Um desdobramento do Movimento Escolinhas de Arte



Nos anos 80, na cidade do Salvador (BA), vamos encontrar um significativo fruto do MEA, através do trabalho de uma equipe cuja liderança era da professora Maria Dolores Coni Campos, que tendo sido estagiária, aluna do Curso Intensivo de Arte-Educação (CIAE) e finalmente professora da EAB: sabia o valor da educação através da arte e por isso foi uma das catalisadoras quando da criação de uma escola informal de arte na cidade anteriormente citada.

Foi criado, então, o Núcleo de Arte-Educação da cidade do Salvador-NUCLEARTE - como um projeto criado para atender as crianças das classes populares contra a sonegação do conhecimento arte. Esta escola informal se organizou em forma de oficinas - da natureza, do brinquedo, de bonecos (teatro), música, roupas e tecelagem.

Exatamente por ter apreendido, na EAB, que a arte na educação exige estudo, pesquisa e aprofundamento, a professora Maria Dolores Coni Campos, conta em seu trabalho monográfico13 - A Importância do Processo Criador na Formação do Educador: Uma Ação Transformadora - que ela e seus companheiros (nessa aventura) sentiram necessidade de organizar o I Encontro Municipal de Arte-Educação. Segue ainda contando a professora que:

"Vieram Augusto Rodrigues e Noemia Varela, da Escolinha de Arte do Brasil, Lúcia Valentim pelo MEC, Cecília Conde, pelo Conservatório Brasileiro de Música, Iara Rodrigues pela Escolinha de Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Zoé Chagas Freitas, presidente da Sociedade Brasileira de Arte-Educação, Ilo Krugli, arte-educador argentino radicado em São Paulo."(1993:72)

Como resultado deste encontro, nasceu a viabilização do NUCLEARTE e uma publicação14 , cujo título é: Uma Experiência em Educação, que traz o detalhamento de todo o projeto (das primeiras discussões à sua realização), recheado de expressivas fotografias.

O texto sobre a oficina de bonecos, assinado pela equipe reflete uma fundamentação piagetiana embora não conste nele nenhuma citação ou referência bibliográfica. Para que fique mais clara nossa percepção dos fundamentos em Piaget, neste documento, citaremos um trecho bastante significativo do trabalho analisado:

"Um baú de roupas/fantasias, colocado à disposição das crianças, deu margem a que elas, ao escolherem uma peça, um adereço, um sinal, se transformassem elas mesmas em reis, rainhas, diabos, feiticeiras, (...), criando à sua volta toda uma atmosfera de FAZ-de-CONTA."(1982:67)

As fotografias referentes a esta oficina ilustram, muito bem, o agir "como se" que o trecho citado explicita com clareza. Sentimos nas sugestões de agir fazendo-de-conta, que as roupas ou adereços dispostos no baú podem despertar na criança o desejo de jogar simbolicamente.

Para confirmar nossa percepção dos fundamentos piagetianos, presentes neste trabalho, fomos buscar na síntese das contribuições de Piaget ao desenvolvimento do jogo simbólico na criança, elaborada pela professora Maria Lúcia Pupo (Doutora da ECA-USP), aqui retiradas da obra de Fusari e Ferraz - Metodologia do Ensino da Arte. Enfatiza Pupo:

"Por volta de dois anos de idade, a criança começa a ser capaz de agir 'como se', ou seja, ela assume o papel de um ser animado ou inanimado, existente na realidade ou fictício, diferente dela. Ela faz-de-conta que é sua mãe, que é o jornaleiro da esquina. Da mesma maneira pode fazer de conta que seu avião está levantando vôo, ao fazer correr um cinzeiro no chão."(apud, 1993:86) (grifo nosso)

A recomendação de estudar a experiência do NUCLEARTE foi de D. Noemia Varela, por saber do compromisso, com o ensino da arte, de sua ex-aluna professora Maria Dolores Campos.

Porém, dando continuidade à pesquisa, fomos encontrar em Fusari e Ferraz (1993) uma longa referência do trabalho do NUCLEARTE no capítulo em que as autoras tratam sobre: A Criança Conhecendo a Arte - elas citam na íntegra a oficina de brinquedos, texto que vem reafirmar nossa percepção sobre os fundamentos piagetianos como aporte teórico desta experiência.

Retomando a questão da trajetória que o título deste trecho do trabalho sugere - Da Educação Através do Teatro ao Teatro Educação -, localizamos na obra de Richard Courtney: Jogo, Teatro e Pensamento, as referências fundamentais do pensamento de Platão, Rabelais, Rousseau e Dewey que foram reinterpretadas no âmbito do MEA.

