos horizontes. 
Ser� que se deve, a partir da�, enxergar na forma das camas, �s quais suas obras instalativas se
referem, um paradoxo ou o contrario a express�o coerente de sua rela��o com mudan�as sucessivas? 
Cabe ao expectador fazer tal escolha e, principalmente, projetar suas pr�prias impress�es sobre esta
estrutura familiar que � ao mesmo tempo surpreendente, pois a artista n�o elabora seu trabalho como
uma obra autobiogr�fica.  Seu trajeto constitui apenas um ponto de partida que desencadeia quest�es
de ordem universal.

A estrutura da cama, que enquadra impress�es fotogr�ficas sobre tecido, funciona tamb�m como ponto
de partida.  Totalmente fabricadas por M�rcia Lorenzato, estas camas s�o de formatos diversos.  Aos p�s
das camas, todos diferentes uns dos outros, recuperados de antiqu�rios, a artista lhes atribui assim uma
nova exist�ncia.  N�o se trata, aqui, de modo algum, de um ready-made, mas sim de uma reconstru��o de
um objeto familiar, �ntimo, que a artista transp�e na vertical, fixando a obra na parede de espa�o p�blico
de exposi��o.  Este quadro acolhe uma tela que reproduz imagens fotogr�ficas, retrabalhadas pela
infografia.  Desestabilizada, ao ser instalada nas paredes, a cama n�o � ent�o apenas assimilada
no espa�o do repouso, do sono, mas a um local onde se inserem imagens como num sonho.

As imagens de M�rcia Lorenzato t�m, de fato, a complexidade e a densidade dos sonhos.  Atrav�s
de suas obras, a massa gravitacional � freq�entemente invertida, como na obra Inicia��o, em que os
galhos das �rvores transformam-se em ra�zes, e as ra�zes em galhos.  Estas invers�es acabam
duplicando este efeito atrav�s do plano da cama, que passa do horizontal para o vertical das paredes. 
Suas obras d�o tamb�m a impress�o de vertigem, pois os elementos, como as pedras de
Acidentado, perdem sua estabilidade em favor de um movimento de queda, de deslize.

Driblando a verossimilhan�a da imagem fotogr�fica, M�rcia Lorenzato consegue criar mundos
on�ricos congregando, em uma �nica tela, fotografias de diversos registros.  Ao resgatar
imagens de seus parentes, a artista apropria-se de cenas ou rostos que s�o, ent�o, afetivamente
pr�ximos, embora distantes no tempo.  A crian�a est� presente na maioria de suas obras.  No
conjunto da tela, estes clich�s surgem geralmente em um tipo de proje��o, circunscrita ao
espa�o e ao volume do travesseiro, ou seja, no espa�o do sonho.  Estas imagens inserem-se
num fundo atrav�s do qual pode ser visto um amplo espa�o, correspondendo na maioria das
das vezes a uma fotografia de paisagem, �s vezes, invertida.  A inoc�ncia da idade e das
brincadeiras infantis dialoga com um espa�o que parece imut�vel, perene.

Atrav�s da instala��o ou da colagem de imagens fotogr�ficas retrabalhadas eletronicamente, M�rcia
Lorenzato produz representa��es complexas.  A partir de preocupa��es recorrentes, ou seja, da
passagem do tempo, da transmiss�o intergeracional, do relacionamento do indiv�duo com seu meio,
a artista cria a cada vez varia��es renovadas que buscam incitar o imagin�rio do espectador.

As diferentes camadas da imagem convidam, de fato, a um outro n�vel de leitura diversa,
ultrapassando de longe a dimens�o biogr�fica ou feminina de sua obra.  O universo da c�lula
da fam�lia ou da casa, denotado pela refer�ncia � inf�ncia e � cama, n�o � concebido de maneira
caricatural como algo especificamente feminino.  Tais elementos n�o conduzem a uma interpreta��o
restrita de sua obra, que seria a de uma obra feminista.  Ao n�o se restringir a categorias estabelecidas,
as instala��es de M�rcia Lorenzato convidam o espectador a viver uma experi�ncia de um tipo de
sonho acordado, atrav�s da qual a consci�ncia de sua condi��o humana se enriquece pelo imagin�rio
capaz de recriar, de maneira incans�vel, outras exist�ncias poss�veis, outros relacionamentos com o mundo.

                                                                                            Danielle Leenaerts, PhD 
                                                                                            Universit� Libre de Bruxelles, Historia da Arte
                                                                                            Bruxelas,12 de novembro de 2003
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