JÚPITER E ALÉM DO INFINITO

   O Homem venceu a máquina.

   David Bowman está sozinho em uma nave vazia, a milhões de quilômetros do berço original da Humanidade. É hora da viagem final.

   Entre as órbitas dos vários satélites do maior planeta do sistema solar, Júpiter, a minúscula Discovery encontra o Monolito, flutuando em mais um balé para a câmera. Desta vez, a música, eletrônica, fria e arrepiante, é do compositor Ligeti.

   Lentamente, vemos uma das comportas da Discovery se abrindo. Dela sai, pela última vez, David Bowman em sua cápsula espacial, em direção.....do quê?

   Do seu destino. É hora da mudança. O Homem fugiu da fome em uma savana para a dominação de seu planeta, do espaço e para a criação de uma inteligência artificial tão esperta e letal quando a sua própria. Passadas todas estas etapas, é hora do encontro final.

   Do meio da escuridão do espaço, uma espécie de corredor de luz se abre e por ele entramos na maior viagem de todos os tempos. A sequência do "Portal Estelar" é inesquecível, é a "abertura do Mar Vermelho" dos filmes espaciais. Vamos tão rápido que a própria luz se distorce, explodindo em miríades de cores, formas e matizes. O rosto de David Bowman também se distorce a ponto de se tornar irreconhecível.

   Ele não viu nada ainda.

   Um quarto de hotel.

   Branco, imaculado, limpo.

   Parada dentro do quarto, a cápsula da Discovery. Dentro dela, um David Bowman visivelmente mais velho e tremendo de medo tenta entender o que está acontecendo.

   Ele agora está fora da cápsula, ainda vestindo seu traje espacial. Ele se olha no espelho, não consegue acreditar que esteja vivo. Sem dúvida acha que está louco.

   Sentado em uma mesa, um velho vestindo um casaco de lã. David tenta ver quem é. O velho se volta e vemos que ele é David Bowman. Cabelos brancos, pele enrugada, os mesmo olhos azuis frios. Ele pensa por um momento. É como se se lembrasse do antigo David parado ali no corredor, há....quanto tempo?

   Não importa.

   Ele se levanta, passa pelo mesmo ponto onde estava parado antes e entra na suíte. Senta-se em uma mesa e começa a comer. Vai beber vinho e acaba derrubando a taça no chão. Quando vai se abaixar para pegá-la, percebe que há alguém deitado na cama.

   É ele mesmo, muito mais velho.

   A sequência da suíte é talvez a mais surrealista da carreira de Kubrick. O modo como o tempo passa é brilhante. As mudanças de câmera são sempre iniciadas pelo ponto de vista de um David Bowman cada vez mais velho. Quanto tempo ele teria passado lá? Alguns minutos? Horas? Meses? Anos? Ou este é um lugar em que o tempo como conhecemos não existe?

   O que é a suíte? Um hotel em meio às estrelas? Um zoológico extra-terreno?

   É um casulo. É aqui que David Bowman fará sua metamorfose para o próximo estágio da Humanidade. Assim como aquele antigo primata descobriu que poderia modificar o mundo em que vivia e se transformar em um novo ser, é hora do Homem deixar a casca de seu próprio corpo e se tornar um com as estrelas.

   O que era o Monolito? Uma ferramenta? Um ser? Um companheiro super avançado de Hal?

   Era uma metáfora. O Monolito representa o desconhecido, a mudança, o novo estágio a ser alcançado.

   Uma nova era está apenas começando...

 

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© João Solimeo, janeiro de 2001

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