O MUNDO DE FLORES MORTAS
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Individualismo e Subjetivismo:

A ideologia burguesa centra-se nas liberdades (expressão, iniciativa, concorrência) do novo homem e nas infinitas chances de auto-realização do indivíduo. O Romantismo, reflexo da nascente ordem social, centra-se na glorificação do particular, do singular, do íntimo, daquilo que diferencia uma pessoa de outra. O individualismo e o subjetivismo parecem ser faces distintas da mesma moeda, no caso o eu.

A primeira face é a do triunfo, da capacidade do indivíduo de alçar-se sobre a mediania e de afirmar arrogantemente suas ambições e desejos. Por isso, ninguém seduz tanto a alma romântica como Napoleão. Sua incrível trajetória - da pobreza juvenil à chefia de um grande império - serve de modelo e lembrança. Trata-se do maior exemplo de individualismo nos primeiros tempos burgueses e é celebrado por uma incrível quantidade de artistas que com ele se identificam, inclusive alguns brasileiros.

Porém, a alma romântica conhece uma outra face do individualismo, a do eu opresso, esmagado pela solidão e pela brutalidade do mundo. Isso ocorre em um segundo momento, quando os artistas se dão conta tanto da impossibilidade de uma nova experiência napoleônica, quanto da mediocridade da burguesia pós-revolucionária, voltada apenas para a acumulação de capital. Uma espessa melancolia se apossa dos corações, e por todos os lados vê-se o lado sombrio e inútil da existência.

Ao sentir que os seus vínculos com o mundo foram rompidos, os artistas arrojam-se no próprio eu, numa espécie de compensação. Um eu incômodo, estranho, que ameaça ora com o caos, ora com o êxtase, um eu que afirmam orgulhosamente e, ao mesmo tempo, um eu angustiado, infantil, incapaz de transformar o mundo. Daí que quase toda a literatura romântica seja o grito de subjetividades que confessam a si mesmas: seus sonhos, projetos, medos e sofrimentos. Veja-se o exemplo de Lord Byron:

"Já é tempo do meu coração não se comover
porque aos outros já deixei de emocionar
mas embora eu não possa ser amado
que possa pelo menos amar."

Os sentimentos tornam-se mais importantes do que a racionalidade. A existência só adquire sentido, se guiada e desenvolvida sob o seu domínio. Eles são sob medida da interioridade de cada pessoa, medida de todas as coisas. Negar-se à expressão sentimental significa ser insensível e estúpido. Werther morre de amor, e tudo se justifica: perda da honra, cisão da moral, etc. Se os gestos nascerem de sentimentos autênticos. Observe-se um fragmento do mais famoso romance de Goethe:

"Como a sua imagem me persegue! Ela toma conta de toda a minha alma, quer esteja desperto, quer sonhando. Aqui, quando fecho os olhos, aqui, atrás de minha fronte, onde se concentra a visão interior, encontram-se os seus olhos negros. Exatamente nesse lugar! Não sei como exprimir-te isso melhor. Quando fecho os meus olhos, os dela estão lá; descansam diante de mim, como um mar, como um abismo, preenchendo todo o meu sentir."

Os românticos, em suas obsessões sentimentais, terminam indiscutivelmente por criar um novo significado para as paixões humanas. A expressão "amor romântico" ainda hoje é comum e indica profundidade, intensidade, delicadeza e até desmedida do afeto. A idéia do "grande amor", ideal e infinito, exclusivo e febril, percorre as mentalidades ocidentais há dois séculos e somente na violenta revolução de costumes dos anos de 1960 e 1970, essa idéia sofreu abalos consideráveis. Mesmo assim, pensamentos como esse de Werther são comuns entre os seres apaixonados:

"Às vezes não compreendo como outro possa amá-la, tenha o direito de amá-la, quando eu, somente eu a amo com tanta ternura, tão profundamente, não pensando em outra coisa, querendo apenas esse amor, e não possuindo nada além dele."

Formas de Evazão:

A inconformidade do artista romântico com o "mundo cruel" leva-o a uma série de procedimentos de fuga. Já que a sociedade não quer escutá-lo ou não sabe compreendê-lo, já que ele está perdido numa realidade incômoda e brutal, já que sua sensibilidade não possui força para mudar o destino, resta-lhe apenas a tentativa de escapar.

Sonho e fantasia: A evasão mais comum dá-se através do princípio da fantasia. O poeta devaneia, cria universos imaginários, onde encontra a luz e a alegria que a sociedade burguesa não lhes oferece. O sonho não é apenas a fonte obscura e misteriosa que alimenta a criação artística, mas uma forma de resposta à hostilidade do mundo. Novalis declara isso textualmente: "O sonho me parece uma vala de proteção contra a vulgaridade da vida."

Álvares de Azevedo transita continuamente entre os níveis concretos da vida social e as fantasias de sua subjetividade atormentada, sem escapar do dilaceramento que esta divisão sonho-realidade lhe causa:

"Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...
De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte anos!... não vivi um só momento!"

O Mal-do-Século: O "mal do século" é uma "enfermidade moral" e não física. Resulta do tédio ("ennui", "spleen"), mas não do tédio comum (enfado diante da chatice da vida). A concepção romântica aponta para um aborrecimento desolado e cínico, que ressalta tanto a falta de grandeza da existência cotidiana quanto o vazio dos corações juvenis. Estes acreditam ter vivido todas as paixões e ter experimentado todos os abismos.

