O osso sobe, sobe, sobe e, quando começa a descer, no flash-forward mais fantástico da história do cinema, se transforma em uma nave espacial a vagar pela atmosfera terrestre. A significação é óbvia mas tocante: a partir do momento que o Homem aprendeu a dominar a natureza, o próximo passo é a saída da terra e a conquista do espaço.

 

   Começa então a segunda parte do filme. Assim como a primeira, é quase desprovida de diálogos. Por outro lado, a música inunda nossos ouvidos com o "Danúbio Azul" de Johann Strauss. Acompanhamos fascinados a viagem de uma pequena nave até a estação espacial que está girando permanentemente em órbita terrestre.

   Ao contrário do frágil e assustado primata da primeira parte, aqui vemos o Homem como o senhor do seu domínio. Ao som da valsa de Strauss, assistimos ao balé das leis da mecânica celeste levar esta nave em uma viagem de rotina até uma das moradas dos seres humanos fora de seu planeta natal. Dentro da nave, há apenas um passageiro, mas a ele é dado o tratamento especial que teria qualquer passageiro de um avião de primeira classe nos dias de hoje. Podemos acompanhar o trabalho aparentemente fácil dos pilotos na cabine de comando e da "aeromoça" que os serve.

   Com esta seqüência toda do atracamento com a estação espacial, novamente Kubrick vai na contramão do que seria "normal" fazer no cinema e não parece ter a menor pressa, nos mostrando tudo nos mínimos detalhes. A coisa toda é mostrada com tamanha beleza e facilidade que por um momento nos esquecemos que não estamos assistindo a um documentário da NASA sobre a estação espacial. Fica difícil de se lembrar que tudo não passa de maquetes e efeitos especiais. E mais, este é um filme que foi lançado em 1968; nesta época, a Nasa não havia sequer colocado um homem na lua ainda.

   Mas o objetivo de Kubrick em ser tão lento e "casual" é exatamente dar ao espectador a sensação de que o que estamos vendo é a rotina do Homem do século XXI. Agora que finalmente chegamos à ele, os céticos podem estar dizendo que era tudo mentira, mas será a realidade tão distante assim da ficção? Não há agora mesmo, lá em cima em órbita terrestre, uma estação espacial multinacional girando ao redor do planeta? Não temos ônibus espaciais subindo e descendo ininterruptamente até o espaço e voltando? Tudo bem, é tudo em escala menor (e o que não é, em se tratando da vida real?) mas diria que o filme de Kubrick, se errou, não errou por muito. E, novamente, se for se pensar na época em que foi escrito e realizado, suas previsões eram incríveis.

   Finalmente, após mais de 30 minutos de filme, há uma linha de diálogo. Acompanhamos a escala do cientista Heywood Floyd pela estação espacial em direção de seu destino final, a Lua. E, francamente, pode-se dizer que o que é falado entre os personagens, apesar de ser parte da história do filme, no fundo no fundo não tem tanta importância assim. Em um encontro cheio de meias verdades com um grupo de russos, Floyd acaba por explicar que está indo à Lua e dá a entender que existe um problema na base americana de Clavius. Ele muda de nave e o maravilhoso balé continua, desta vez acompanhando sua viagem até a superfície da Lua.

   Novamente, aqui podemos ver seres humanos em suas rotinas diárias, agora sobre outro mundo. Além das bases, podemos ver astronautas trabalhando na superfície lunar, fazendo vários serviços, auxiliando na descida da nave de transferência, etc. Há uma curiosidade com relação à trilha sonora. Kubrick havia usado a música clássica durante a montagem como uma trilha provisória e contratou o compositor Alex North para fazer a trilha sonora do filme. North realmente chegou a compor a música, mas quando o filme ficou pronto Kubrick percebeu que a trilha clássica casava muito melhor com as imagens e decidiu continuar com ela. Além disso, deu ao filme um ar "atemporal" maior ainda. Ao ouvirmos a tradicional valsa de Strauss, é como se conseguíssemos aceitar com mais naturalidade as cenas fantásticas que acontecem na tela.

   Em Clavius, o Dr. Floyd faz uma conferência com o pessoal da base e diz que a "descoberta" deve ficar sob o mais completo sigilo, devido à probabilidade que possa haver tumulto na Terra se a verdade for descoberta. Assim como na pré-história, parece claro que um grupo ainda tem uma arma para usar contra o outro...

   Floyd entra em uma espécie de ônibus lunar e, enquanto come sanduíches de atum e galinha com os outros ocupantes do veículo, começa a comentar sobre a tal descoberta, que teria sido enterrada deliberadamente há 3 milhões de anos.

   Assim como na pré-história, a cena é surreal. Em uma cratera escavada na Lua, em meio a luzes artificiais e um ambiente totalmente extra-terreno, o Homem tem seu segundo encontro com o Monolito. Ele não é mais aquele primata desesperado, pulando e gritando. Mas pode-se perceber, mesmo abaixo daquela roupa espacial, que está quase tão assustado quanto. Mas memo assim eles tentam agir de maneira organizada. Como turistas, chegam até a tirar uma câmera fotográfica e começar a tirar fotos em frente ao monolito negro. De repente, o Sol, pela primeira vez em 3 milhões de anos, alcança com seus raios o interior da cratera, iluminando o Monolito.

   E, como em um grito, ouve-se um som de altíssima frequência que quase ensurdece os astronautas. Eles tentam pateticamente tampar os ouvidos mesmo vestindo capacetes. Floyd percebe que o som deve estar saindo do monolito e olha para ele.

   O alarme havia soado.

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