The irony of it all
..
Ela não vai se acostumar. Aline sabe que não vai se acostumar. Voltar a namorar Rodrigo soa como a coisa mais absurda do mundo - e ridícula. "Isso deveria ter se perdido junto com as espinhas dos anos 90", lamenta.
..
Ressuscitar o primeiro amor não parece uma idéia razoável. Não mesmo. Não deve ser saudável. Nem um pouco. Isso é uma loucura. Definitivamente. Não faz o menor sentido. De jeito nenhum.
..
Aline não se esquece do auê que foi aquele namoro. Durou 6 meses, mas pareceu 2 anos. Foi seu primeiro namoro. A única coisa boa foi esse negócio de namoro à distância . Acabou sendo uma experência que Aline passou a repetir sem parar.
..
Ela lembra que seus amigos do colégio não acreditavam - desde quando beijar a boca de um cara por 3 dias em São Paulo, voltar e ficar trocando cartas (cartas!! Que patético!!) e telefonemas no fim de semana é namorar?? Ahh, mas Aline nem ligava. Muito pelo contrário, adorava a idéia de ter um namorado "lá longe". Assim ela continuava tendo sua vidinha, indo às suas festinhas... seu cotidiano não ganhava nenhum "intruso". E ainda por cima o namorado vinha com um sotaque liiiindo de paulista! O que mais ela poderia querer??? Um mané chato estudando no mesmo colégio, e que ela teria que encontrar todo dia no recreio??? Arghhh, jamais!! Aline não agüentaria duas semanas.
..
Mas o Rodrigo... ahh, o Rodrigo era paulista!! E lindo! Ahh, e como se divertiam... Ele a fazia rir, coisa essencial para Aline. Ela, aliás, era apaixonadíssima por ele - óbvio. Não dava para ser diferente.
Mas aí passaram-se 3 meses. E no meio do namoro Aline descobriu que ele era.... bem, que ele era.... a única coisa que ela não poderia aceitar no mundo: jogador de futebol. E em ascenção.
..
Aline foi criada pela mãe para namorar qualquer um - menos um jogador de futebol. E isso é muito sério. Seriíssimo. Desde pequenina lembra de sempre ouvir: "Minha filha, não tenha preconceito com renda, classe, cor... nada disso importa. Só não se envolva com jogadores de futebol."
..
Aline lembra com detalhes do dia em que *realmente* entendeu e viu sentido em tal conselho: estavam na Praia do Pepino quando Renato Gaúcho chega, causando uma comoção entre as mulheres. Todas querendo desfilar na sua frente, todas cavando ainda mais o biquíni. Aline lembra exatamente como foi, pois ficou muito assustada. Foi a primeira vez que viu um homem atrair tanta atenção feminina. Pela primeira vez testemunhou cenas de vulgaridade explícita. Viu, aos 12 anos, mulheres em situações ridículas. Viu o próprio Renato Gaúcho se achando o garanhão, e dando cada vez mais corda para elas. Viu os amigos do Renato Gaúcho fazendo o mesmo - e ganhando, na aba, a atenção de algumas poucas. Pela primeira vez Aline se perguntou porque as mulheres são tão idiotas...
..
E sua mãe ensinava:
- É o deslumbre. Só porque ele joga futebol. É um mundo muito podre, você tá vendo o que eles causam? É a fama também... mas principalmente a profissão, Aline. É o que ele faz que atrai essa mulherada toda. Vê se o advogado mais famoso do mundo atrai essas coisas... ou um engenheiro... não. É a bola... a maldita bola.
- Mas... por quê?? Por quê especificamente *eles*, jogadores de futebol?? Por que não atores, músicos?? Não são famosos também?? Não têm dinheiro também?? Não é isso que elas estão querendo??
- Ahh, sim, mas não só dinheiro. Poder também, minha filha... notoriedade para elas próprias... Mas, claro, isso também existe com atores, músicos e famosos em geral. Só que com jogadores de futebol *em especial*, é muito pior. Sabe por quê?? Porque eles são burros, minha filha. São humildes, geralmente não têm onde cair morto. E enriquecem muito rapidamente. É aí que elas deitam e rolam.
- Hummm...
- São todos enganados por elas. Fááácil, fááácil... afinal o cara vem lá do quinto dos infernos, fica famoso, vem uma loira, e você acha que acontece o quê?