No final do Romantismo, o poeta Baudelaire - já vinculado à estética realista - produz um célebre verso: "Infelizmente eu já li todos os livros e minha carne está triste." É uma síntese desse tédio que conduz os poetas a uma espécie de sentimento mórbido de insatisfação e de manso desespero. Algo próximo da sensação de absurdo da vida. Em A confissão de um filho do século, Alfred de Musset tenta decifrar o nascimento desta sensação incômoda de náusea e desilusão:

"Um sentimento de inexprimível mal-estar começou a fermentar em todos os corações jovens. Condenados à inércia pelos soberanos do mundo, entregues aos medíocres de toda a espécie, à ociosidade e ao enfado, os jovens viam distanciar-se as ondas espumantes para as quais haviam preparado os seus braços. Todos esses gladiadores, lambuzados de azeite, sentiam no fundo da alma um tédio insuportável."

Culto ao passado: Em contraponto ao presente insatisfatório, o romântico encontra constantemente no passado ideais sublimes e valores modelares. Esta mitificação daquilo que já transcorreu obedece, geralmente, a uma tendência de fuga da realidade, pois tanto o mundo medieval como o mundo infantil representam o paraíso perdido, uma época de ouro na qual as criaturas seriam felizes.

Pela nostalgia de um tempo que sequer os autores conheceram - caso do passado histórico - nega-se o presente, hostil e causador de sofrimentos, conforme podemos ver nas narrativas de Walter Scott, tipo Ivanhoé. Sublinhe-se apenas que, em certos países jovens ou que emergem de movimentos libertadores, o gosto pelo passado histórico não se apresenta como fuga, e sim como fundamentação da nacionalidade. Também o retorno saudoso à infância toma a forma de uma inconformidade com a vida presente, conforme podemos ver neste fragmento Casimiro de Abreu:

"Ah! minha infância saudosa
Que me mostravas à mente,
Neste viver inocente,
Tão verdejante e florida,
A longa estrada da vida
Que é toda tão escabrosa!"

Liberdade Artistíca:

A arte clássica sempre esteve sujeita a normas, padrões e modelos. Durante o Romantismo, em decorrência da liberdade de expressão alcançada pela sociedade burguesa, todas as receitas de conteúdos e de escrita das obras são destruídas. Abole-se as fronteiras entre os gêneros: em um mesmo texto admite-se o cômico e o trágico, o sublime e o grotesco, etc.

"Ao martelo com as regras!" - grita Victor Hugo no prefácio de sua peça Cromwell, em 1827, indicando que nem os temas, nem as estruturas de composição, nem os estilos devem responder a esquemas rígidos e pré-fixados. Ao contrário, devem nascer espontaneamente, de acordo com o propósito individual de cada criador.

A partir de agora, qualquer um elabora objetos artísticos, obedecendo apenas aos estímulos de sua interioridade. Talvez seja esta a característica mais importante da arte romântica, postulado que se radicalizaria na arte moderna. De alguma maneira, a beleza embriagadora de um quadro de Picasso, ou o lirismo violento e neurótico de um romance de Henry Miller, têm suas raízes na luta travada pelos artistas, no início do século XIX, pela liberdade de expressão.

Estejamos conscientes, entretanto, de que a liberação romântica é parcial, pois permanecem inibições, repressões e cacoetes estilísticos que quase se transformaram em novas regras de bem escrever. A aventura da liberdade total se daria apenas no século XX.

Estética:

Estilisticamente, o Romantismo apresenta alguns princípios elementares:

A expressão artística (a exemplo da temática) é um processo resolvido mais pela inspiração do que pela pesquisa formal. Daí a impressão de descuido e excesso que muitos textos do período nos deixam;

Na poesia, há grande variedade métrica, de ritmos e de rimas, indicando a liberdade de composição que os autores experimentam;

O uso intenso de adjetivos, em função de sua força expressiva e de seu poder de qualificar uma numerosa gama de sentimentos. Os adjetivos - segundo os românticos - ampliam ao máximo a conotação emotiva das palavras, fixando tonalidades e nuanças da natureza e das paixões humanas. Com o tempo, alguns desses vocábulos tornam-se verdadeiros lugares-comuns: doce, cálido, mimoso, infeliz, fatal, puro, cândido, celestial, etc;

A freqüente utilização de metáforas, hipérboles e outras figuras tanto na poesia quanto na prosa, aproximando (até certo ponto) um gênero de outro. No campo simbólico, predominam imagens extraídas de fenômenos naturais, normalmente grandiosos: florestas, correntezas. tempestades, tufões, etc;

A abundância de interjeições e exclamações, criando um tom de exaltação retórica.

No conjunto, a linguagem romântica deixa a impressão de grandiloqüência, ênfase declamatória e busca do sublime. Ainda no século XIX, ela seria atacada por realistas, parnasianos e mesmo por simbolistas. Entretanto, sua destruição, como fórmula expressiva, aconteceria somente com as vanguardas artísticas do século XX, que instaurariam o domínio da linguagem coloquial.

Texto de: Sergius Gonzaga.(adaptação)
Retirado de: WWW.GOTHICARTS.KIT.NET e créditos ao mesmo.

By: Valéria..^Å^.C.® (Flower Dead)

PERFIL
Nome:
Valéria.. ^Å^.C®

Nick:
Flower Dead

Idade:
19 anos.

Bandas:
The Cure, The Smiths, Midnight Oil, New Order, Joy Division, The Sisters of Mercy, Bauhaus, Siouxsie & The Banshees, The Doors, Ira!, Helloween, Led Zeppelin, Metallica, Black Sabbath, Ozzy, Iron Maiden, Metallica, Marilyn Manson, etc...

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