Contribuição de Ilo Krugli



Surge, assim, Ilo Krugli como mais um dos personagens na história do MEA, tentando articular o teatro e a educação.

Há, neste sentido, uma entrevista de Krugli concedida ao jornal arte & educação (ano 1, n.º 0, experimental), intitulada - Teatro: Laboratório de Criatividade - em que ele fala de sua inserção na EAB e conseqüentemente no MEA. Essa entrevista é significativa por que chama atenção para uma visita que Garcia Lorca fez a Argentina, na qual se estabelece o encontro entre Lorca e Villafañe e a influência de ambos em Krugli e em toda uma geração de artistas e educadores. Ressalta Krugli:

"A visita de Garcia Lorca10 a Buenos Aires em 1936 determinou um surto de fantoche. Lorca fez apresentações na Argentina de seu teatro de fantoche e, quando partiu, o poeta Javier Villafañe deu continuidade ao trabalho de Lorca ao lado de outros. Meus primeiros contatos foram com os trabalhos dele. Sua linha de experiência era a criação poética através do boneco. (1970:7)

Sobre sua própria formação ressalta Ilo Krugli:

"Assimilei por outro lado uma série de experiências, assistindo a espetáculos no Teatro Experimental Judeu de caráter popular em Buenos Aires. Esta talvez tenha sido minha experiência fundamental pelos hábitos de disciplina que adquiri e propósitos renovadores que me colocaram em contato com o teatro clássico e o moderno. Por outro lado, minha vivência de arte popular, e contato com comunidades indígenas no Peru e na Bolívia deixaram marcas em meu trabalho."(1970:7)

A experiência de Krugli no Brasil, foi a partir de sua chegada em 1961, onde seus primeiros contatos foi com a EAB. Sobre os cursos que ministrou na EAB ele ressalta um aspecto que volta a baila várias vezes em artigos e entrevistas do jornal arte & educação (ano 1, n.º 0). Por isso parece-nos uma discussão importante no âmbito do MEA, assim polemiza Krugli:

"(...) a medida que se desenvolviam ou que fazíamos experiências com crianças e adolescentes, fomos sentindo que o primeiro curso fora em nível de iniciação profissional e começamos a separar dois aspectos do teatro: o teatro feito para crianças e o teatro feito com a criança (...)"(1970:7)

Sobre os cursos realizados para adultos (na maioria professores) foi necessário, segundo Krugli, desenvolver toda uma pesquisa em busca de sistematizar o trabalho de "formação" de educadores na área do teatro na educação. Como decorrência dessa pesquisa, Krugli diz que buscou também perceber o teatro que era feito para crianças, fomentando em seus alunos-professores a busca pela qualidade da produção teatral para a infância.

A concepção de teatro de Krugli, como veremos a seguir na citação, está intimamente ligada ao ideário modernista do ensino da arte:

"O teatro oferece amplas possibilidades catárticas e o sucesso do trabalho como da motivação depende justamente dessa possibilidade de cada um poder expressar seus conteúdos particulares. Grande parte das experiências de dramatização se desenvolvem tendo em vista a expressão plena do indivíduo. Muitos dos exercícios, (...) são de caráter não verbal, o que exige do aluno uma conscientização e uma reflexão maior de seus conteúdos interiores. Poucas vezes partimos de histórias conhecidas e menos ainda de textos elaborados para o teatro."(1970:7)

Krugli destaca a possibilidade que o teatro oferece como catarse, e isto se justifica à medida em que o ensino de arte difundido pelo MEA estava embasado no processo criador: oportunidade de liberação das emoções com ênfase no indivíduo (no subjetivo).

Deste modo, o jogo dramático pode ser compreendido como o próprio processo criador pois, na situação de jogo, surgiriam e delineavam-se os personagens, apresentando características diferenciadas um dos outros, forjando os conflitos. Dessa interação complexa, nasciam as histórias.Para complementar esta idéia, recorremos ao próprio Krugli, quando este afirma.

