Missão Júpiter.

   A nave Discovery, longilínia e delgada como aquele osso primeiro jogado ao ar pelo homem pré-histórico, cruza o vácuo do espaço ao som do "Adágio da Suíte do Ballet de Gayane", de Aram Khachaturian. A música é calma, sóbria, assim como a vida a bordo da imaculadamente branca e estéril Discovery. Dentro do globo que serve de lar para os astronautas, Frank Poole (Gary Lockwood), corre despreocupadamente pelas paredes, ou chão?, ou teto? do módulo de comando, se exercitando. Aqui o Homem está finalmente em um mundo próprio, artificial. E não está sozinho.

   Onisciente, e controlando a tudo e a todos de maneira sutil e discreta, está o fruto da criação do Homem, uma nova inteligência, autônoma, fria, artificial: o computador de bordo HAL 9000.

    O cenário e a direção de arte do filme são brilhantes. É interessante notar durante todo o filme a relação entre as linhas horizontais e verticais (o monolito, o osso, a Discovery) e os círculos e esferas (os planetas, o comando da Discovery e, principalmente, HAL). Hal, aliás, chega a ser uma mistura do dois: seu "olho" vermelho se encontra exatamente no meio de um retângulo negro assim como o monolito. É como se Hal fosse o "olho" do monolito. O Homem conseguiu criar uma inteligência igual ou até superior à sua, e vai agora pagar o preço por isso.

   A Discovery é habitada, além de Hal, por dois astronautas: Frank Poole e David Bowman (Keir Dullea). Frank e David são o máximo da frieza possível: calmos, analíticos, quietos. Quase nunca falam e realizam suas tarefas rotineiras de maneira repetitiva e previsível.

   Para nos apresentar à tripulação, à Hal e à Discovery, Stanley Kubrick faz uso de um telejornal da BBC (apresentado em telas de TV retangulares como o monolito) em que um jornalista entrevista a tripulação e Hal. É aqui que ficamos sabendo das funções do computador, que é manter a nave funcionando perfeitamente e cumprir sua missão, e os pensamentos dos tripulantes com relação à seu companheiro artificial. Eles o consideram como outro membro da tripulação.

   Já Hal diz ao jornalista, com sua voz suave e pausada, que a série de computadores 9000 é simplesmente incapaz de errar. O que se pode notar logo de início, na verdade, é que a personalidade de Hal parece ser a mais humana da nave, comparado com Bownman e Poole. Há até um momento em que Poole recebe uma mensagem de aniversário dos pais através de um dos monitores da nave. Ele a assiste deitado em sua cama e não demonstra um momento sequer de emoção diante dos parabéns dos pais. Hal, no entanto, é o primeiro a dizer:

    "Feliz aniversário, Frank".

    E é então que tudo começa a dar errado. Numa cena bastante estranha, Hal chama Dave e pergunta se ele não tem nenhuma "reserva" com relação à missão. Sob o olhar frio dos olhos azuis de Bownman, Hal começa a enumerar suas preocupações com relação à missão: o fato de que os cientistas haviam sido treinados separadamente e colocados em hibernação antes da nave partir, o sigilo todo a respeito da missão e os boatos de que ela tinha a ver com algo que foi encontrado na superfície da Lua, alguns meses antes.

   Bownman não liga para as preocupações de Hal, e é então que Hal anuncia a falha na antena AE-35, que mantém a nave em comunicação com a Terra. Em mais uma longa sequência, Kubrick mostra detalhadamente a viagem de Poole dentro de uma das cápsulas até a antena danificada, para substituir a parte com defeito. A cena é ao mesmo tempo interessante e sufocante. Não há música alguma e a cena inteira é preenchida apenas com os vários "bips" eletrônicos da cápsula ou pela respiração ritmada de Poole dentro do traje espacial. A cena também passa a imensidão do espaço e o quanto o Homem é insignificante diante dele, apenas um mero pontinho em meio às estrelas frias e distantes.

   Hal estava errado. Não há problema algum com a peça.

