Ele (3)
.
Chegou a hora
. This is it.
.
- E então...?
.
Aline hesitava. Tudo estava muito lindo
e comovente até agora. Mas era só um passeio na rua!! Não
dava para acreditar que ia ser "maravilhoso" assim. E o pé no chão,
cadê?
.
Em contrapartida... Aline se perguntava
um inédito "E daí??". E daí? E daí que
ele era...aham... "conhecido" das pessoas? E daí? Fazer o quê
se a "profissão" dele é essa coisa maldita?? Ele não
é diferente?? Ele não está diferente?? Então,
e daí?? Se Aline conseguisse responder isso com o mínimo
de embasamento (como antes), pronto, ela estava livre. Mas... nada da resposta!
Damn it, não dá mais para pensar como há oito anos!
Ela já nem lembra direito como era ter 16... Sua realidade agora
é tão outra, tão menos encanada com qualquer coisa
que seja , que neste exato momento ela não consegue pensar
numa resposta convincente (a ela mesma!) para o tal "E daí??"
.
Depois do Caio
, tudo virou "e daí??" ...
.
- Ai, Rodrigo...que dor... pra quê
você quer que eu vá lá??
- Porque eu não quero que isso
se transforme em uma coisa difícil entre a gente. Não quero
que isso "emperre" o resto, entende?
.
Aline não parece muito convencida.
Acha que assim que pisar lá vai ver coisas que não quer,
ficar irritada, se estressar...
- I'm not so sure...
- Line. Escuta. Eu estou te falando
que não vai ter problema algum. É por isso que eu quero
te levar lá. Pra você ver que agora é tudo diferente.
Que, [ênfase no tom de voz] por mais que você discorde,
essa *é* uma profissão como outra qualquer. Você vai
ver.
.
Quietíssima, Aline fica olhando
pra ele, morrendo de medo de ir. Até que murmura:
- What the hell... por quê
não? [sorriso tenso] Mas eu tenho que ir no banco antes!
.
Rodrigo não cabe em si de felicidade.
Segura na mão de Aline, dedos entrelaçados que viram um tímido
abraço, logo separado por Aline, meio nervosa.
- Tô meio tensa...liga
não.
- Então eu só seguro
a sua mão. [sorriso, olhos brilhando]
- Tá. [ela sorri de volta]
.
Com a outra mão, Rodrigo
acaricia o rosto de Aline, puxando-a para mais perto:
- Igual a você não
tem, Line.
.
Estalinho. Deve ter sido o 'beijinho'
mais longo que já deram, ficaram assim por um bom tempo, até
Aline sentir que uma lágrima ia começar escorrer por seu
rosto.
- Ai... [ela meio que
ri, enquanto ele a abraça]
- Line Line Line... você
sabe o quanto eu sou louco por você?
.
Soa irônico, mas agora
Aline não sente mais os pés no chão. E voltam a se
beijar.
.
De repente, uma agitação
no jornaleiro a faz desviar o olhar para atrás de Rodrigo. Eram
duas pessoas (uma mulher e um homem) que, ao serem vistas por ela, saem
correndo por entre os carros ali estacionados e atravessam a rua. Eles
param e continuam olhando para ela de longe, meio intrigados, talvez esperando
o sinal fechar novamente. Aline não entende nada - até ver
uma máquina fotográfica daquelas de jornalista na mão
do homem.
.
- Ahhh, não, Rodrigo!
Ahh não!! Olha aquilo lá... [fazendo 'não' com a
cabeça e querendo subir a rua de novo]
- ... [atordoado]
- Isso é demais, sabia??
Não acredito!!!! Não acredito nisso!!!
.
Aline fica muito irritada.
Tem vontade de socar aqueles dois. E fica olhando, muda, para Rodrigo.
- Não me olha
assim, Line. Eu não sabia, eu---
- Você nunca sabe,
né?? Você nunca tem nada a ver com isso, né?? Nunca!!!
Eu não quero isso!!! Eu ODEIO
isso!!!! E é *por causa disso* que...
[já chorando de ódio]
- Line... espera. Não
vai deixar isso estragar, por favor.
- Então você
vai lá e manda... manda, ah sei lá! Nega tudo!!! Eu
vou negar tudo!!!
- Não, eu não
vou negar nada. Eu vou deixar pra lá e levar a minha vida COM VOCÊ.
- [sarcástica]
Ooohhh, que lindo isso Rodrigo, que lindo!!! Pena que não me
comove!!! E nem me convence!!!
- Aline, quê que tem??
Não chora. Provavelmente eles me seguiram e---
- PÁRA!!!! PÁRA!
Ai que ódioooo!!
- Parei, tá, desculpe.
- Você conhece eles??
- Eu? Eu, é, não,
quer dizer, eles--
- VOCÊ CONHECE ELES??
- Eles acompanham o [voz
sumindo] ti... você sabe.
- ARGH!!!!
- Mas eu não sabia
que--
- VOCÊ NÃO
SABIA!?!
- Juro pra você que
eu não fiz isso. Eu não falei nada. NADA, eu juro. Line,
escuta. Ignora. A gente passa ali e eu falo com eles.
- Você não
vai falar nada comigo perto!! Eu não vou mais!!!
- Line... [cabisbaixo]
- Rodrigo... você
viu, você viu... [apontando para o outro lado da rua, inconsolável,
e ainda soluçando]
.
Aline está com o
rosto molhado de tanto choro. Quanto mais esfregava com as mãos,
mais vermelha ficava. Rodrigo mexe em seus cabelos e a beija seguidamente.
- Line, eu te amo.
Te amo MUITO.
Te amo demais.
Não vou te largar.
Não vou te perder.
Se você quiser
ir lá,
a gente vai.
Se você não
quiser,
a gente vai só
no banco.
Eu vou ficar com você.
Eu vou pra onde você
quiser hoje.
O que você quer
fazer?
Eu te adoro.
Não fica assim.
Eu te amo.
Eu te amo.
Eu te amo.
.
O sinal (ou "farol", como
ele diz) deve ter ficado vermelho umas 5 vezes até se soltarem
do abraço, com Aline já sem chorar, mas ainda esfregando
os olhos inchados. Que drama! Que horror! Aline odiaaaava essas coisas. Quando
se recompõe, solta um ácido "oohh, os queridinhos ainda
estão ali? Nunca viram uma reconciliação??" Rodrigo
ri:
- Igual à
nossa? Duvido.
- Humpft! Vamos, eu quero
ir no banco.
- Tá. E eles?
- Não vou abrir
a minha boca. Você?
- Hummm [faz mistério]
- Ahh, e depois eu...
eu quero ir pro shopping. Sorry.
- Sozinha?? [sério]
.
Aline sorri, mexe nas
bochechas dele e diz:
- Não...
.
Os dois, abraçados,
atravessam a rua.
Enquanto ela entra no
banco, Rodrigo se aproxima dos repórteres, que estão nervosíssimos:
- Oi Rodrigo!!
Oi Rodrigo!!
- Oi...olha só...
que covardia hein? "Muuuito" obrigado. [irônico, tapinha nas
costas deles]
.
Aline sai do banco
sorrindo. Vê Rodrigo feliz, fala "vamos?" e entram num táxi.
Mas não se
deixa enganar: já sabe que, daqui por diante, não pode mais
sair de casa sem lenço
.
.
Principal
Arquivo