"Na dinâmica desta situação, o espetáculo e a representação têm menor relevância. De qualquer forma não se trata de um teatro de tipo psicológico. Em nossa experiência, uma série de valores se inter-relacionam com a mesma intensidade como seja: a criação individual e coletiva, o desenvolvimento rítmico, o movimento corporal, bem como a expressão verbal e corporal." (1970:8)

Quanto ao teatro feito com a criança, Krugli chama atenção que "(...) a tônica era a improvisação e a pesquisa de materiais e espaços (...)" (1970:8) partindo do teatro de bonecos. Krugli ainda destaca que "(...) criava-se teatrinho de bonecos em qualquer canto na Escola"(1970:8).

Iam Michalsky, estudioso e crítico de teatro, escreveu um artigo para o jornal arte & educação (ano 3, n.º 14), no qual faz uma análise de um trabalho de Krugli - "lenço e vento".

O artigo lenço e vento, arte ou educação? por seu próprio título, sugere uma discussão aprofundada de várias questões. Dentre elas, a questão do teatro como possibilidade educativa. Neste sentido, Michalsky reforça que Krugli não faz um teatro com pretensão pedagógica, cheio de lições, mas através desse trabalho, provavelmente as crianças aprenderam muito.

Vejamos o que diz Michalsky:

"Em vão procuraríamos, quer no texto ou na encenação, qualquer intenção pedagógica. E, no entanto, a criatividade do espetáculo é tão rica, sua beleza visual tão intensa, sua musicalidade tão contagiante, sua variedade de recursos tão fascinante, que a criança acaba sendo submetida não só a um saudável banho de emoção estética, mas também - indiretamente - a um autêntico processo de aprendizagem".(1974:16)

Krugli tentava desenvolver a atividade teatral através de seu fazer, articulando com outras linguagens artísticas. Partindo do que ele chamava de criação coletiva. Penso que essa articulação do teatro com a música (sons), com a plástica (cenários, vestuário) e com a dança (gestual e movimento), inspirava-se na concepção de "teatro total" preconizada por Richard Wagner no começo do século XX.

É interessante dizer que, ao contrário das artes plásticas que na concepção de ensino de arte modernista negava o contato da criança com obras de arte, acreditando que a originalidade da mesma poderia ser afetada: o teatro na educação ao privilegiar o fazer parecia não negar radicalmente o apreciar. Claro que esse apreciar em menor proporção do que o fazer à medida em que este apresentava-se como uma das características marcantes do ensino de arte modernista.

Ilo Krugli trabalhou como professor de teatro nos Cursos Intensivos de Arte-Educação (CIAE)11 , promovidos pela EAB. Esses cursos mobilizavam professores, psicólogos e artesãos de todo o Brasil a virem ao Rio de Janeiro com o intuito de aperfeiçoamento das suas teorias e práticas.

Para não corrermos o risco de desrespeito com a história, devemos acrescentar que Ilo Krugli trabalhou juntamente com o artista e professor Pedro Domingues.

Cabe um parêntese para comentar um artigo no jornal arte & educação (ano 1, n.º 1)de Oscar Araripe cujo título é extremamente instigante - infantil, mas sem insulto - no qual as perguntas chaves são: Deve a criança ser um simples espectador ou participar da criação de seu teatro? O hábito de ir ao teatro se forma na infância? Araripe ironiza a resposta, afirmativa para a segunda questão, dizendo que ela não passa de meia verdade, pois o problema é o seguinte:

"(...) há uma diferença entre o teatro das crianças e um outro feito para crianças e, nesta diferença, reside parcela de desinteresse que o adulto, de um modo geral, tem pelo teatro (...)".(1971:7)

O artigo de Araripe, que segue a mesma linha de discussão proposta na entrevista de Krugli, questiona o teatro que se rotulou dirigir para as crianças enfatizando o caráter falsamente pedagógico do mesmo que é na realidade altamente moralista por ser maniqueista: o bem sempre vence o mal.

Através da ilustração enfatizada na discussão anterior, nota-se que havia no MEA um trabalho voltado não apenas para o teatro feito com as crianças, mas também buscava-se compreender criticamente a produção teatral que envolvia em seu fazer a criança. Desta forma, podemos dizer que o MEA trabalhava em duas vertentes: a primeira buscava tornar acessível o fazer teatral para a criança à medida em que os jogos, a improvisação, a expressão corporal eram a base do cotidiano da atividade teatral na escola. Enquanto que o olhar crítico era exercitado no contato com obras teatrais.



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