   "Sim...é confuso..." - diz um Hal claramente descrente do quee está acontecendo. Ele então recomenda que a peça seja colocada de volta na antena até que o defeito se pronuncie. Bowman e Poole se comunicam com a Terra, que dá a eles permissão para tal mas acrescenta uma nota preocupante: Hal havia realmente errado. Ele não teria como prever aquele defeito inexistente. Quando perguntado sobre o assunto, Hal simplesmente responde:

   "É muito simples. Isso tudo pode ser explicado como sendo um erro humano."

   Bowman e Poole entram em uma das cápsulas, desligam o rádio e tentam resolver o que fazer com o computador defeituoso. É um dos únicos momentos do filme em que os dois demonstram uma emoção mais palpável. Mas ainda assim não contavam com a inteligência de Hal que, sem que eles percebessem, está lendo seus lábios o tempo todo e descobre que eles planejam desligá-lo. Para um computador, o desligamento equivale à morte.

   Apesar de tudo, Poole decide ir lá fora novamente para repor a peça na antena. É quando comete seu erro fatal. A cena do assassinato é uma das mais rápidas de todo o filme. Tão rápida, na verdade, que por um momento você não sabe o que aconteceu. Kubrick majestosamente consegue com apenas algumas cenas rápidas nos mostrar a cápsula se voltando sozinha no espaço e avançar sobre Poole, que flutuava indefeso a alguns metros. Vemos em seguida Dave entrando na outra cápsula, ingenuamente ainda perguntando a Hal o que teria acontecido com Poole. Bowman sai na segunda cápsula atrás do corpo de Poole, que está girando indefinidamente no espaço.

   Ele está morto.

   Enquanto isso, dentro da nave, outros assassinatos estão ocorrendo. Novamente, Kubrick nos mostra tudo sem que se fale nada. Hibernando em suas cabines congeladas, os cientistas em animação suspensa são vítimas fáceis de Hal, que simplesmente desliga os aparelhos que os mantinham vivos. Um a um, os gráficos vão nos mostrando suas funções vitais parando até que estejam todos mortos.

   Bowman, lá fora, com o corpo de Poole seguro entre as garras da cápsula, ainda não consegue acreditar no óbvio.

   "Abra as comportas, Hal".

   "Sinto muito, mas não posso fazer isso. A missão é importante demais para que eu deixe vocês arruiná-la".

   É o Homem se descobrindo vítima de sua própria criação tecnológica. Lá está ele, preso dentro da cápsula espacial, sem seu capacete, a apenas alguns metros da nave e completamente indefeso diante do computador. Quem vencerá? Homem ou máquina?

   Tentando uma manobra desesperada, Dave acaba por lançar o corpo inerte de Poole novamente ao espaço e manobra a cápsula até uma comporta de emergência na lateral do módulo de comando. Usando os braços artificiais da cápsula, ele abre a comporta, coloca a cápsula em posição e aciona os explosivos de emergência. O filme é tão genuinamente científico que, vista de fora, a explosão não tem som algum, visto que ocorre no vácuo. O corpo de Dave é lançado violentamente para dentro da comporta de emergência, bate do outro lado e, rapidamente, aciona o fechamento da porta e a entrada do ar. Quando o ar vem, o silêncio é trocado pelo sopro bem vindo da lufada de ar que salva a vida de David, e sela o destino do computador da nave.

   Segue-se um dos diálogos mais longos de todo o filme. Ou melhor, um monólogo, em que vemos o computador Hal 9000 tentar dissuadir David Bowman, todo vestido com um traje espacial, de desligá-lo. Mas é em vão. É o momento do Homem tentar tomar novamente as rédeas de seu destino. Mas não é tarefa fácil. Bowman precisa entrar no cérebro do super computador, um cenário maravilhosamente  desenhado de células de memória transparentes todas enfileiradas em um dos compartimentos de gravidade zero da nave. E o mais difícil, na verdade, de todo processo, é o ato de "matar" o computador em si. Hal fica o tempo todo apelando para que David não o desligue.

   "Pare" - ele diz - "Pare, Dave.....Tenho medo....tenho medo"

   Um computador com medo? E não é uma morte lenta. Bowman vai tirando e lançando ao ar célula por célula do super-cérebro de Hal, que começa aos poucos a falar de maneira desconexa e confusa.

   "Minha mente está se partindo" - diz ele - "Posso sentir...posso sentir...posso sentir..."

    Hal está morto. O Homem venceu.

   Mas, para David Bowman, a viagem está apenas começando...

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