Além dessas concernências influíram, também, para o complexo teórico-prático desenvolvido no MEA Read, Lowenfeld e Villafañe, como já mencionamos anteriormente, através de suas posturas filosóficas, estéticas, artísticas e pedagógicas "na" e "para" elaboração de uma concepção de ensino de arte baseada no jogo, na brincadeira, no gesto-traço e na espontaneidade da criança.

Tais idéias foram propagadas pelo MEA, atingindo um grande número de professores e incrementando a discussão sobre a importância da arte na educação, desde os anos 40. Neste sentido, podemos dizer que o MEA foi marcante em seu pioneirismo de trazer à tona um debate sobre o valor da arte na educação e sobre a livre expressão.

Deste modo, pensamos que o Movimento Escola Nova, propiciou a conexão de muitos saberes à medida em que foi um movimento educacional modernista que tentava, no pós-guerra, inaugurar uma postura de educação com fundamento humanista e libertário.

Anísio Teixeira, por defender as idéias de Dewey e como ativo incentivador do MEA, pode ser concebido como um dos fios condutores que buscava interrelacionar as idéias da escola nova com as idéias do MEA.

Assim, nosso olhar ao pesquisar documentos, textos, entrevistas no acervo da Escolinha de Arte do Recife e no acervo pessoal da professora D. Noemia Varela, também buscou desvelar as entrelinhas que possibilitasse relacionar o MEA com o Movimento Escola Nova.

Deste contexto, inferimos que em ensino de teatro o MEA foi também influenciado pela discussão e sistematização construída por Wnifreed Ward (Estados Unidos) e Peter Slade (Inglaterra).

Wnifreed Ward desenvolveu o conceito de criative dramatics e Peter Slade conceituou o child drama.

Ingrid Koudela considera que Wnifreed Ward buscou se fundamentar nos princípios da Escola Nova, já que estes podem ser encontrados embasando suas idéias em seus livros. Seguindo esse raciocínio, Koudela, ressalta:

" Apesar de autores como Francis Parker, John Dewey e William Wirt preverem oportunidades para expressão dramáticas, foi Ward quem desenvolveu os princípios e técnicas e popularizou a atividade por meio de seu trabalho na Northerwesterm University, e por meio de numerosos artigos e livros."(1990:20)

Por isso, arriscamos dizer que ouve uma estreita relação entre o MEA e o Movimento Escola Nova, até por que os princípios fundamentais escolanovistas, de alguma forma prepararam o terreno, nos anos 30, para o surgimento do MEA, nos anos 40. No entanto devemos guardar as devidas diferenças: o Movimento Escola Nova foi de âmbito mais abrangente, enquanto que o MEA teve seu papel, específico, de propagador do ensino de arte.

D. Noemia Varela, quando questionada sobre as ligações do MEA com a Escola Nova, diz que Onofre Penteado15 defendia esta idéia, mas ela própria não pensa assim, acrescentando que havia estreita ligação entre os dois movimentos mas que ambos apresentavam propostas filosóficas diferentes.

Sobre esta discussão, Ingrid Koudela chama atenção que os postulados difundidos pela Escola Nova provocaram conseqüências transformadoras significativas na área do teatro na educação:

"(...) não apenas durante a década de vinte, mas durante as três décadas que se sucederam."(1990:20).

Sabemos que a Escola Nova provocou uma mudança de eixo na relação ensino aprendizagem que por sua vez refletiu toda uma transformação na prática educacional. A partir de tais mudanças os professores de teatro passaram a valorizar o processo quase que "desprezando" o produto.

No contexto do MEA esta discussão foi levantada por Hilton Carlos de Araújo (nos anos 70). Ele deu bastante importância ao processo talvez por parecer estar convicto do ideal modernista de ensino de arte e ao mesmo tempo buscou fundamentos nas bases tecnicistas (Lei 5692/71) à medida em que valorizava o jogo na perspectiva de técnica criativa.

Peter Slade tinha como proposição a afirmação que existe uma arte infantil - child art . Em ensino de teatro, ele denominou a arte da criança como Jogo Dramático Infantil. Este princípio proposto por Slade pode ser identificado com o de outro inglês, Read, que também defendia a existência de uma arte própria da criança. Provavelmente ambos, inspirados em Cizek que, como D. Noemia Varela realça, atribuem a ele a invenção da expressão "arte da criança". Assim podemos compreender a conexão desses pensadores e suas respectivas influências na Educação Através da Arte.

