Ele (1)
.
Aline se dirigia calmamente ao banco numa manhã
dessas de calor pré-verão. Acabava de sair de casa,
de óculos escuros, "sonada" como diria um querido amigo. Olhava distraidamente
para a calçada, às vezes para as árvores... Sabe-se
lá por onde vagava o seu pensamento - provavelmente estava muito distante
dali, a ponto dela se assustar ao ouvir seu nome berrado:
- Aline!
.
Em micromilionésimos de segundo, antes
de virar, Aline estranha: uma voz de homem, e que não era a de seu
pai, nem do porteiro, na sua rua, a 10 metros de casa??? Ela não conhece
nenhum vizinho...bom, pelo menos nenhum vizinho com uma voz carregada e
diferente como esta que ouviu. Essa voz, essa voz...humm..?
.
E então virou. Virou e quase caiu dura
no meio da rua, de tamanha síncope histérica. Era ele.
ELE!!!! Rodrigo."Meudeus meudeus meudeus, eu-sabia-que-isso-alguma-hora-ia-acontecer
-eu-sabia-eu-sabia-eu-sabia-socorro-o-que-é-que-eu-faço-agora-calma-respira-Aline"
era o que estava sendo quase gritado por ela. COMO DIABOS ELE TEM A
CAPACIDADE INSANA DE APARECER AQUI???? Aline o queria tão distante...
E ELE VEM "TRABALHAR" NO MESMO BAIRRO, A DUAS RUAS DALI!!!
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Que desespero, que desespero... Aline não
conseguia andar, sentiu seu corpo todo tremer (é assim que todos
ficam ao verem seu primeiro amor?) e quase chorou.
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Ok, Aline sabia que ele estava "trabalhando"
ali por perto (tanto que evitava ao máximo pisar no que ela chama
de ponto de ônibus maldito), Aline sabia que portanto ele
estava tendo que morar na cidade (tanto que sempre que vai ao shopping,
a trabalho
ou não, fica a olhar para os lados, constantemente) mas o que
ela *não* sabia é que ele aproveitaria isso para desenterrar
suas cartas antigas e procurá-la no mesmo endereço... DE
OITO ANOS ATRÁS!!!
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É de chorar... quando ela pensa nessa
história toda e lembra do e-mail que Vivi mandou há uns 6
meses avisando da "mudança de trabalho" dele, ela sente vontade de
chorar... "É ele... é ele..."
.
Agora, na rua, Aline não ia chorar.
Começou a andar mais rápido, como se não tivesse sido
com ela. Mas não adiantou, ele já tinha a reconhecido e esboçava
aquele sorriso maravilhoso. Aline tremia, e já pensava onde diabos
ela ia arranjar um lenço... Teria algum na bolsa? Não, talvez
não, ela não estava resfriada, e odeia lenços de papel,
então como---
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- Hei, Aline...! Hei... [tocando
no ombro dela]
- Hã, é, hã? Hã,
ah... [tosse tensa, voz engasgada, o desastre completo foi salvo pelos
óculos escuros] Cof!
- Imaginei que você ainda morasse aqui...
[sorriso assassino]
- ...
- Acredita que eu demorei pra encontrar?
Mas não tinha noção de como era tão perto do
Fl... [sorri, silêncio respeitoso à dor dela. Irônico
da parte dele, pensaria Aline]
- Cof! Cof! [ataque de tosse 100% psicossomático]
O que você... tá fazendo aqui falando comigo??
- Ah, eu... eu vim te ver.
- Pra quê? Não vou falar com
você em público.
- Aline... [ele a segura pelo braço,
fazendo-a parar]
.
Aline se vira, os olhos tremiam ao tentar
encarar os dele. Why, oh, why??? Por que quando você acha que está
tudo certo na sua vida SEMPRE ressurge um das tumbas??? Muito certamente
ela nunca teria sentido seu coração disparar tanto como agora...
Se bem que quando o conheceu também foi assim... não, não...
aquele dia que ela descobriu *a* "tragédia"
também foi pesado... e aquela vez do casamento?? Brrr!! Ahh,
e não podemos esquecer do dia seguinte à notícia dada
por Vivi... São tantos os dias, tantos os tremeliques dela perto
dele, que Aline só chega a uma conclusão: se desta vez o coração
está ultra-disparado, é porque na próxima vai ser
pior.... Hã!
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- Rodrigo... por favor... [dor]
- É sério, Aline. É
sério. Foi difícil te achar, tão difícil ver
você...
.
Aline suspira e meio que ri da ironia:
- Em compensação a
recíproca *não* é verdadeira.
.