- O quê?
- Ele larga a namoradinha que conhecia antes. Na hora. Ou às vezes nem isso. Mantém alguém para lavar a roupa e sai com as loiras. Esse é o caso do Renato Gaúcho. Ele tem uma mulher oficial, e outras 3 ou 4 na reserva... E não precisa ser lindo não!! Basta jogar bola. Se for bonitinho, então.... iihh!
..
Aline ficou horrorizada. Não desgrudava os olhos de Renato Gaúcho por nenhum segundo. Aquela imagem a enojava. E viu que realmente sua mãe estava certa. Aline não a obedeceu cegamente só porque foi ensinada assim - ela concordou com todas as letras, viu lógica em tudo que lhe foi dito. Achou certíssimo isso, e desde então passou a nutrir um único e tremendo preconceito em sua vida: contra jogadores de futebol. Não chegaria nem perto de um - nunca.
..
O bizarro é que nem ninguém nem Rodrigo sabiam desta "questão de ética" pessoal que Aline tinha. Pra quê ficar contando, não?? E também não era o caso de interrogar todos os homens que conhecia, afinal ela era ainda muito pirralha e seu circuito de festas se limitava às imediações do colégio.
..
(Até ir para São Paulo...)
..
Mas então... *COMO FOI* que Rodrigo simplesmente 'ADIVINHOU' isso e resolveu ficar quietinho quando conheceu Aline????? COMO??!? COMO ELE SABIA????? Dizem que há sempre um sexto sentido para 'as coisas do amor', mas Aline acha tudo isso muito ridículo e não compra a idéia. Nem mesmo Rodrigo sabe explicar o que o fez dizer que era apenas um 'vestibulando de Administração na FAAP' . Ele apenas afirma sua "certeza" (?) de que Aline não ia querer nada com ele caso soubesse a verdade. How weird is that??
..
De fato, o namoro durou apenas 3 lindos meses até a tragédia: Aline, numa manhã de sábado, *quebra* o controle remoto da sua TV ao dar de cara com o mais novo "fenômeno" esportivo: O SEU NAMORADO! Ela quase morre. Não dá 2 minutos e o telefone começa a tocar incessantemente:
- Aliiiine, você tá vendo???
- LineLineLine, é esse daííí??? Me conta!!!
- Viu?? Viu??? Sabia! É ele, não é???
- E agora, Aline??
..
E agora?? E agora?? Foi a única frase sábia que Aline ouviu naquela época.
..
O que se seguiu "pós-tragédia" foram mais 3 meses infernais de namoro, Aline não gosta nem de lembrar. Brigavam sem parar, estavam se odiando cada vez mais - até que o ápice foi atingido ao ler a convocação de uma certa seleção no jornal... Aí não dava mais. Não dava. Aline não era paga pra isso. Além de vê-lo chutando bolas, dando aquelas entrevistas horroroooosas em intervalo de jogo, aparecendo em mesas redondas estúpidas, ainda tinha que aturar editoriais 'cútis' com loiras *e* a falação dele sobre as fãs...!?!?!?! Ahhhh, não!!!! Nem pensar!!!!! Impossível medir o quão doloroso isso foi para ela. Esses três meses devem ter sido o maior (e único, ela ressalta) sacrifício que Aline já fez por um homem. E nunca mais. NUNCA MAIS.
..
Ao saber da "novidade convocativa" , Aline só esperou ele ligar (afinal ela era PROIBIDA de ligar para o próprio namorado de tanto assédio que ele recebia em casa - era um tal de 'a sua namorada ligou' 10 vezes por dia!!!) e acabou tudo. Na hora. Não pensou nem meia vez, quanto mais duas!
..
Anos se passaram até hoje.
"Praticamente uma década...!" , Aline se espanta.
..
Apesar de até hoje ela não conseguir contar à mãe sobre o namoro, algumas coisas realmente estão mudadas:
- o auê todo em cima dele diminuiu consideravelmente, thank God;
- ele está bem menos narcisista e deslumbrado, finalmente descobriu que o mundo não gira ao redor dele;
- ele está infinitamente mais discreto e respeitoso com relação aos sentimentos de Aline sobre sua "profissão";
- e ela, Aline, está bem mais tolerante à ironia que é sua própria vida.
..
Marina
Principal
Arquivo
Hosted by www.Geocities.ws

1