Surge então, outro personagem na história da articulação entre o teatro e a
educação. Neste sentido, quem melhor sistematizou tentando unir teoria e
prática na proposta de ensino de teatro no âmbito do MEA foi o professor Hilton
Carlos de Araújo.
Seu livro Educação Através do
Teatro, publicado em 1974, traz na apresentação da professora Edília Coelho
Garcia do Conselho Federal de Educação e do Conselho Estadual de Educação da
Guanabara - RJ, que este trabalho do professor Araújo, desperta no meio
educacional a oportunidade de se compreender melhor a importância do teatro na
educação. Nesse texto de apresentação a ênfase é no teatro como oportunidade de
exercício da livre expressão, quando a apresentadora diz sobre o livro:
"(...) Educação
Através do Teatro - ensina como pode o Teatro ser posto a serviço da educação.
Mostra como o Teatro na escola é capaz de oferecer ao aluno a oportunidade de
se exprimir livremente, de criar, de extravasar o manancial de riquezas que tem
dentro de si. Indica como a atividade teatral bem orientada apresenta o jovem
como ele é, o que pensa do mundo e das pessoas, a que aspira, o que
receia."(1974:9)
A apresentação segue, como não
podia deixar de ser, valorizando a originalidade e a possibilidade que o teatro
suscita de socialização, além de enfatizar o teatro, como suporte para a
aprendizagem de conteúdos de outras disciplinas.
Estudando a bibliografia sobre a
qual Araújo se fundamentou, uma obra se destaca: Improvisation for the
Theatre12 da americana Viola Spolin.
Se faz necessário um parêntese: sobre esta obra devemos dizer que em 1979 a
professora Dr.a, brasileira, Ingrid Dormien Koudela (Escola de
Comunicação e Artes-USP) traduziu sob o título - Improvisação para o Teatro,
publicação da Editora Perspectiva. Em um outro livro Jogos teatrais Koudela,
comentando sobre o objetivo do método proposto por Spolin, diz o seguinte:
"O objetivo explícito
em Improvisação para o Teatro é a transmissão de um sistema de atuação que pode
ser desenvolvido por todos os que desejem se expressar através do teatro, sejam
eles profissionais, amadores ou crianças."(1990:40)
Segundo Koudela, Spolin recebeu
influências de Stanislávski e de Neva Boyd "com a qual teve um
treinamento em jogos, arte de contar estórias, danças e canções
folclóricas." (1990:40).
O método de Spolin explicitado
em Improvisação para o Teatro, exerceu grande influência sobre as
vanguardas do teatro e do ensino de arte (tanto de crianças quanto de adultos)
nos Estados Unidos e em outros países. Sobretudo no Brasil as idéias de Spolin
foram mais amplamente popularizadas a partir da tradução elaborada por Ingrid
Koudela.
Fechando esse parêntese,
voltamos ao livro de Hilton Carlos de Araújo, chamando atenção para sua
sintonia com os estudos desenvolvidos por Spolin, o que significa uma abertura
e ao mesmo tempo um avanço na ligação entre o teatro e a educação.
Conseqüentemente as idéias de Araújo, que confundem-se com as do Movimento,
foram difundidas pelo MEA através de sua atuação em cursos, palestras e da
própria publicação do livro que ora analisamos.
A partir de uma análise do livro
de Araújo, levantamos duas questões: a primeira diz respeito ao contexto mais
amplo de nossa História da Educação à medida em que seu trabalho foi gestado e
publicado em pleno rigor da Lei de Diretrizes e Bases da Educação 5692/71.
As autoras, Fusari e Ferraz na
obra - Arte na Educação Escolar - colocam o ambiente histórico de nossa
educação nos anos 70, afirmando:
"No início dos anos
70, concomitantemente ao enraizamento da pedagogia tecnicista no Brasil, é
assinada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 5692/71, que
introduz a Educação no currículo escolar 1º e 2º graus".(1992:37)
Esta lei afirmava a arte no
currículo escolar como mera atividade destituindo-a de seu caráter de
disciplina que possui uma epistemologia e colabora eficazmente na construção do
conhecimento humano.
