
O Filme
por João Solimeo
É a pré história.
Uma paisagem árida, desolada. O sol brilhante pinta de dourado as savanas da Terra pré-histórica. Não há música, apenas sons. Vemos alguns animais ferozes. E também vemos um animal fraco, claramente não muito adaptado a seu mundo. Um ser que ainda não é bípede, mas também não é quadrúpede. Ele vive em grupos e se alimenta do que consegue pegar com suas mãos ainda não desenvolvidas. Come insetos, mato e é presa fácil para predadores como os leopardos que vivem na região. Também dividem a terra com seres quadrúpedes parecidos com capivaras, mas deles não se alimenta. Não sabe que podem servir de alimento. Freqüentemente luta com um grupo rival, aos gritos, sob o uso da única fonte de água do local.
Este é o Homem. Ou melhor, é apenas uma promessa do ser humano. Aparentemente não é um ser que vai durar muito tempo.
Mas, uma manhã, enquanto o grupo todo está dormindo, um deles desperta do sono e tem sua atenção atraída por alguma coisa. Seus olhos são a única coisa que nos mostram que aquele não é um animal qualquer. Eles transmitem curiosidade, inteligência; mas, agora, eles demonstram uma sensação muito mais comum a todos os seres: medo. Aos gritos, ele começa a acordar o resto do bando que, como ele, se assustam e começam a gritar desesperadamente.
Em meio às
cavernas dos primatas está uma figura negra, fria, geometricamente perfeita.
Claramente, aquilo não é deste mundo.
O Monolito.

É assim que Stanley Kubrick começa o melhor e mais influente filme de "ficção científica" da história. Coloco entre aspas porque "2001 - Uma Odisséia no Espaço" é muito mais do que isso. É um filme sobre a Humanidade. É um filme que conseguiu, quase que como um filme mudo, assombrar e deslumbrar espectadores por mais de 30 anos servindo-se quase que somente de imagens e música. Fruto da colaboração do mestre da ficção científica Arthur C. Clarke e do gênio cinematográfico Stanley Kubrick, "2001" já foi amado, odiado, considerado pedante, pretensioso, obra-prima, tudo. Mais que um filme, "2001" é um poema visual e sonoro para ser degustado com paciência e uma mente aberta.
O que seria aquele monolito negro? Os primatas não conseguem entendê-lo e dele se aproximam relutantemente, aos pulos e gritos. A música, ouvida pela primeira vez no filme além da abertura, é eletrônica e estridente, tão fria quanto aquela aparição negra no centro da tela. Um deles, mais curioso, se aproxima mais e chega a tocar no monolito de leve, antes de se afastar novamente de medo. Mas ele é curioso e retorna. E o toca novamente.

Corte.
A vida parece ter voltado ao normal para os primatas. Continuam passando fome, comendo plantas, andando em bandos.
Até que um deles se aproxima dos ossos expostos de um quadrúpede que morreu nas redondezas.
Ele o observa atentamente. Há algo ali que o está intrigando. O que seria? Relutantemente, ele pega um dos vários ossos espalhados pelo chão e começa a brincar com ele. Pode-se perceber claramente por suas atitudes que ele está fazendo aquilo pela primeira vez.
Com confiança crescente, o primata começa a segurar o osso com mais força em sua mão até que, magicamente, ele se torna uma extensão mais forte de seu braço e desce com força sobre o esqueleto à sua frente.
Intercalando genialmente planos do primata quebrando os ossos com cenas de quadrúpedes vivos sendo atacados, Stanley Kubrick nos mostra, sem dizer uma palavra, um dos momentos de "revelação" mais impressionantes do cinema. Com a famosa "Assim falou Zarathustra", de Richard Strauss tocando na trilha sonora, vemos o primeiro momento em que o Homem descobriu o uso das ferramentas para mudar o mundo à sua volta. Ele não depende mais da sorte para conseguir se alimentar. A cena é filmada de um ângulo baixo, em câmera lenta, que dá aos movimentos do primata uma significação quase épica, divina.
Começa o domínio do Homem sobre o planeta.

Esta primeira parte toda do filme já serve para nos mostrar que estamos para ver um filme como nenhum outro feito antes. O ritmo é lento, quase parado. Kubrick enche nossos olhos com planos longos, estáticos. A movimentação da câmera é quase nula e, a não ser nos dois momentos de "revelação", o monolito e a ferramenta, a música é inexistente. Não há diálogos nem narração em off. O renomado crítico americano Roger Ebert citou que a genialidade de Kubrick está mais no que ele não diz do que no que ele diz. O espectador não se pode dar ao luxo de sentar e simplesmente esperar que tudo seja digerido para ele.
O que o Homem logo aprende é que uma ferramenta tem vários usos. No outro dia em que o grupo começa a tradicional guerra de gritos com o grupo rival com relação à água, algo extraordinário acontece: aquele osso que se transformou em uma ferramenta para caçar de repente é usado para golpear com toda força um membro do grupo adversário, que cai no chão. O agressor, quase tão assustado quanto a atingido, parte novamente para cima e acaba de destruir seu rival a golpes de osso. Quase que em êxtase, ele grita e, num movimento de libertação, lança o osso no ar.