Ele (2)
.
Aline não poderia estar mais
muda. Era ele
. Rodrigo.
.
- Vem comigo, por favor. Só um dia,
só uma vez. Você vai ver que agora tudo é diferente.
Line. É muito importante pra mim. Eu tinha acabado de subir a sua
rua, ia deixar este bilhete com o porteiro, olha. Foi sorte demais encontrar
você, não percebe?
- [faz que 'não' com a cabeça]
- Line. Por favor. Quantos anos já
se passaram, pôxa...??
- Muitos...
- Pois é, muitos. Muitos, Line. Tá
tudo diferente agora, você está diferente, eu estou
diferente..! Então por que não, Aline? Por que não??
- ...
- Agora estamos crescidos, não tem
mais aquela minha bobeira
que só piorava as coisas. Juro. E você... poxa vida, Line,
você está tão diferente, tão... tão bonita.
Você não tem mais 16 anos. Então pra quê ainda
uma atitude de 16 anos?
- [sorri, cansada] Rodrigo, você
tem que entender que aquilo não era uma "questão de 16 anos".
Não era! Até hoje eu tenho esse fantasma... ou você
acha que eu não lembro mais daquilo tudo??
- Então se você lembra, por que
vai deixar a chance escapar de novo???? [exaltado] Aline, escuta!
Aline... amadurecer é isso. É você ver todas as besteiras
que fez antes e NÃO REPETI-LAS caso haja uma chance. E agora é
uma chance. Você vai agir como daquela vez? Vai fazer errado tudo de
novo como daquela vez??
- ...
- Olha, Line, eu sei que eu fiz errado quando
surgi do nada te pedindo em casamento. Foi um erro. E eu não vou
cometê-lo novamente. Quando a gente namorava, eu lembro de ter feito
você passar por inúmeras coisas desnecessárias, por causa
da minha própria imaturidade... eu estava gostando daquela situação,
você sabe... novato ainda, tudo é novidade... normal o deslumbre.
Agora não tem mais isso, Line.
- Ahã.
- Eu tô te falando, Line. Não
é brincadeira.
- Rodrigo...e o meu lado?? [exaltada]
Você em algum momento pensa no meu lado?? Hein??? Não,
você NUNCA pensa no meu lado!!!! Argh!!!! E cadê aquilo que
você falou, de ser aos poucos?? [incrédula]
.
Silêncio. Os dois respiram,
se acalmam.
..
- Aline. Eu só quero te mostrar como
as coisas estão diferentes. Vem comigo... POR FAVOR. [pausa]
Quer dizer... Posso só descer a rua com você?
- ...[de braços cruzados, desconfiadíssima]
- Eu vim a pé até aqui. A
gente desce e então você decide lá embaixo, até
lá você vai pensando se vem comigo ou não. Você
já está descendo mesmo, né? Então.
- ...Humm, hunf, tá, mas eu espero
que ninguém te reconheça.
.
Rodrigo melhora o astral na hora
com tal resposta:
- Opa, é esse o teste??
- Que teste, garoto??
- O teste que eu tenho que passar... Se
eu não for reconhecido, você me dá uma chance? Ou melhor
dizendo, você não me risca totalmente da sua vida??
.
Aline ri, meio revoltada. Revoltada
consigo mesma por não conseguir ser chata e cabeça-dura depois
disso. Que saco!! E Rodrigo aproveita:
- Esse seu riso foi um 'sim', esse riso
foi um 'sim'!!!
- [escondendo o riso] Hãã!
- Então... vamos lá, ninguém
vai me reconhecer...
- ... [faz cara de desconfiada]
Ha, aqui nesse bairro??
- Tá... ok, podem saber quem
eu sou, mas não vão parar pra falar comigo! É esse
o acordo, certo?? Só se pararem pra falar comigo!! [sorriso]
- Hum!
- Além do mais... [ele se
vira pra ela sorrindo] Além do mais não tem como eles
me conhecerem, fui seu namorado à distância! Eu não
vinha aqui, essa é a minha primeira vez...
- Ahh tá, ahh tá... é
por isso que eles iam te reconhecer né... Hahahaha!
.
Então se inicia um diálogo
risonho entre os dois. Coisa raríssima e que só foi vista durante
o período "pré-tragédia"
do namoro.
.
- Uééé... mas
é isso que eu sou, ora.
- Ah é??
- É.
- Não é nem um pouco
famoso não né? Imagina!!
- Nah, isso já é invenção
sua...
- Ahh tá! Minha???
- É, sua.
- Haha, tá bom. Ó, aquele
pirralhinho do outro lado da rua te olhou. Ai.
- Ué, mas será que todo
mundo que anda nessa rua não olha pra ninguém?? Ó,
olha lá, olha lá! Ele tá olhando *pra você* agora...
- Humpft!
- Ahhh, Line, te pegueeei! Ahahahaa!
E é bom ele não olhar muito não, hunf!!! Ou a famosa
aqui é você?? Hehehe...
- Tá maluco!! Hahaha... De
famoso já basta um!
.
Unbelievable. Eles estavam
se divertindo como na época do namoro. E detalhe: fazendo piada
da fama dele, que foi justamente o que causou todo o fim. Rodrigo estava
realmente mudado. E Aline, cada vez mais surpresa consigo mesma.
.
Nesta hora, Rodrigo arrisca uma
leve segurada na mão de Aline. E ela dá um pulo.
- Desculpa, eu...eu avancei?
- Não, é que...
[ri teeensa, coçando a nuca] a gente está em público,
Rodrigo.
- Até agora só passamos
por 5 pessoas, isso não é público! Aliás, adorei
sua rua... tranqüila... lembra a minha casa, quer dizer, a casa dos
meus pais... você chegou a ir lá?
- Hmmm, não. Mas passei na
porta uma vez. [sorriso]
.
Rodrigo sorri de volta.
- Queria que você tivesse
ido lá naquela festa, lembra? Que a gente ficou horas no telefone...
hahaha, ia ter sido muito legal...
- Hahaha! Eu lembro desse dia...
.
Aline sorri, um vento
estranho bate e ela de repente dá de ombros, murmura um "Dane-se!"
e segura na mão de Rodrigo. Ele entrelaça
seus dedos com os dela, uma coisa estranha "sobe" pela espinha de Aline
e, depois que Rodrigo beija sua mão, ouve:
- Obrigado. Obrigadão
MESMO, Line. Essa é a única coisa que eu peço para
fazer por mim. Depois é tudo por você.
.
Os dois param, a rua
acaba. Aline engole seco.
.
Continua...?
.
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