Ele entende a indireta, coça a
nuca, sorri matadoramente de volta:
- Ainda bem.
.
Cretino. Desgraçado. E lindo,
lindo. Rodrigo devia ser o cara mais charmoso a ter passado pela vida
de Aline. E ela foi tão louca por ele... tão louca que o
jogou fora, sem cerimônias. "Não, calma, Aline, não
se arrependa agora, do it later...vamos lá..."
.
Ele continua.
- Mas então... que bom
que eu te vi. [sorriso dilacerante] Você tá tão
bonita. Cada vez mais bonita, sempre que eu te vejo.
- Claro, não sou mais a adolescente
desajeitada e quatro olhos que você conheceu... [ri, visivelmente
tensa]
- O quê? Line-Boba. [sorriso
que quase faz Aline chorar]
- Rodrigo... Pára.
- O quê?
- Eu... eu vou chorar. [ela ri
e sente sua voz sumir]
- Por quê?? Não chora.
- Então pára.
.
Aline respira, Rodrigo está
parado na sua frente olhando-a fixamente. (Como esse garoto gosta dela...)
Ela olha para ele, vê o menino pelo qual se apaixonou, e doeu nela
ver que aquele primeiro olhar que trocaram depois do primeiro beijo ainda
está ali, nele. Que merda. Aline sorri para ele, vê que
daqui a 3 segundos vai perder o salto e chorar, mas...
- Você ainda está
igualzinho... [olhos marejados] você ainda está com
aquela cara.
- Haha, nããh... nem
um pouquinho diferente, tem certeza? [num sotaque paulistano de arrepiar]
- ... [sorrindo e fazendo que
'sim' com a cabeça e prendendo o choro]
- Bondade sua...
- Não, tipo, veja bem...
[ela funga e engole o princípio de choro emocionado
- por quanto tempo ela vai conseguir é um mistério...]
se não fosse pelo princípio de barba, ainda te daria uns
19...
[riso mútuo]
- É né...
ihh, é, você não gosta muito de barba por fazer...
- Hã?! [assustada]
Como você sabe?
- Ué... você não
tinha me contado??
- Não!! Nunca!! Eu só
descobri que sou alérgica ANOS depois de ter te conhecido...! Nunca
te contei...
- Engraçado... tinha essa
sensação...
.
Rodrigo sempre foi de ter "essa
sensação" de inúmeras coisas com Aline. Incrível.
Ele adivinhava zilhões de coisas sobre ela, e da forma mais natural
possível. Desde a banda favorita até agora, a "barba".
Weeeeird...
.
- Mas Rodrigo... pára,
péra. Não vamos nos distrair. O que você veio fazer
aqui?? [séria]
- Ver você, já
disse. Era algo que eu já queria fazer há um certo tempo.
Você sabe que eu poderia ter ido pra qualquer outro ti... "lugar"?
Recebi muitas propostas, mas eu escolhi aqui. Perto de você. [ele
se aproxima de Aline] Eu sou teimoso, não adianta, Line...
[ele ri] A gente tem que ficar junto, mas me escuta. [já
prevendo a manifestação dela, ele segura seus ombros e mexe
em seu rosto] Escuta, Line. Não vou forçar nada. [Aline
não fala, mas faz uma cara de deboche, incrédula] Line,
é sério, me escuta... Escuta. Line. Eu não vou fazer
que nem da outra vez... quero recomeçar do zero, agora pra valer,
com você. Aquela vez foi do nada, eu não tive o menor respeito
e...
- Ha, e *agora* não
tá sendo do nada??? [sarcástica]
- Não, não está.
Eu vim pra cá por sua causa. Escuta. O auê daquela época
acabou.
- Isso nunca acaba, Rodrigo.
- Acaba, acaba.
- Ahh, acaba? AHÃ!!!
- Aline... puxa, Line. Puxa
vida...
- A gente pode discutir isso
a vida inteira, você me conhece.
- E você também
me conhece. Você também me conhece, Aline. E você sabe
que eu não ia brincar com a minha carreira assim à toa. Não
por qualquer coisa. E foi por você. Foi por você que
eu decidi vir pra cá. Foi por ter certeza absoluta de que eu estaria
fazendo a coisa certa. E dessa vez não vou atropelar os fatos. Não
quero atrapalhar em nada a sua vida, muito pelo contrário. E eu
sei que vai dar certo agora. Você vai ver. Ninguém me falou
que ia ser fácil. A gente vai aos poucos, não tenho mais
pressa. Sorry, but...[sorri enquanto segura as mãos dela, olhando-a
nos olhos] É você, Line. É você.
Continua?
.
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