Sobre os procedimentos nas aulas
de arte, recorremos novamente a Fusari e Ferraz, citando uma outra obra - Metodologia
do Ensino da Arte - dizem elas:
"Nas aulas de arte,
os professores enfatizam 'saber construir' reduzido aos seus aspectos técnicos
e ao uso de materiais diversificados (sucatas, por exemplo), e um 'saber exprimir-se'
espontaneístico, na maioria dos casos caracterizando poucos compromissos com o
conhecimento de linguagens artísticas."(1992:32)
Salientamos, desta forma, que as
idéias defendidas por Araújo estavam intimamente fundadas na concepção oficial
de arte como atividade não sendo por acaso a recomendação na capa do seu livro
que diz o seguinte: "de acordo com a Lei 5692/71" sendo imediatamente
reforçada no 1º parágrafo da orelha com a justificativa da Editora Editex:
"Pretende a Editora
que este livro ocupe lugar próprio no ensino das artes cênicas, disciplina
integrante de Educação Artística - hoje obrigatória na área de Comunicação e
Expressão (...)".(1974)
Através desses olhares a cerca
do livro de Araújo podemos, de alguma forma, afirmar que sua proposta na
realidade estava expressamente comprometida com a oficialização do ensino de
arte pois traduzia e se fundamentava no ideário da lei em vigor. A segunda
questão é com referência a uma espécie de slogan que ficou bastante conhecido
entre os arte-educadores brasileiros na década de 70 - é mais importante o
processo do que o produto. Araújo coloca essa idéia em seu livro de uma forma
mais sofisticada, dizendo que a relação ensino-aprendizagem em arte, parte do
processo e que o produto é algo que pode ser colocado em segundo plano. Fomos
buscar no próprio, sua justificativa para essa questão:
"Para nós,
educadores, ressalta da maior importância o processo que devemos desenvolver
para possibilitar ao nosso aluno - 'a pessoa que cria' - realizar algo de novo,
com seus próprios recursos e dentro de suas possibilidades. O 'produto' a ser
criado é importante, mas nele não reside o fim do que nos propomos
realizar."(1974:19)
Buscando aprofundar essa
pesquisa, encontramos outra versão mais crítica, sobre a discussão que ressalta
o processo quase que em detrimento do produto. Fomos encontrar tais idéias na
revista especializada ar'te: estudos de arte-educação.
Nossa referência é o texto da
professora Regina Machado (Doutora da ECA-USP, na ocasião Mestre em
Teatro-Educação pela New York University-USA). Em seu texto Sobre o Teatro
na Educação: Em busca do Equilíbrio Perdido, ela faz uma colocação permeada
de um tom crítico sobre a questão do processo e do produto, dizendo o que se
segue:
"Houve um tempo em
que a palavra produto era proibida entre os arte-educadores, que desfraldavam
convictamente a bandeira 'o importante é o processo' com todas as suas cores:
livre expressão, aprender fazendo, criatividade, desbloqueio emocional - mesmo
que não se soubesse muito bem do que se estava falando."(1982:9)
Opondo dialeticamente e tentando
guardar as devidas datas entre as idéias de Araújo (anos 70, concepção de
ensino modernista) e as idéias críticas de Regina Machado (anos 80, embrião da
concepção pós-modernista em ensino de arte), podemos elaborar uma nova síntese
sobre a questão do processo e do produto. Tal síntese, pressupõe que todo
processo implica em um produto, só que em ensino de arte esse produto não pode
ser compreendido como algo acabado, definitivo: como qualquer produto artístico
ele é provisório e sujeito a reelaborações constantes.
Somos levados, então, a tentar
compreender a passagem (atuação) de Araújo no MEA, através da difusão de suas
idéias. Assim, temos que admitir alguns aspectos evolutivos presentes nas idéias
de Araújo que tornaram possível uma nova sistematização em ensino de teatro.
Passamos da mera ligação entre teatro e educação para uma sistematização um
pouco mais precisa que ele denominou de Educação Através do Teatro, inspirado
na proposta difundida pela EAB de Educação Através da Arte como já dissemos.
Voltando aos aspectos que
consideramos importantes em seu trabalho, queremos começar com o que pensamos
ser mais interessante: a sistematização de Educação Através do Teatro, que
apresentou-se como referencial significativo para uma grande maioria de
educadores, adeptos do fazer, e por isso desacostumados a lidar com fundamentos
teóricos em ensino de arte.
O aspecto menos interessante que
encontramos em Educação Através do Teatro é a abordagem comprometida com o
modelo oficial - Educação Artística - que propunha a arte no currículo escolar
apenas como mera atividade.
Considerando que o MEA em sua
origem - EAB - surgiu como crítica ao modelo tradicional de ensino, forjando o
método de livre expressão como uma possibilidade de romper com o padrão de
cópia imposto à criança: através da proposta de Araújo o ensino do teatro perde
o sentido libertário e passa a ser mera concessão oficial. Desta forma, todo o
caráter transgressor que fez do MEA uma referência (revolucionária) em ensino
de arte assume a partir do livro em debate o ideário da oficialização da arte
na escola, legitimando a Lei 5692/71.