Uma das mais fortes marcas do pensamento de Slade em nosso ensino de teatro advém de sua conceituação de jogo dramático, quando ele chama nossa atenção para o fato de que com as crianças menores deveremos distinguir:

"(...) entre drama, no sentido amplo, e teatro como é entendido pelos adultos. Teatro significa uma ocasião de entretenimento, ordenado e uma experiência emocional compartilhada; há atores e público, diferenciados. Mas, a criança, enquanto ainda ilibada, não sente tal diferenciação, particularmente nos primeiros anos - cada pessoa é tanto ator como auditório. Esta é a importância da palavra drama no seu sentido original, da palavra grega drao - 'eu faço, eu luto'. No Drama, isto é no FAZER e LUTAR, a criança descobre a vida e a si mesma através de tentativas emocionais e físicas e depois através da prática repetitiva que é o jogo dramático."(apud, 1990:21)

Na realidade, vamos encontrar também em Slade os princípios norteados do MEA, desde o trabalho de Krugli, à medida em que Slade prevê a catarse como um dos mais importantes valores que possui o teatro. Courtney, reforçando esta idéia sobre o pensamento de Slade, ressalta que:

"Slade está firmemente convencido de que o jogo dramático provê a criança de uma grande válvula de escape - uma catarse."(1980:46-47)

Peter Slade destacou o Child Drama como disciplina específica, e não como forma de aprender conteúdos de outras disciplinas, ao contrário do que encontramos até hoje em muitas escolas brasileiras.

Através desta ótica, podemos conectar as idéias difundidas por Slade com as que defendia Hilton Carlos de Araújo:

"(...) já participamos de trabalhos cujo tema havia sido sugerido por Estudos Sociais, Português, Biologia, Francês (...). É importante que (...)o teatro não participou como atividade secundária. Pelo contrário, foi o grande propiciador dos enfoques novos de assuntos que se tornaram mais atrativos (...)."(1974:21-22)

Infelizmente sabemos que, no espaço da educação escolar, existe até hoje por desconhecimento dos professores que não são (muitas vezes) habilitados para o ensino de arte, a postura de conceber o teatro como meio e não como fim em si mesmo. O Teatro-Educação é na realidade uma área de conhecimento específica, que tem natureza interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar, por isso mesmo, não pode ser pensada apenas como um mero recurso no espaço da educação escolar.

Convém trazer a discussão, com um olhar de hoje, o estudo desenvolvido pela professora Dr.a Maria Lúcia Pupo, sobre duas acepções de jogo dramático aqui citadas através da obra Metodologia do Ensino da Arte de Fusari e Ferraz. Enfatiza Pupo em sua reflexão:

"Entre os múltiplos caminhos possíveis para o professor, cabe salientar pelo menos dois, que têm como base a improvisação e o desenvolvimento da capacidade de comunicação teatral. Um deles é o jogo dramático termo cujo emprego exige precisão por parte de quem o utiliza, pois apresenta várias acepções. Determinados autores o empregam como sinônimo de faz-de-conta (...). Na acepção que nos interessa salientar qual seja a de uma modalidade de improvisação amparada por regras e proposta por um educador, o jogo dramático implica:
- na divisão, (...) entre quem joga e quem assiste;
- na proposição de temas ou de elementos da própria linguagem teatral - ação, espaço, personagem - como ponto de partida do jogo;
- na ação no aqui-agora, que engendra o sentido."(apud, 1993:116)

Maria Lúcia Pupo, segue ainda ressaltando a importância do trabalho desenvolvido por Viola Spolin e apresenta o sistema de Jogos Teatrais construído por Spolin. Vejamos a seguir o que diz Pupo:

"No sistema de jogos teatrais (...) um conjunto de regras ainda mais preciso cerca a improvisação teatral feita em grupos:

- foco: atenção voltada para um aspecto específico da linguagem teatral, como por exemplo, tornar real um objeto imaginário, espelhar a ação desenvolvida por um companheiro ou elaborar um personagem a partir da sensação causada por um fragmento de figurino;
- instrução: dada pelo professor ou diretor, relembrando o foco;
- avaliação: pela platéia, a partir do foco."(1993:117)

Ousamos dizer que o processo de jogos teatrais, na concepção de Spolin, pode ser compreendido como ensino de arte de tendência pós-modernista por trabalhar com o fazer, o ler e o apreciar, além disso, enfatiza Pupo:

"(...) o caráter estético da atividade é assegurado pela experimentação coletiva da linguagem teatral." (apud, 1993:117).

Sobre o jogar lembra ainda Pupo:

"(...) o jogo dramático na acepção acima referida, ou o jogo teatral - o aluno se defronta com o prazer lúdico, com a certeza da atitude de outro na ação improvisada, experimentando o mundo em condições que poderiam ser caracterizadas como sendo (...) de baixo risco, através do "como se" regulamentado coletivamente."(apud 1993:117)



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