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O irmão de Edgar diz que vai para a padaria.

Edgar, preocupado com a empresa e as contas, assente sem prestar muita atenção. Mas, em um momento de humanidade, completa:

- Anime-se, você tem talento para muita coisa, não é o fim do mundo.

Seu irmão solta um breve e forçado sorriso e desaparece da sala.

Edgar é pai, responsável, preocupado com contas. Mas as vezes se dá ao luxo de pensar no rapaz melancólico, com pena, depois desvia atenção para os seus próprios problemas.

A casa é cheia de sons e ruídos, sua filha Ana grita irritada com seu irmão. Está furiosa com o moleque que usou e manchou a jaqueta de couro. O pai verifica as contas do mês, coloca na ponta do lápis enquanto sua mulher toma uma ducha. Liga para o seu contador para verificar o que o André, seu contador, conseguiu reter da fonte. Quase a totalidade do que o leão iria abocanhar, é muito bom ter um contador “hacker”.

Começa a chover forte, a luz apaga, o computador central não ativa a luz a de emergência. Seguindo o que aprendeu na maioria dos filmes, Edgar desce as escadas que vão para a garagem em busca da chave geral. Penumbra, carrinho deixado no degrau, queda inevitável. O pé se encaixa na parte superior do carrinho, sua estrutura não agüenta e quebra com o peso do pai, mas não o suficiente para danificar as rodas. Está sobre um patim acidental. O patim escorrega no degrau, os pés levantam, o corpo gira sobre o seu centro de gravidade, a cabeça descreve um arco para trás, para baixo em direção ao degrau. Como todo o corpo está sendo projetado para frente a cabeça passa rente ao degrau seguinte sem bater e o corpo continua o giro no ar. Depois do giro completo pé bate forte no degrau seguinte e o outro pé impulsiona o corpo para frente interrompendo o giro. As mãos se agarram ao fio da lâmpada da garagem e Edgar se lança para o outro lado da garagem voando sobre ferramentas cortantes e com pontas. O fio arrebenta e o pai cai, na escuridão sobre alguém que segura uma arma. A arma dispara e se solta da mão do estranho. 

 

Os dois caem pesadamente sobre o piso. O pai sai ileso, mas o intruso bate a cabeça. Acende uma lanterna e vê o invasor ensangüentado, um ladrão armado na garagem. O homem levanta cambaleante e senta. Mesmo sendo um bandido precisa de cuidados. Edgar junta a arma. 

Quando percebe que o computador está funcionando fala para este: -109... Chame emergência, batida forte com sangramento, fim da ordem.

Pergunta ao desconhecido: - Sente náuseas? Tonteira? Sono?

- Sim- Responde o estranho com a voz quase inaudível.

Neste momento a mãe abre a porta da escada, com a luz da sala vê o marido com a arma e não o reconhece, vê alguém sentado na cadeira com sangue que julga ser Edgar, corre para o telefone, chama a polícia e alerta que tem um assaltante armado na sua garagem com seu marido ferido. Depois se esconde com seus filhos.

A ambulância chega. O marido guarda a arma na gaveta com código e abre a garagem para os paramédicos. Logo a seguir a polícia chega e prende Edgar. O intruso, enquanto isto é tratado no interior da ambulância.

A mãe ganha coragem, sai do esconderijo, quando sabe o que está acontecendo percebe o engano, avisa que o bandido deve estar no interior da ambulância. Os paramédicos saem para entenderem o que está acontecendo, o estranho, abandonado, sai da ambulância, já não sangra mais. Com o curativo na cabeça, caminha cambaleante, pensa que não faz parte do sistema, está além dele.

Não é invasor, nem ladrão, é o tio que estava na garagem prestes a puxar o gatilho, tinha acabado a luz, ao puxou o gatilho sentiu o corpo sendo jogado no chão, nunca tinha atirado na própria cabeça, por isso, para ele o sangue, o irmão, os paramédicos, tudo aquilo fazia parte de sua pós-morte.

Caminha pela rua como um fantasma. Tudo a sua volta deve ser uma simulação do mundo real, ou é outra realidade, uma segunda chance. Se for isso, vai tentar de novo, caminha para a padaria, come um croissant, bebe um chá e olha desconfiado para tudo o que vê, para a nova realidade que se descortina diante de seus olhos. Ele tem certeza que morreu uma vez, tem certeza que puxou o gatilho, tem certeza que sua cabeça sangrou, mas agora se sente muito bem.

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