Javier Villafañe exerceu marcante influencia sobre a EAB e o MEA: no livro Escolinha
de Arte do Brasil (1980), publicado pelo Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais, há um artigo de Rubem Braga (Correio da Manhã,
05-08-1946) em que ele fala da importância do poeta e titereteiro Javier
Villafañe.
Rubem Braga, no artigo em questão, narra o encontro
entre Augusto Rodrigues e Javier Villafañe como tendo acontecido permeado de
encantamento, ambos olhavam na direção de uma concepção de ensino de arte
(modernista) que libertava as crianças do padrão da cópia, para que assim, elas
pudessem expressar - livremente - o melhor de si mesmas.
Segundo Braga, há um episódio marcante que identifica
a paixão que Augusto Rodrigues e Javier Villafañe sentiam pelo ensino de arte
que incentiva a originalidade como possibilidade de transgredir os padrões
estabelecidos:
"Uma vez em Pernambuco, Augusto ouviu uma
diretora de escola perguntar a Javier se o teatro que ele fazia era pedagógico.
Villafañe respondeu que não. Quando um personagem meu diz que dois e dois são
quatro, eu ponho logo um para dizer que são cinco."(1980:17)
Percebe-se nesta resposta de Villafañe à diretora, o
quanto ele estava convicto do ideal modernista do ensino da arte, à medida em
que ele afirmava na entrelinha de sua resposta a originalidade como um valor a
ser cultivado e a livre expressão como princípio norteador da educação
através da arte.
No referido artigo, Rubem Braga descreve Villafañe,
dizendo o seguinte:
"O titereteiro é Javier Villafañe e titereteiro
quer dizer homem que faz títeres, e mexe com eles."(1980:18).
Villafañe fazia títeres para serem calçados nos dedos
e apresentava-se pelo interior do seu país, Argentina, e outros (Uruguai, Chile
e Brasil), utilizando a parte de trás de um carro puxado a cavalo - La
Andariega - que transformava-se em palco-cenário para suas representações.
Seus bonecos e cenários foram, muitas vezes, executados com a colaboração de
grandes artistas modernos da Argentina, tais como: Soldi, Petrorruti, Basaldua,
Gianbiaggi, Morena, Clark e Norah Borges.
Suas encenações eram voltadas, primordialmente, para
a criança. Ele sempre procurava parar sua carroça-sonho em escolas. Após as
encenações, ele procurava promover conversas sobre o que apresentara e, assim,
ia ensinando sua arte às crianças e professores.
Sobre suas interpretações, destaca Rubem Braga:
"As peças que Villafañe interpreta com os dedos
e a voz são tiradas do antigo teatro espanhol - Lope de Veja, Timonera e
Cervantes - e também de autores modernos como Garcia Lorca. E o próprio poeta
faz peças utilizando lendas e contos populares."(1980:18)
Um aspecto interessante do trabalho de Villafañe, que
tem estreita relação com a concepção de ensino de arte difundido pelo MEA, é
justamente o fato de que ele após cada apresentação procurava conversar com as
crianças e professores. Das crianças, nessas conversas, ele pedia para que elas
desenhassem ou escrevessem cenas referentes (ou não) ao que acabavam de
assistir. Através desta prática ele foi colecionando e organizando um acervo
com mais de um milhão de desenhos de crianças.
Em 1946 - dois anos antes da criação da EAB -
Villafañe veio ao Brasil para expor 110 desenhos infantis, elaborados a partir
das peças que apresentava. Esta exposição foi uma missão promovida pela
Comissão Nacional Argentina de Cooperação Intelectual, tendo acontecido no eixo
Rio-São Paulo e durante a mesma, ele, todas as tardes, fazia uma apresentação
para o público e dava uma aula prática.
Pelas razões explicitadas, compreendemos o quanto
Villafañe, através de suas idéias, foi importante para o MEA e não é por acaso
que outro Argentino, Ilo Krugli surgiu na história do MEA ao identificar-se com
o trabalho desenvolvido na EAB, através do teatro de bonecos - herança das
idéias de Villafañe.